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Equívocos Colecionados nos Atos Contra o Aumento da Passagem

domingo 16 de junho de 2013, por Rafael Presto,

Não à toa os atos contra o aumento da passagem possuem características tão diferentes das manifestações organizadas por partidos e aparelhos políticos convencionais.

A declaração do Sr. Prefeito, que acusa o MPL (Movimento Passe Livre) de não assumir a responsabilidade das revoltas ocorridas em meio as manifestações pela diminuição do preço da passagem, demonstra a falta de percepção de nossa máxima autoridade municipal. O MPL é um movimento libertário. Sua lógica de funcionamento não é reunir o máximo de pessoas sob a liderança restrita de uma direção ou comando, mas sim aglutinar pessoas em torno de uma dificuldade comum, a péssima gestão do transporte público, e um direito, o de ir e vir pela cidade, respeitando amplamente a forma de cada um de protestar. Um convite à ação direta em torno de um objetivo comum.

Não à toa os atos contra o aumento da passagem possuem características tão diferentes das manifestações organizadas por partidos e aparelhos políticos convencionais. Alguns exemplos: os atos não possuem carro de som; as bandeiras e cartazes levantados, em sua gigantesca maioria, não são de partidos políticos; os militantes presentes são plurais, de classes, regiões e culturas muito distintas; e um fôlego de mobilização que vem resistindo as balas de borracha, bombas de gás e efeito moral, todas as tentativas de dispersão e choque de ordem , com uma coragem inabalável.

Toda a questão da violência vem sendo explorada de maneira muito perversa pelo poder público. Em primeiro lugar, pela equiparação total da violência policial com as depredações dos manifestantes; o que temos aqui á a planificação de uma violência apontada para o patrimônio, aquela praticada pelos manifestantes, com uma violência apontada para as pessoas, conduzida ferozmente pelos policias – as vitrines não sangram. Em segundo lugar, as depredações só se tornam massivas em resposta a violência policial, como um gesto explosivo de auto-defesa. Por fim, e mais importante, é que o Sr. Prefeito escolhe ver nas ações dos manifestantes apenas gestos de vandalismo, e em nenhum momento questiona as razões desse levante popular.

Ninguém gosta de sair de casa para levar tiros de borracha, gás lacrimogêneo e armar barricadas de fogo; todas essas ações são motivadas por um profundo descontentamento com a atual gestão do transporte público na cidade de São Paulo. E esse descontentamento, sintetizado pelo injusto aumento da passagem, é simplesmente ignorado pelo Sr. Prefeito. E o povo paga a conta: do péssimo serviço realizado pelas concessionárias do transporte coletivo, e do médico, depois das ostensivas agressões policiais.
O Sr. Prefeito acusa o MPL de não produzir diálogo, outra inverdade. O diálogo vem sendo produzido, mas a população segue não concordando com os argumentos do Sr. Prefeito. Se seguíssemos a inflação para balizar o preço da passagem, principal argumento para o ajuste da tarifa, teríamos hoje uma passagem de preço muito inferior ao atual (como demonstrado em planilha publicada no site UOL). Dizer que o aumento da passagem foi acordado em seu planejamento de campanha não quer dizer nada; um prefeito de uma cidade como São Paulo precisa ter um mínimo de maleabilidade, jogo de cintura – o que o Sr. Prefeito vem demonstrando é uma desastrosa habilidade de negociar com movimentos sociais.

O Sr. Prefeito inunda suas declarações de aspectos técnicos, mas em nenhum momento debate o modelo de concessão aplicado ao transporte público, crítica fundamental em todo esse processo, simplesmente ignorada.
A postura truculenta do Sr. Governador não surpreende, endossando em suas declarações a violência policial, amplamente criticada por órgãos e veículos de imprensa do mundo todo. O que surpreende é ver em pé de igualdade dois partidos que, em tese, ocupam posturas opostas no cenário político.
O Sr. Prefeito perde a chance de se afirmar como um prefeito do diálogo e da diferença, abaixando o preço da passagem frente a ampla mobilização popular, e se iguala ao Sr. Governador, na truculência e na indisposição para mudanças que atendem aos protestos que vem da rua. Os verdadeiros protegidos de todo esse processo, seja pela prefeitura, seja pelo governo, são os milionários empresários dos meios de transporte.

Os recentes acontecimentos demonstram muitas coisas. Sobretudo, que ainda existe uma postura combativa na população de São Paulo. As mobilizações vão continuar, aumentando ato após ato, até que se alcance a pauta única – a diminuição do preço da passagem. Existe luta em SP, Sr. Prefeito. Vida longa ao MPL!