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A escravidão e a injustiça socioambiental sob várias roupagens

segunda-feira 24 de março de 2014, por Sucena Shkrada Resk,

Um silêncio misturado à emoção e a certo amargo na boca. Sensações diversas após assistir o filme “12 Anos de Escravidão – Solomon Northup", dirigido por Steve McQueen, baseado na história real deste escravo liberto no século XXI, que foi sequestrado em 1841, no Estado da Lousiana, nos Estados Unidos, onde por 12 anos passou pelas mais difíceis experiências com outros homens e mulheres negros até reconquistar sua liberdade. Mas será que essa realidade está tão distante da contemporaneidade, quando ampliamos a nossa visão sobre o estado do mundo?

Ao se discutir este tema, também está sendo tratada a questão da justiça socioambiental. Este é um conceito que surgiu a partir da década de 60, nos EUA, pela luta da população negra pelos direitos civis. À época, esses cidadãos começaram a observar que os resíduos tóxicos provenientes principalmente da indústria química eram depositados onde viviam. No trabalho escravo ou análogo, as vítimas também são expostas a condições de insalubridade, o que faz com que essas expressões se fundam.

Apesar de formalmente o trabalho escravo ter sido abolido e criminalizado nas legislações dos países, o mesmo ocorre de forma ilegal, sob as mais diferentes roupagens, que afetam pessoas de ambos os sexos, de diferentes cores e raças ou religiões, nos mais diversos pontos do planeta. Estima-se que por volta de 27 milhões de pessoas estejam em situação análoga à escravidão, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A maior parte estaria no setor da pecuária e nos centros urbanos, na área de confecção.

Nos EUA, palco do filme, hoje o trabalho escravo se apresenta mais na forma de escravidão sexual, como destaca a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e as penas variam de cinco anos à perpétua e alguns Estados mantêm benefícios públicos às vítimas.

No Brasil, segundo a Comissão Pastoral da Terra, em 2013 foram identificados 197 casos, sendo 128 em atividades da agropecuária e 69 em atividades não agrícolas. O Ministério do Trabalho divulga uma lista do “trabalho sujo”, com o apoio da organização não governamental (ONG) Repórter Brasil.

A América Latina de acordo com pesquisadores do tema, é uma das principais regiões de desrespeito à dignidade humana. Benjamin Skinner, jornalista e autor do livro Um crime monstruoso: face a face com a moderna escravidão relata que só no Haiti, são mais de 300 mil crianças nesta situação. Após o terremoto de 2010, essa situação discriminatória se ampliou.

Mesmo em nações que figuram no quadro de primeiro mundo, como a Suécia, não escapam desse problema, segundo a OIT. As formas de trabalho escravo encontradas, vão de trabalhos domésticos forçados a prostituição de crianças, apesar de haver uma Lei que penaliza o crime em até 10 anos de prisão, desde 2002. E no país mais populoso do mundo, a China, o trabalho forçado é mais recorrente nos setores da construção civil, da indústria de tijolos e das minas de carvão.

De uma maneira geral, a escravidão moderna é caracterizada sob a forma de servidão por dívida, de prostituição e por trabalhos forçados. Essa é uma marca da contemporaneidade que revela os gargalos do desenvolvimento e da implementação dos pilares da sustentabilidade. Um dado provocador que torna essa constatação mais óbvia é saber que uma em cada sete pessoas no mundo “sobrevive” com menos de US$ 1 por dia. Aí está outro ângulo, para discutir o conceito de trabalho escravo e a sujeição à humilhação, carência e preconceito que se associam às más condições socioambientais.

Veja também outros artigos que escrevi a respeito deste tema, no Blog Cidadãos do Mundo:

03/11/2013 - Eduardo Viola: A inércia e o conservadorismo da sociedade
28/10/2011 - Reflexões sobre segurança alimentar & meio ambiente
09/11/2011 - Refletindo sobre o Estado do Futuro/Projeto Millennium
02/02/2010 - Especial FSM 2010 - Muitos mundos possíveis
23/08/2009 - Esp-VI Fórum EA-Colocar em prática a justiça ambiental requer mais do que intenções
04/05/2008 - O glossário do trabalho

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk


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