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Copa: um “circo” global

quinta-feira 12 de junho de 2014, por Terezinha Vicente ,

O maior espetáculo da Terra é transmitido pela mídia de todo o planeta, que escolhe muito bem suas pautas e personagens. Enquanto isso, líderes populares e sindicais são tratados como criminosos e violentamente retirados de cena.

A Copa mobiliza mais que tudo porque é acontecimento transmitido em todo o planeta, é um dos circos atuais da humanidade. “O maior espetáculo da Terra” segundo a mídia global. “Metade dos habitantes da Terra vão estar ligados na Copa do Mundo de 2014, seja pela TV, pelo celular ou por outro dispositivo móvel que receba sinais de televisão. Serão mais de 3,6 bilhões de pessoas acompanhando o Mundial, número recorde para o evento esportivo de maior audiência do mundo, de acordo com estimativa do Ministério do Turismo (MTur). O aumento é de 12,5% em relação à última Copa, da África do Sul”.

A necessidade da televisão – com certeza ainda o veículo de comunicação mais acessado em eventos como este – em competir com o computador faz com que muitas câmaras existam em vários tipos de lugares. É a chance de muita gente aparecer na televisão, realizando sonhos como o do adolescente Vitor, naquele filme paraguaio “7 Caixas”. De meros mortais a celebridades todos vem disputar os holofotes aproveitando-se da Copa. Mas os movimentos sociais não podem aproveitar o momento “histórico” para fortalecer suas lutas, são considerados traidores da pátria. Líderes populares e sindicais são tratados como criminosos e violentamente retirados de cena.

O evento é global e as pessoas aglomeram-se em torno de qualquer "assunto" que seja ou pareça parte da Copa. Os “espectadores” aglomeram-se como ontem nos viadutos sobre a 23 de maio para ver a delegação brasileira passar lá embaixo, festejada lá de cima com gritos e rojões; aglomeram-se nas portas de hotéis, concentração, estádios, na ânsia de ver os seus ídolos ou craques estrangeiros muitas vezes desconhecidos e, quem sabe, tirar uma foto junto. Rolam milhares de “selfies” junto com qualquer pessoa ligada de alguma maneira à Copa, de craques a jornalistas esportivos. É uma massa de "selfies".

E temos os grandes aglomerados mobilizados pelas Fan Fests, patrocinadas pelo governo federal e mostradas pela mídia, espalhadas pelo país e que prometem receber milhares de torcedores brasileiros e estrangeiros. Além do telão com a transmissão dos jogos, a festa conta com atrações musicais, de gosto realmente duvidoso. Exemplo de São Paulo hoje, a festa começa com a apresentação do cantor Luan Santana, antes de Brasil x Croácia. Após o apito final, Thiaguinho sobe ao palco para encerrar a festa da abertura. Dei uma olhada no portal da Copa (http://www.copa2014.gov.br/pt-br/tags/fan-fest) e realmente, pelo menos para mim, teríamos artistas melhores para apresentar, salvo duas ou três exceções.

A mídia está até nas estações do metrô, onde se embarca e desembarca rumo ao Itaquerão, entrevistando os torcedores que tiveram a sorte e os recursos para adquirir um ingresso. Mas a mídia não esteve nas estações de metrô poucos dias atrás, antes da greve, para ouvir as razões daqueles bravos trabalhadores responsáveis por serviço de transporte tão importante e pelo atendimento aos milhões de usuários que deixam diariamente na Empresa do Metropolitano de São Paulo 5,5 milhões de reais. Por dia, sim, a receita do ano passado foi de 2 bilhões de reais, ano atípico devido aos protestos contra o aumento da tarifa, que por fim levaram a sua redução.

Ano também das denúncias que mostraram as direções do Metrô e os últimos governos estaduais, envolvidos em formação de cartel com multinacionais do setor, que teria gerado desvios que chegam perto de 600 milhões de reais. Notícia que a mídia vista pela maioria do povo brasileiro não dá. Sobre a segurança e qualidade do transporte metropolitano, nunca mostra a avaliação dos funcionários, que estão ali no dia a dia, que sabem das mazelas internas, que sabem o que se esconde do usuário. Uma luta que não era só por eles, metroviários, era por toda a população, uma luta por transporte público de qualidade, tema dos principais protestos do ano passado. O roubo do metrô pelos governos não é notícia, mas a greve dos metroviários foi pauta na programação diária naqueles quatro dias de greve, não para mostrar a bela unidade da categoria, mas para criminalizar a sua luta, para incitar o ódio da população contra trabalhadores lutando pacificamente nos marcos de uma legitima luta sindical.

A situação é grave. A utilização da força policial armada e suas violentas intervenções e da força da propaganda ideológica realizada pela grande mídia, geram medo, oprimem o ser, reprimem nossos avanços, violam direitos básicos. Entretanto, o geral das pessoas adoraria aparecer na mídia. Ainda que tenham que se contentar com a circulação nas telas menores, via redes sociais, gostariam de aparecer na mídia grande, cujas programações já incentivam o envio de participações. Mas para isso não basta participar, é necessário obedecer e repetir como um mantra o que a grande mídia propaga e vende. Do uniforme e todo tipo de adereços verde e amarelo ao discurso político que interessar naquele momento colocar na cabeça e na boca do povo. Um nacionalismo exacerbado estimulado agora, críticas aos grevistas dos transportes, estimuladas dias atrás contra os metroviários e semanas atrás contra os trabalhadores das empresas de ônibus.

Se não deu na televisão, do que é que estou falando? A dúvida sobre certas coisas que relato sempre é colocada pela diarista que trabalha na minha casa, pelo porteiro do prédio, que não viram na televisão o lado que tento mostrar. O sentido de pertencimento da maioria do povo é construído pela mídia numa contínua difusão da cultura que interessa ao capital. Sou mais digno de existir, mais confiante no ser, quanto mais semelhante à maioria eu me tornar.

Uma cotidiana propaganda subliminar faz a gente ouvir por toda parte - no mercado, no banco, na feira, no ônibus, no metrô – a repetição do que os meios de comunicação de massa estão dizendo. Tem dias em que se percebe facilmente o conceito de massa. Nestes dias tudo é festa, o esporte domina a programação. As pessoas entrevistadas são escolhidas pela pauta desejada, são as fantasiadas para a festa,nas mesmas cores e modelitos iguais, uma grande massa amarela e barulhenta. Manifestações populares só dentro do script traçado pela mídia, as contrárias são para criminalizar, condenar pela falta de nacionalismo, afinal. Um perigo.