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Coletivo brasileiro denuncia concentração da mídia e ataque à comunicação pública no FSM 2016 Canadá

quarta-feira 10 de agosto de 2016, por Amanda Proetti,

Debate realizado na manhã desta quarta-feira (10), na Université McGill, em Montreal, reuniu mídia ativistas do Brasil, Argentina, Curdistão e Palestina

Aconteceu na manhã desta quarta-feira (10), a mesa de debates “Meios de Comunicação, Poder e Democracia”. Realizada pelo Coletivo Brasileiro do Fórum Social Mundial (FSM), a atividade abriu os trabalhos do grupo na edição 2016 do evento, que acontece em Montreal, no Canadá.

Bia Barbosa, integrante do Coletivo Intervozes - que milita pela democratização das comunicações no Brasil -, trouxe dados que mostram um cenário de concentração da mídia que está minando a democracia no País. “O Brasil tem uma das mídias mais concentradas do mundo. A maioria da população ainda utiliza a TV como fonte principal de informação, mas apenas 60% diz confiar na mídia tradicional. Apenas metade da população tem acesso à Internet, que ao mesmo tempo não tem a credibilidade de 70% dessa mesma população. Durante muitos anos, acreditou-se que a Internet era um espaço mais democrático. No entanto, a maioria das pessoas ainda credibilizam mais a mídia tradicional”, afirmou.


Bia acrescentou ainda que apesar de a comunicação no Brasil hoje estar dividida entre alguns grupos, a Rede Globo detém a maior audiência em relação à soma das audiências de todas as suas concorrentes, o que caracteriza um cenário de monopólio. “Nos últimos anos, essa situação se manteve por falta de intervenção do governo brasileiro, que apoia a manutenção deste cenário com o investimento dos recursos públicos”, denunciou.

Rita Freire, também militante da pauta no Brasil e representante da Ciranda Comunicação, falou sobre o episódio envolvendo a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Criada em 2008 – durante o mandato do presidente Lula –, a EBC é vinculada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, mas tem autonomia e independência em relação ao governo federal. Seu presidente, Ricardo Melo, foi exonerado dias depois da posse do presidente interino Michel Temer e alterações significativas foram feitas na gestão do Executivo da Empresa. Cerca de quinze dias depois da exoneração, no entanto, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), devolveu o posto a Melo por meio de liminar judicial. Porém, uma medida provisória que muda estruturalmente a lógica da EBC foi elaborada pelo governo Temer e pode atacar ainda mais a comunicação pública brasileira. “Temos que defender o direito à comunicação pública, que está na mira dos canhões do impeachment. A EBC nasceu de muita mobilização e criou um novo modelo independente e que respeita a diversidade”, afirmou. Para a militante, o movimento da comunicação deve estar à frente dessa luta. Ela conta que este segmento está na vanguarda dos movimentos de resistência, inclusive em relação ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, e deve articular a luta e fazer as informações rodarem.


Nicolás Echániz, militante argentino da Alter Mundi, abordou o cenário da mídia no atual governo de seu país. A Argentina teve aprovada em 2009 uma legislação para a regulamentação do setor. Resultado do trabalho de incidência de movimentos sociais do País, o marco foi desmantelado após a posse do atual presidente, Mauricio Macri, em 2015. Nicolas mencionou o Clarín, grupo mais poderoso de mídia da Argentina, que não se ajustou à nova lei na ocasião, continuando a operar mesmo sem licença. “Eles são tão grandes que nem o governo argentino conseguiu impedir-lhes. O pluralismo de vozes conquistado no governo anterior já não existe. Não há nenhum programa de TV atualmente na Argentina que seja oposição ao governo atual. Estamos em uma situação em que a direita controla o país de forma absoluta. Agora, com o Macri no governo, o Clarín está no poder”, repudiou.

O mídia ativista palestino Laith Maronf, da Community Media Advocacy Centre (CMAC), iniciou sua participação mencionando Rupert Murdoch, empresário australo-americano acionista majoritário da News Corporation, um dos maiores grupos midiáticos do mundo, e sua influência sobre a comunicação produzida sobre a Palestina. “No primeiro mundo é difícil achar um discurso que não seja contra a Palestina. E não tem a ver com a questão religiosa, mas com uma construção ideológica”, lamentou.

Laith também trouxe para o debate o caso do Movimento Global BDS (Boicote – Desinvestimento – Sanções), plataforma de ativistas, grupos sociais e organizações que, em nível mundial, somam esforços em resposta ao Apelo lançado pela sociedade civil palestina em 2005 para pressionar Israel a cumprir com o Direito Internacional e a Declaração Universal dos Direitos do Homem. O site do Movimento atua como espaço para troca de informações, análises e experiências e é gerido pelo Comité Nacional Palestino para o BDS. Laith também mencionou as manifestações contrárias à realização do FSM 2016 em Montreal como exemplo de forças que atuam por uma comunicação não plural, hegemônica e antidemocrática.

Mako Qocgiri é nascido na Alemanha, mas vive no Curdistão. Ele ajudou a construir um coletivo de mídia alternativa que tenta dar visibilidade a uma visão contra hegemônica do País. O militante mencionou a questão da pasteurização da informação, que é reproduzida mundialmente. “A imprensa alemã e europeia descrevem o conflito curdo de acordo com a perspectiva turca. Assim como a imprensa francesa também trata a questão curda mostrando o povo como terrorista. Essa informação massiva passa ao mundo ocidental uma homogeneidade sobre o universo árabe que não é a realidade”, protestou. Marco trouxe o conceito de ‘Jornalismo para Paz’, traduzido numa cobertura jornalística que deve contribuir para a construção de uma realidade social mais justa e pacífica com base no entendimento de que conflitos podem ser veiculados de diferentes maneiras sem perder o grau de veracidade. Ele explicou que o conceito teve origem quando um jornalista passou a produzir matérias durante a Guerra do Vietnã com o objetivo de mostrar ao povo do Estados Unidos o sofrimento e a realidade do povo vietnamita.

Realizado pela primeira vez em um país do Norte, o FSM 2016 teve início ontem (09) com a tradicional Marcha de Abertura que tomou as principais vias de Montreal com muita cor e diversidade. As atividades autogestionadas, outra tradição do evento mundial, começaram nesta quarta-feira (10). Esta edição do evento conta com uma delegação brasileira de cerca de 40 representantes de organizações da sociedade civil e movimentos sociais. O FSM 2016 Montreal se encerra no próximo domingo (14/08).


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