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Ainda precisamos lutar muito pelas mulheres

sexta-feira 4 de abril de 2014, por Tamara Amoroso Gonçalves,

A pesquisa divulgada na última semana pelo IPEA, que trata de percepções sociais relacionadas à tolerância à violência contra as mulheres, gerou uma polêmica sem precedentes sobre o assunto.

Igualdade não significa padronização. Não significa ignorar as diferenças sexuais entre homens e mulheres. Elas existem e ponto. Mas qual o valor que damos a elas? Qual o poder que atribuímos aos hormônios e a anatomia? Será que não podemos considerar as pessoas enquanto sujeitos e tratá-las com respeito, independentemente do sexo? Nesse contexto, impossível não pensar na declaração da Comissão Interamericana de Direitos Humanos: “não há democracia sem igualdade de gênero”.

Democracia e igualdade, vale dizer, dentro e fora de casa. A divisão do trabalho doméstico, sobrecarga da maioria das mulheres brasileiras, permitiria um papel muito mais ativo das mulheres no espaço público. Igualdade no tratamento dos desejos e no respeito aos corpos e seus dizeres. O consentimento sexual das mulheres decorre da manifestação de sua vontade, não de um modo de vestir. Contrariando um dito popular, “a mulher não quer dizer sim quando diz não.”

A pesquisa divulgada na última semana pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que trata de percepções sociais relacionadas à tolerância à violência contra as mulheres, gerou uma polêmica sem precedentes sobre o assunto. O estudo colocou em números o que muitas de nós, mulheres, já intuíamos, ou que estudiosos do tema já conheciam, levantado um véu que muitos fingiam não existir. Ficou evidente que a questão é muito maior e mais profunda do que parecia ser.

A discriminação contra as mulheres não é uma questão isolada, não é algo que ficou para trás simplesmente porque temos uma mulher na presidência da República e tantas outras ocupam altos cargos nas empresas. A pesquisa evidenciou que o machismo não ficou pra trás, o preconceito contra as mulheres ainda é grande.

Sempre defendo que o machismo oprime homens e mulheres, mas, para os homens a situação é um pouco melhor porque, mesmo oprimidos, eles contam com muito poder: sobre nossos corpos, nossos gostos, nossos destinos, nossas vidas. Isso é realidade para a maioria das mulheres brasileiras.

O machismo apresenta inconsistências e contradições: ao mesmo tempo em que boa parcela da população condena a violência contra as mulheres e entende que homens agressores devem ser presos, percentual semelhante acha que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros” e que os casos de violência dentro de casa devem ser resolvidos entre os membros da família – em outras palavras, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. O que a pesquisa revela é que há um espaço de tolerância para algumas formas de violência, isto é, há aquelas que podem ser toleradas e resolvidas no privado e aquelas que se agravam e requerem a interferência do Estado.

Traduzindo, isso indica que embora tenhamos avançado muito colocando essas questões à mostra, ainda há muito a ser feito. A estrutura central de dominação imposta pelo machismo pode ter recebido um verniz de modernidade, com o esgarçamento de alguns limites, mas na realidade as mulheres ainda vivem aprisionadas em regras sobre o como agir, como vestir, como se comportar, pautadas pelo poder masculino.

A sociedade ainda entende e impõe o casamento como a finalidade última da vida das mulheres, atrelada, é claro, à maternidade, na medida em que: “a mulher só se realiza mesmo, quando é mãe”, no dizer de muitos e como constatado na pesquisa.

Nesse contexto, a ideia de que as mulheres possam ser donas dos seus desejos e manifestá-los ostensivamente é quase uma agressão. Parcela representativa da sociedade não vê com bons olhos aquela que abertamente fala de seus desejos e busca realizá-los. Sexuais ou não, a mulher que é muito ativa é vista com desconfiança, como se “houvesse algo errado com ela”.

A aparente ascensão das mulheres a certos cargos (presidência, chefia de empresas), parece ofuscar essas questões, que na prática são vividas pelas mulheres: temos de ser duronas, mas não duronas de mais a ponto de sermos consideradas “masculinizadas”; não podemos apresentar fragilidade emocional pois isso pode comprometer nossas carreiras, mas se formos extremadas, seremos tachadas de infelizes e mal resolvidas sexualmente. No ambiente de trabalho, muitas vezes a promoção das mulheres é vista como resultado de favores sexuais. Nesse quesito, quantos seriam os casos de abuso sexual nunca denunciados?

No público e no privado, a questão central do exercício da sexualidade se impõe como um limitador das mulheres, inclusive dividindo as que são “decentes” e as que “não são”, na antiga dicotomia “mulheres para casar” e “mulheres para namorar”. Na época das nossas avós era assim. E continua, para boa parcela da população, como demonstrado na pesquisa. E ainda assim as pessoas resistem a achar que as mulheres precisam lutar por igualdade.

A mudança dessa situação parece não ter outro caminho: a mudança dos valores culturais e das práticas sociais, o que só ocorre com educação. Não qualquer forma de educação. O Estado precisa assumir seu papel e sua responsabilidade – inclusive em relação a obrigações decorrentes de tratados internacionais – e promover uma educação baseada em princípios de direitos humanos, não sexista e anti-discriminação de qualquer natureza.

Promover a educação integral em sexualidade, favorecendo escolhas mais informadas e claras no que se refere ao exercício dos direitos sexuais e reprodutivos. Embora o governo insista em trabalhar os temas de forma apartada – violência contra a mulher e direitos sexuais e reprodutivos -, não se pode ignorar a correlação entre os temas, que precisam ser trabalhados de forma integrada, desde a primeira infância.

No longo prazo, isso poderá promover uma mudança de cultura, favorecendo a percepção de que a violência assume diversas formas e todas são igualmente condenáveis.

Não se pode mais fechar os olhos para a necessidade de mudarmos, a fundo, determinados valores. A sociedade também precisa reagir. Precisamos denunciar e rejeitar a violência contra a mulher, em qualquer formato que apareça: quando somos tratadas como objetos sexuais na TV, quando somos desrespeitadas nas nossas relações íntimas e familiares, quando sofremos preconceito na escola, no trabalho, até mesmo no vagão do metrô. Por fim, a mudança precisa partir do comportamento cotidiano das pessoas, pois é nas relações interpessoais que precisamos começar a ter mais igualdade e respeito. Construindo um dia-a-dia melhor para todos hoje, trazemos mudança real para a sociedade de amanhã.