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As feministas e o sentido das marchas no Brasil

segunda-feira 1º de julho de 2013, por Rita Freire, Rita Freire Rita Freire

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O direito ao corpo implica em um enfrentamento profundo aos fundamentalismos. As mulheres marcham com a juventude para contestar os temas cristalizados pelos grandes poderes econômicos, políticos, midiáticos, religiosos.

Se existe uma pauta feminista que determina várias agendas de luta das mulheres no Brasil, é o direito ao corpo. Especificamente, essa pauta se traduz hoje na luta pela descriminalização do aborto, contra o estatuto do nascituro, e contra a cura gay. E de modo geral, está associada com as várias outras lutas para que esse direito seja compreendido pela sociedade, como a luta pela educação, para que seja assegurada, no direito à saúde; protegido, na habitação e na mobilidade; promovido, na cultura; visibilizado, na comunicação; e assim é um direito que se associa com a própria disputa pela organização do estado e da vida política nacional.

As pautas gerais aparecem com mais visibilidade nas manifestações em curso no Brasil, mas não as questões de fundo, que são seu veradeiro motor. O direito ao corpo implica em um enfrentamento profundo aos fundamentalismos . Não se trata apenas de um embate individual, da mulher que se vê diante de escolhas em relação a gravidez e à sexualidade e, fragil como indivíduo, é abandonada pelo coletivo. O corpo feminino é apropriado como fundamento da igreja que sacraliza a maternidade como uma condição que submete a mulher e não como uma escolha que a empodera. É apropriado pelo Estado, que criminaliza decisões e sonega direitos da mulher sobre ele. É apropriado pelo capital e pela mídia, que o mercantilizam. E pela sociedade, que discrimina comportamentos, impõe padrões e papéis e admite o seu controle pela violëncia social e doméstica.

As mullheres estão nas marchas impulsionadas pela defesa legítima de uma nova cultura política no Brasil, de participação popular direta nas decisões, uma reivindicação feminista por excelência. Esse espaço na políica que a juventude reivindica, as mulheres também reivindicam com ênfase histórica, por isso são protagonistas das mobilizações. Preocupa que os meios de comunicação de massa tenham buscado e reforçado, no movimento das ruas, as bandeiras mais palatáveis ao senso comum, como se tudo se reduzisse a uma luta genérica e higienista contra a corrupção. E que os setores conservadores tenham se somado a esta leitura, vislumbrando nas ruas um movimento contra os governos de esquerda e de cunho pré-eleitoral.

O tom rebaixado das coberturas, que não tocam nas questões de fundo, e o discurso reacionário que se introduziu nas mensagens das ruas e das redes sociais não interessam às mulheres, que hoje disputam o sentido das marchas e procuram qualificar as mensagens populares naquilo que portam de libertário e renovador.

Assembléias, debates, reuniões e atos expressam um movimento politizado que a mídia não mostra. A luta ideológica permeia as manifestações analógicas e virtuais, e dentro delas se expressa também a sociedade misógena, violenta, que desqualifica as muheres, des de a presidenta da República às defensoras do direito ao corpo. As mulheres marcham com a juventude para contestar os temas cristalizados pelos grandes poderes econômicos, políticos, midiáticos, religiosos. A novidade é que hoje, para se manter, esses poderes tentam marchar também.

Foto de Raoni Arraes, Marcha das Vadias - Belém, 29/06/2013