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Escravidão Moderna

segunda-feira 30 de abril de 2007, por Jéssica Balbino,

Hoje não existe mais escravidão. Será que não mesmo? Acredito naquilo que chamamos de ‘escravidão moderna’. Ela atinge todas as raças, negros, brancos, índios ou amarelos. A escravidão foi substituída pelo salário, que nunca dá para o que precisamos. Se chegamos atrasados no serviço, o patrão olha torto. Com endereço da favela ou da periferia, ninguém consegue emprego. Se o pé estiver sujo de barro da enchente da noite anterior então...esquece !

As universidade formam milhares de analfabetos todos os anos e a mídia continua afirmando que ‘sobram vagas no mercado de trabalho, o que falta é qualificação profissional’.
Como é que é mesmo?

Um círculo vicioso. Se o nego está desempregado, não consegue pagar para se ‘qualificar’ e conseqüentemente, está cada dia mais, fora do mercado.

Grande mercado, que quando emprega, escraviza. Tem gente que trabalha 10, 12 horas por dia, sem falar do horário em que levanta, para pegar as conduções e chegar cedo no trabalho, antes que o patrão olhe feio.

Na capa da revista Carta Capital, que pouca gente lê, porque é cara, linguagem culta, não fala para o povão...(As revistas de fofoca são mais interessantes, nos tiram da rotina maçante.)
Pois é, a capa deste mês traz os jovens diplomados que não conseguem emprego. Em determinado trecho da reportagem, alguns jovens da classe média, atualmente em crise, dizem que não farão estágio, tampouco vão trabalhar por um salário de R$ 1 mil. “Isso seria o mesmo que prostituir a minha profissão”. É o que dizem, porque pensar ninguém pensa mesmo.

Já na capa da Caros Amigos, que menos pessoas lêem, traz a reportagem “Como é a cabeça dos estudantes de jornalismo”. A resposta está dentro da reportagem. É uma cabeça vazia, alienada e na maioria das vezes, elitista.

Agora eu pergunto, como é a junção da cabeça de um estudante de jornalismo, com os baixos salários que pagam aos recém formados, somada a uma jornada de no mínimo 10 horas de trabalho diários (isso inclui finais de semana), que mora na periferia???

É, sobreviver ao sistema é difícil. Sou jornalista, recém-formada, ganho muito aquém do que eu paguei, com muito esforço, por mês na faculdade, trabalho em média 10 horas por dia (sem horário de almoço), paro no máximo 20 minutos para comer a marmita esquentada, que eu carreguei dentro da mochila, toda amassada, no busão lotado. Fico com medo do patrão chegar e brigar porque esquentar a comida deixa todo o prédio do jornal cheirando. Não tenho a menor condição de fazer um curso de aperfeiçoamento da profissão. Preciso trabalhar, me manter. Se for na área, pagam menos, mas eu gosto do que eu faço, preciso adquirir experiência no campo prático. Queria me qualificar. Paguei um curso que eu poderia fazer, quatro sábados à tarde. Mas eu trabalho no sábado à tarde. Talvez se eu ficasse 12 horas por dia durante a semana, adiantando as minhas matérias e mais umas 4 horas no sábado, eu conseguiria ir para o curso sem que meu patrão percebesse ou me xingasse. Arrisquei. Paguei o curso, relativamente caro, perto do que eu ganho. Me animei em conhecer um pouco mais sobre um determinado assunto. É na área que eu pretendo mestrado. Fodeu. Meu patrão está descontente. Quer um jornal feito só para ele. Estrutura? A gente tem que se virar, no final do dia ele quer matéria polêmica.
Sábado à tarde...fiquei sem o curso, sem a grana e frustrada. Na cabeça dos estudantes de jornalismo não passa muita coisa. Na minha, que já me formei, milhões de questionamentos, dúvidas, incertezas e uma imensa tristeza, por não conseguir sair do lugar, dentro do nosso sistema.
Se eu estiver animada, à noite eu vou num evento de hip hop, buscar na minha cultura, marginal, algo que ainda me faça sonhar...e se eu estiver animada, escrevo uma matéria.