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As mídias que não são do mercado

domingo 21 de outubro de 2007, por Terezinha Vicente ,

A diversidade e a criatividade na comunicação produzida pelos movimentos sociais, esteve bem representada na primeira mesa de sábado do Encontro, com a participação da Profa. Cicilia Peruzzo - Universidade Metodista de São Paulo, Igor Felipe dos Santos - MST, Jerry - Abraço (Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária), Sérgio Gomes - Escritório Paulista da Amarc (Associação Mundial das Rádios Comunitárias e Cidadãs) e de Alan da Rosa, da Cooperifa.

Para Igor, a comunicação do MST começa com seus símbolos e continua com suas formas de organização e ação, que pretendem transmitir as suas idéias à sociedade. “Uma ocupação é uma forma de comunicação, o andar em fileira é comunicação”, explica Igor que acredita que “tirando a TV, os meios de comunicação atingem pouco a sociedade”. Antes de estar formalizado o movimento social mais organizado hoje em nosso país, em 1981, surge o Jornal Sem Terra, voltado para o próprio movimento, a fim de alimentar a identidade e unidade do MST. Passados 26 anos, o jornal continua, acompanhado da Revista Sem Terra, da participação no Jornal Brasil de Fato, de uma rádio agência de notícias e, mais recentemente da construção de um núcleo de audiovisual do MST. Para Igor, “é preciso denunciar as contradições que existem entre as emissoras e a população, que tem dificuldade em entender que a comunicação não é via de uma mão só”. Ele defende como condição prioritária para haver mudanças a construção de um projeto popular que consiga unificar a esquerda, estimulando as lutas sociais do povo brasileiro.

“Nossa bagagem é a palavra, acompanhada às vezes da viola, do pandeiro, mas a rainha da noite é a poesia”. Alan da Rosa, representante da Cooperifa e das Edições Toró, assim definiu os saraus de poesia que realizam toda quarta-feira em Piraporinha, zona sul da cidade de São Paulo. Afirmando que literatura ainda é “palavra alienígena na periferia”, Alan contou do importante descobrir, sobretudo pelos jovens, de que “poesia não é só para intelectual”. Com seis anos de existência, a Cooperifa já revelou muitos poetas e a Edições Toró, criada por eles, a princípio de maneira artesanal, tem hoje dez criativos livros editados e vendidos de mão em mão. Rompendo o que Alan chama de “fronteira entre a arte que sai da garganta e a arte da página”, bastante difícil para quem freqüenta as escolas públicas da periferia, seus poetas acreditam na qualidade literária e na força de sua linguagem. Já venderam 5 mil exemplares. Com consciência de que a literatura nunca foi popular, mas que ela “é necessária como crescimento espiritual, e também porque precisamos formar os nossos letrados”, Alan conta que eles têm ainda outros sonhos, que estão sendo construídos, como escrever para e com as crianças e construir uma cooperativa de ensino.

Saudando a maior inserção da luta pela democratização da comunicação que acontece hoje, Jerry, da Abraço, lembrou das dificuldades de transpor esta luta para fora dos segmentos diretamente envolvidos, como os jornalistas. “Terra a gente vê, mas onda de rádio ninguém vê”, diz ele, contando que apenas a partir dos anos 90 cresce o movimento por rádios livres e comunitárias. Perguntando se os meios hoje são de “comunicação ou de difusão de valores”, Jerry destaca que são 5 milhões de pessoas a se comunicar por rádio hoje no Brasil, “a maior experiência do mundo”. Enquanto isso, as rádios comunitárias passam pela maior repressão e ele propõe lutarmos para recuperar as 20 mil emissoras fechadas nos últimos dez anos, “enquanto continuam a funcionar sem outorga as rádios da Av. Paulista”.

Sérgio Gomes contou a história da AMARC, da qual a Oboré é filiada e seu escritório paulista. Ele apresentou o método de ação da AMARC, por “mesas de trabalho”, onde é possível reunir pessoas com muitas diferenças a fim de atuarem juntas para resolver um problema. “Traçam-se metas e cada um contribui com o que pode”. Apresentou ainda seu retrato da sociedade brasileira hoje: “os de cima, estão cínicos e individualistas; os de baixo, céticos e solitários”. Defendeu a necessidade de preservar pequenos projetos que “latejam o futuro e que precisam sobreviver”, valorizar as lutas já travadas e “dar mais eficácia aos nossos feitos”.

A Profa. Cicília vê com otimismo a diversidade de meios e de segmentos que os vêm utilizando, pois “a democratização da comunicação deve se dar em várias perspectivas”. Ela defende que a legislação alcance segmentos diversos, preservando as rádios comunitárias, e que a sustentabilidade deve ser pensada para além do ponto de vista econômico. “As rádios comunitárias estão colocando a sustentabilidade da pessoa - falando de educação, participação - e de sustentabilidade da vida, do planeta”.