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Marcha das Vadias faz atos em todo país no final de semana

sexta-feira 24 de maio de 2013, por Deborah Moreira,

No dicionário, o adjetivo feminino vadia significa ”mulher que, sem viver da prostituição, leva vida devassa ou amoral”. Na vida, adolescentes e jovens se apropriaram do termo para criar um movimento global que exige o fim da violência doméstica e da culpa atribuída à mulher. A Marcha das Vadias acontece em 13 cidades neste sábado (25) e domingo (26), como São Paulo e Porto Alegre.

A palavra é usada de forma pejorativa e, geralmente, é atribuída às mulheres que optam em sair dos padrões comportamentais e assumem suas escolhas seja no uso de uma roupa, seja no uso da palavra. Para chamar a atenção sobre a desigualdade de gênero e a violência contra a mulher é que milhares sairão às ruas.

Nesta 3º edição da Marcha, o tema escolhido foi “Quebre o Silêncio” com o objetivo de enfatizar sobre a necessidade de ampliar as denúncias de violência doméstica, com a divulgação, inclusive, dos serviços de atendimento de referência.

Dados do Ligue 180, da secretaria nacional de Política para Mulheres, a cada dia, em média, 2.175 mulheres telefonam para o serviço. Em 89 % dos casos, o agressor é o companheiro ou ex-companheiro da mulher, 50% das vítimas dizem estar correndo risco de morte. O Brasil é o 7º país no ranking mundial de homicídios de mulheres, segundo o Conselho Nacional de Justiça. O Mapa da Violência 2012, citado pela ministra Eleonora Menicucci, revela que em 65% dos casos de violência sexual o estuprador era um parente ou conhecido da mulher.

“Após diversas reuniões, chegamos à conclusão de que é preciso quebrar o silêncios das mulheres que sofrem violência e não têm coragem de se expor. Sabemos que o número de denúncias divulgado ainda mostra a realidade. É preciso acabar com a culpa atribuída às mulheres pelo patriarcado”, explicou uma das integrantes do coletivo em São Paulo, Priscila Bernardes, 27 anos.

Na capital paulista, onde a marcha será no sábado, o grupo composto por cerca de 20 mulheres tem entre 18 e 34 anos. Apesar de não agradar alguns movimentos mais tradicionais de mulheres, pelo uso do adjetivo tido como vulgar, elas se definem como feministas e valorizam a luta e mobilização das primeira e segunda onda feminista, no final do século 19 e início do 20 e segunda metade da década de 1960, respectivamente.

“Estamos nos apropriando da palavra vadia para chamar a atenção sobre a liberdade de escolhas para mulheres e homens. E aí provocamos com a seguinte questão: a palavra vadia te choca mais do que a violência contra a mulher”, completou a integrante da Marcha, que concorda que a irreverência e o bom humor são traços característicos dos movimentos contemporâneos. “A irreverência é uma forma que encontramos para atrair mais militância e ampliar a mobilização. Pensamos que primeiro é preciso atrair e despertar o interesse pela causa para, enfim, abrir o debate”, completou.

Para as jovens, cuja maioria vive sua primeira experiência como militante, é preciso mudar a estratégia para a aproximação das novas gerações, com discurso atual, porém, se apropriando do bom e velho ideal feminista de mulheres como Bertha Lutz e Simone de Beauvoir.

“Não acreditamos no pós-feminismo, mas sim no feminismo. Em uma terceira e até numa quarta onda feminista, com maior força e representatividade, mais plural, com a participação de mulheres negras e transexuais”, esclareceu.

Homens e internet: para quebrar o silêncio da mídia

Em São Paulo, a Marcha se reúne quinzenalmente para deliberar sobre os temas da agenda feminista, promover debates e outras atividades culturais e políticas, os quais homens são muito bem vindos. No entanto, na formação do coletivo, o grupo chegou concluiu que a presença masculina poderia prejudicar as discussões e até inibir os posicionamentos.

“É uma participação crescente nos debates e atividades que promovemos. Os homens têm agregado bastante à luta, abrindo diálogos construtivos, afinal, se por um lado são agentes da sociedade patriarcal, também são vítimas. Mas, para o coletivo em São Paulo, decidimos fechar a participação masculina para valorizar a luta das mulheres. Mas isso é uma decisão de cada coletivo. Não há uma hierarquia a ser seguida. Mas, certamente, é um tema que voltaremos a abordar por ainda suscitar discussão”, explicou Priscila.

Outra ferramenta importante para as mobilizações é a internet, onde o movimento mantém uma página no Facebook, no Flickr e um blog. De acordo com o coletivo, todos os esforços são feitos para que as informações cheguem ao público, sem a frequente manipulação da grande mídia hegemônica, que, invariavelmente, rotula o movimento de mulheres.

Curiosamente, o adjetivo masculino vadio tem outro signifcado da palavra irmã feminina: "que não tem ocupação, trabalho, ou que nada faz". Influência da opinião pública?

A Marcha

Em São Paulo a marcha terá concentração na Praça do Ciclista, no cruzamento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, a partir das 12 horas, quando ocorrerão oficinas de cartazes e stencil. A marcha deve sair por volta das 14h e percorrerá a Avenida Paulista, Rua Augusta, até a Praça Roosevelt, onde se encerrará.

Outras doze cidades recebem a Marcha das Vadias neste fim de semana, das quais sete também são capitais: Porto Alegre, Florianópolis, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, São Luís e Aracaju. As outras cidades são Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, e São Carlos, Bauru, Sorocaba e São José dos Campos, no interior de São Paulo.

A União Brasileira de Mulheres (UBM) participará da marcha em diversas cidades, como em Porto Alegre, no domingo (26), e Curitiba, programada para ocorrer em 13 de julho, onde já estão sendo produzidos banners e panfletos.

"É uma luta importante, em especial de combate à violência contra as mulheres e a UBM, uma entidade que foi fundada com o slogan ’Por um mundo de igualdade, Contra toda a opressão’, tem nas lutas da Marcha das Vadias mais um espaço de denúncia contra o modelo cultural baseado no patriarcado e consequentemente no machismo", defendeu Elza Campos, coordenadora nacional da UBM.

Origem

Em Janeiro de 2011, jovens da Universidade de Toronto, no Canadá, que estavam amedrontadas por uma onda de violência sexual que tomava o campus, são questionadas por um policial. Em seu discurso, o homem apelou para que as mulheres evitassem “se vestir como vadias” para não serem vítimas de estupro. No dia 3 de abril daquele ano, três mil pessoas tomaram as ruas de Toronto, num protesto batizado como SlutWalk. O movimento se alastrou mundo afora.

No Brasil a primeira marcha aconteceu em 2011, com cerca de 600 pessoas. Em 2012, o coletivo não esperava reunir tanta gente: 2 mil. Neste ano, as organizadoras apostam que o número deve aumentar. No Facebook, mais de 6 mil internautas confirmaram presença.

Fonte: Vermelho