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Livros recheados de ternura

sexta-feira 29 de agosto de 2014, por Sucena Shkrada Resk,

Quinze anos se passaram, mas para a pedagoga mineira Mirtes de Souza, 60 anos, radicada em São Paulo, é como se fosse hoje. A presidente do Movimento de Mulheres do Jardim Comercial lembra bem das palavras de sua filha à época – “Mãe, se não achar uma forma de auto-sustentar o trabalho de vocês com foco mais empresarial, ele vai acabar”. O alerta, segundo ela, fez com que matutasse por horas e a então professora teve uma ideia: iria escrever pequenas histórias em livros de pano (antialérgicos), para ajudar na manutenção das despesas. Hoje são 56 obras matrizes artesanais que são reproduzidas a várias mãos e tecem pequenas histórias e contos com fundo moral para crianças e adultos.

O processo, que reúne sua sensibilidade de educadora e empreendedorismo ganhou dezenas de cocriadoras ao longo dos anos. Com doações de tecidos e aviamentos, uma voluntária corta o retalho, outra desenha, outra costura e mais uma faz o acabamento. Ao mesmo tempo, elas participam das atividades promovidas pelo movimento.

“Criado há 24 anos, o trabalho atinge cerca de 600 mulheres da região de Capão Redondo, na zonal Sul de São Paulo, que precisam trabalhar em casa e não encontram creches para os filhos”. Em um centro de convivência e lazer, são oferecidas palestras sobre saúde da mulher, aulas de culinária, de corte e costura, de bordado e de contação de histórias infantis, além de encaminhamento de dependentes para tratamento gratuito de alcoolismo em clínicas especializadas.

Os livros de história, que são forrados como pequenos travesseiros, são vendidos na sede do movimento e em eventos em que é convidado a participar, como a Bienal do Livro de São Paulo deste ano. Essas mulheres também confeccionam colchas, acessórios e jogos temáticos infantis artesanais em pano.

Para a educadora Mirtes, lembrar da primeira história, que criou e deu início a essa série, é algo que a emociona até hoje. “Essa foi escrita sobre um cobertor velho e conta a relação de amizade de uma menina loira e um garoto negro que se conhecem na escola, até que um dia descobrem o preconceito por parte da avô da menina, dona Clemência”, diz Mirtes. Para fazer com que a senhora pudesse desfazer essa atitude equivocada, tiveram a ideia de fazer um ramalhete colorido e presentearam a ela. “Com essa simbologia do gesto, Clemência reconheceu que estava errada...”.

Segundo a pedagoga, a decisão por trilhar o ’caminho das palavras’ se deve também ao fato de os pais dela lerem desde sua infância para ela e sua irmã Marly, 62 anos, que é a vice-presidente do Movimento. “Minha mãe era professora e meu pai, ‘prático de farmácia’. Por outro lado, dei aula na rede municipal por 30 anos, especialmente para alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e essa experiência também teve um peso importante”, avalia.

Somente a arrecadação com os livros não é suficiente para cobrir as despesas do movimento, já que não conta com parceria pública. “Também recebemos doações e neste ano, nosso projeto foi um dos três contemplados de uma escola em São Paulo. Com isso, poderemos fazer a manutenção do prédio do movimento”.
Mais dados sobre o Movimento são encontrados no site: http://www.movimentodemulheres.org.br.

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk


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