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Jorge González Sánchez: o segredo da história oral está nas perguntas

terça-feira 4 de dezembro de 2012, por Sucena Shkrada Resk,

“O eu se constrói em frente aos tus”. Nessa frase, está o pano de fundo que envolve a história oral, que é um método a partir de técnicas que envolvem principalmente histórias de vida e de famílias.

Reconhecer a importância da elaboração de perguntas “férteis” e entender a dinâmica do olhar (o que requer observar as reações) do interlocutor, durante sua fala, são aspectos fundamentais para a sua concepção. O pesquisador deve estar atento a esses detalhes. Ao mesmo tempo, ter clareza de que poderá ingressar numa verdadeira “avalanche” de sentimentos, que envolverá os dois lados. Isso exige um equilíbrio diante do inusitado. Essas são observações feitas pelo comunicólogo mexicano Jorge Alejandro González Sánchez, da Universidad Nacional Autónoma de México.

Sánchez coordena o Laboratorio de Investigación y Comunicación Compleja (LabCOMplex) e ministrou a “Oficina de Metodologia de Pesquisa: A História Oral e Comunicação”, nos dias 5 e 6, da qual participei. A atividade foi promovida pelo Núcleo de Estudos de Comunicação Comunitária e Local do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo COMUNI/PÓSCOM/UMESP e pelo Laboratório de Hipermídidias/Memórias do ABC, da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (PMC/USCS). O especialista atualmente desenvolve pesquisas relacionadas à chamada ecologia simbólica, que infere noção de totalidade, relacionando os fatos com signos.

A história oral, segundo ele, é uma relação dialógica (e frisou, não dialética) e somente acontece quando existe a empatia no contato entre as partes, o que precisa ficar claro, nesse processo, diz. “ Para isso, é preciso haver respeito ao contexto cultural, que difere entendimentos da subjetividade... que não pode ser interpretada como algo individual, mas coletivo”. O pesquisador, portanto, deverá objetivar essa subjetividade e compreender que o interlocutor não pode ser definido como um informante, mas como um “contador”. “O tipo de veiculação (áudio e/ou vídeo) tem de ser negociado com ele, pois se trata de uma relação de confiança”.

“...Os “contos” são resultantes dos recortes feitos pelo interlocutor, mediante o método (perguntas) a que é submetido...Por isso, os relatos serão limitados, porque a memória é seletiva...”. Diante dessa compreensão de limitações, o que se revela é que a história oral não pode ser definida nem como mentira, nem como verdade... "O fato é que tem eficácia real em nós, gera memória...".

Sánchez explica que, por muitas vezes, essa fala é permeada pela desorganização, pela entropia, o que é comum na sociedade humana, e ao pesquisador cabe produzir a inteligibilidade do processo, por meio das perguntas e inferências, que trazem a transversalidade.

A questão é compreender que o percurso da fala do interlocutor, na maioria das vezes, sai da “enacción”, enactividade (momento em que qualquer relação pode ser estabelecida), um conceito do biólogo chileno Francisco Varela, até chegar à sistematização.

Uma dos conceitos aplicados para essa sistematização é a antroponomia, difundida pelo sociólogo francês Daniel Bertaux (1979), conceito que reúne a distribuição, a produção e a reprodução (consumo) dos seres humanos. “A pergunta-chave é como é consumida a energia social e humana?...A forma de organização social para reproduzir a energia humana tem a cara da família...e só conversando para fazer um bom recorte desse consumo”, define Sánchez.

Com esse pressuposto, há o entendimento da existência de relações invisíveis que segregam e de que as pessoas são consumidas por um sistema. “E qual é o biotempo (tempo de vida) investido nisso?”, provoca. Tudo isso tem de ser pensado pelo pesquisador.

Segundo Sánchez, a criação de uma janela ou a parte instrumental para o profissional organizar os relatos é o genograma, construído por meio de um sistema de informação empírica de informações de práticas do interlocutor. “Não deve ser confundido com árvore genealógica”, esclarece. É possível, por meio dessa ferramenta, observar pelo menos três gerações da família. E pela chamada geometria fractal, que é um tratamento bem feito das redes familiares, pode representar até 100 pessoas (parentes).

Essa organização reúne a síntese (interpretação do pesquisador), observações, registros, entrevistas (relatos práticos) e a análise. No perfil da história de família, se constrói a linha do tempo, em que há o cruzamento de dados, divididos por épocas importantes destacadas pela pessoa (que inclui pais, irmãos, filhos, companheiros...). Nesses recortes, são expostos eventos-chaves, explicações dos relatos de práticas; os itinerários de vidas.

A “janela” ampliada permite a colocação desde o “tempo” familiar, ao local, nacional e mundial. São os inúmeros contextos que se relacionam, nos mesmos períodos. “O significado da história oral mora nas práticas do que você faz”, afirma o pesquisador.

Abaixo, vou montar um exemplo de como poderia ser só um dos períodos dessa construção...
Maria se casou com João, em 1945, em São Paulo. Nesse mesmo ano, a mãe de Maria faleceu e a moça teve que dar assistência ao seu pai (que era imigrante), porque ele adoeceu e não tinha recursos para sobreviver (um fato marcante para ela). Nessa mesma época, o Brasil vivia o final do Estado Novo, no período Vargas, e o mundo saía da Segunda Guerra Mundial, que trazia lembranças tristes à família de Maria, pois seus entes haviam sofrido perseguição e tiveram de fugir do seu país de origem...

Ao fazer essas relações, teria condições de fazer mais perguntas e complementações de informações, que enriqueceriam os relatos, de acordo com o propósito de protocolo que eu havia estabelecido para a pesquisa, de comum acordo com a minha interlocutora.

Esse exercício me possibilitou abrir novos horizontes, arejar as ideias no papel de comunicadora e me permitir partir para novas experiências profissionais, que envolvem o caráter humanístico na elaboração de projetos. Ao mesmo tempo, agregou mais conhecimento à experiência que tive em outubro passado, ao participar do curso de História Oral, promovido pelo Núcleo de História Oral da Universidade de São Paulo (Neho/USP), coordenado pelo historiador José Carlos Sebe Bom Meihy.

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31/10/2011 - O encanto pela história oral

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