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Mais Marcha das Vadias

segunda-feira 11 de junho de 2012, por Terezinha Vicente ,

No último final de semana, ocorreram em algumas cidades novas Marchas das Vadias, como em João Pessoa (PB) e Maringá (PR). Cresce o movimento para denunciar o machismo na violência contra a mulher.

Além das 14 cidades que aderiram ao dia nacional da Marcha das Vadias no Brasil, novas manifestações feministas vem ocorrendo no país. No último sábado, cerca de 300 participantes fizeram a "SlutWalk" local. Cantando palavras de ordem como " A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria", "Preste atenção, o corpo é meu, a minha roupa não é problema seu"!! Ô abre elas que as mulheres vão passar, sou feminista não posso negar" , " Se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista", "Se o corpo, se o corpo, se o corpo é da mulher, ela dá pra quem quiser", " A violência contra mulher não é o mundo que a gente quer", elas passaram o recado paraibano (fotos). No Paraná, a novidade percorreu as ruas de Maringá, onde cerca de cem mulheres se manifestaram pela primeira vez.

Manifestação em Maringá

Abaixo a Carta Manifesto das feminsitas da Paraíba, que sintetiza bem o espírito das Marchas das Vadias:

CARTA MANIFESTO DA MARCHA DAS VADIAS-PB

Em pleno século XXI, a violência contra as mulheres ainda é naturalizada e vista como algo do âmbito privado e da moralidade, reproduzindo discursos como “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” ou “uma mulher que veste roupas provocativas ou curtas não pode reclamar se for estuprada”.

A violência contra mulher se dá pela condição imposta pela sociedade capitalista e machista que explora e oprime as mulheres à medida que as torna propriedade dos homens nas relações afetivas, mercantiliza o corpo da mulher nas propagandas na mídia, impõe jornadas duplas/triplas de trabalho com salários desiguais e não garante políticas públicas como creches em número suficiente para as mulheres se inserirem no mercado de trabalho.

A nossa sociedade culpabiliza as mulheres pelas violências que sofrem, unicamente por serem mulheres, mesmo que com diferentes identidades, etnias, raças, orientações sexuais, classes sociais e de diferentes gerações. Quando somos lésbicas, negras e pobres, essa violência ainda é mais intensa, sobretudo, quando essas identidades se articulam entre si, promovendo uma discriminação e preconceito sem precedentes.

A Paraíba historicamente é um estado em que o machismo é forte e repercute sobre a história de vida das mulheres. Recentemente foi divulgado o mapa da violência de 2012 no Brasil. A Paraíba é o 4º estado com o maior índice de homicídios de mulheres e a capital aparece na 12ª posição dentre as demais capitais da federação. O índice de violência contra as mulheres no Estado em 2012 é 50% maior em relação ao ano passado. Até abril deste ano, já foram assassinadas 41 mulheres na Paraíba sendo 26 por crimes machistas e sexistas e 15 por suposto envolvimento com drogas (Fonte: Centro da Mulher 8 de Março). Esses números são bem maiores, pois a maioria dos casos não chega a ser noticiado na imprensa.

Um dos casos mais chocantes ocorreu na cidade de Queimadas, Paraíba, em que cinco mulheres foram estupradas, sendo duas brutalmente assassinadas. O estupro coletivo foi um “presente”de aniversário, um crime cruel que precisa ser punido e revela o quanto ainda precisa ser feito no enfrentamento à violência contra a mulher, ao machismo e ao patriarcado. Denunciamos essa violência, na qual o corpo e a vida das mulheres são vistos como um elemento a ser dominado. Somos solidárias a todas as mulheres vítimas de violência. Nesse sentido, “somos todas mulheres de Queimadas”!

COMO SURGIU “A MARCHA DAS VADIAS”?

A marcha surge em 2011, na cidade de Toronto, Canadá, quando o elevado número de estupros de mulheres numa universidade levou um policial, durante uma palestra sobre segurança, a “aconselhar” que as mulheres evitassem se vestir como “vadias” para não serem estupradas. Estudantes da universidade se indignaram diante de tal declaração e a reverteram em um protesto político, organizando a primeira marcha das vadias, que levou às ruas cerca de três mil pessoas, que se manifestaram publicamente contra a alegação de que as mulheres são violentadas por causa da forma como se vestem. Em pouco tempo, a marcha das vadias se espalhou pelo mundo.

No Brasil, pelo segundo ano consecutivo, diversas marchas têm acontecido em todas as regiões. Na Paraíba, a marcha das vadias acontece num momento em que a violência contra a mulher aumenta bastante, sendo necessário fazer a denúncia dos casos de violência, dialogar com a população e reivindicar a efetivação das medidas de enfrentamento à violência contra a mulher.

E “VADIA”, por que?

Porque esta palavra é usada contra as mulheres diante de alguma atitude ousada e diferente da condição de submissão que lhe foi destinada na história, principalmente no que se refere à sua sexualidade. Na sociedade opressora e machista em que vivemos, o livre exercício da sexualidade da mulher é tabu e gera preconceitos diversos. Esta palavra provoca e faz refletir sobre um padrão de conduta imposto pela sociedade, que se escandaliza com a palavra “vadia”, mas não se escandaliza diante dos casos de violência que acontecem com as mulheres. O uso dessa palavra é uma crítica ao rótulo que nos é imposto quando enfrentamos os padrões estabelecidos para o comportamento feminino.
Então, dizemo-nos “vadias” porque queremos ser mulheres livres de qualquer tipo de exploração e de opressão e não ficamos caladas diante de uma situação de violência, seja ela física, simbólica ou psicológica... Dizemo-nos “vadias” porque nossos corpos nos pertencem!

Nós marchamos porque...

• Temos o direito de exercer e de expressar nossa sexualidade livremente, sem que isso nos oprima ou nos estigmatize;
• Repudiamos essa sociedade que nos impõe um padrão de beleza que mercantiliza os nossos corpos tornando-os objetos da mídia e no mercado;
• Não aceitamos que nos seja imposto um destino que não almejamos. Recusamo-nos a reduzir o nosso papel ao da maternidade. Por isso também reivindicamos o aborto legal e seguro;
• Reivindicamos medidas preventivas e de combate à exploração sexual infantil, um problema que atinge principalmente as meninas;
• Queremos igualdade dentro dos nossos lares, dividindo a responsabilidade com as tarefas domésticas e no cuidado com os filhos,
• Exigimos equidade também nos ambientes de trabalho, com salários iguais para funções idênticas, bem como nos espaços de decisão sobre os rumos da sociedade;
• Somos contra o capitalismo e o patriarcado, pois esses sistemas se mantém fortalecendo a desigualdade entre as classes sociais e a dominação dos homens sobre as mulheres;
• Defendemos que toda mulher tenha o direito de se vestir e de se comportar como bem entender, sem que isso seja uma ameaça à sua segurança física ou uma justificativa à violação de seu corpo;
• Exigimos um Estado efetivamente laico e democrático que respeite todas as diferenças, sejam elas de sexo, raça, etnia ou orientação sexual;
• Reivindicamos a efetivação de políticas públicas por parte do Estado: com a criação/manutenção de delegacias, casas-abrigo e de acolhimento e centros de referência especializados para atendimento às mulheres vítimas de violência; qualificação dos funcionários para o atendimento das vítimas; melhorias no funcionamento da justiça especializada; mais creches públicas para possibilitar a inserção das mulheres no mercado de trabalho.
Assim, denunciamos todas as formas de violência contra as mulheres que acontecem na Paraíba, no Brasil e no mundo. Não nos calaremos e seguiremos fortes e incansáveis nesta luta por uma vida com igualdade, liberdade, felicidade, autonomia, com livre expressão e sem violência de gênero!


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