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Marcha das Vadias multiplica-se pelo Brasil

segunda-feira 28 de maio de 2012, por Terezinha Vicente ,

A tônica dominante na Marcha das Vadias é o grito por liberdades individuais, pelo direito a ser diferente, a divergir do pensamento majoritário na sociedade, imposto pelo patriarcado capitalista e cúmplice da moral hipócrita do mercado.

Cheguei para espiar, quando a moçada se preparava para sair em marcha, na Praça do Ciclista, início da Avenida Paulista. Aí, foi aparecendo gente, gente, uma maioria de jovens, meninos e meninas. A Marcha das Vadias apresentou uma presença masculina que chamava a atenção. Eram muitos e seus cartazes manifestavam mais do que solidariedade às mulheres, exibiam o apoio ao feminismo e às suas posições. E havia também famílias, crianças, e centenas e centenas de mulheres de todas as cores, idades, tipos. Quando virou a Augusta o seu final estava lá no começo. Fiquei até o final.

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A Slut Walk – nome original no Canadá, onde essa marcha começou em 2011 para lutar contra o machismo que culpa mulheres pelos estupros e violências de que são alvo – aqui ganhou o nome de Marcha das Vadias, o que não agrada muito algumas feministas, e não se faz entender em alguns segmentos sociais. Mobilizada e convocada basicamente pela internet, neste ano a marcha aconteceu no último final de semana em mais de 20 cidades brasileiras, incluindo Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Porto Alegre. Outras ainda acontecerão nas próximas semanas.

Liberdade e o direito ao próprio corpo

Afinal, o que propõe a Marcha das Vadias? A primeira coisa que se percebe nesta manifestação é a ausência de bandeiras partidárias, sindicais, ou faixas de movimentos conhecidos. Isto não significa que os manifestantes não tenham partidos, ou não estejam organizados em torno de alguma causa ou segmento. Pelo contrário, acho até que boa parte deles é organizada sim. Mas esta marcha, assim como outras organizadas recentemente, trata de direitos individuais, cada pessoa coloca sua reivindicação. Por isso, o que se vê são centenas de cartazes pequenos, feitos nos mais diferentes materiais, manuscritos a maioria, criativos, com a mensagem escolhida pelo portador ou portadora.

A tônica dominante é o grito por liberdades individuais, pelo direito de ser como se é ou se quer ser. O direito a ser diferente, a divergir do pensamento majoritário na sociedade, imposto pelo patriarcado capitalista e cúmplice da moral hipócrita do mercado, perpetuado pela mídia e pelas religiões. A luta por liberdade, por autonomia em relação ao próprio corpo, pelo direito de escolha, acaba convergindo com a teoria e as lutas feministas. A Marcha das Vadias protesta basicamente contra o machismo e a violência e defende o ser feminista, ideologia declarada inclusive por vários homens.

O empoderamento do feminismo

“Uma marcha livre, irreverente, politizada, uma marcha que trouxe o radicalismo do feminismo de volta as ruas!”, diz Rogéria Peixinho, da AMB (Articulação de Mulheres Brasileiras) e uma das coordenadoras no RJ. A destacada presença de homens também chamou atenção de Rogéria, que diz não se lembrar “de ter sentido uma emoção igual em nenhuma manifestação politica” de que participou e destaca a manifestação espontânea ocorrida na Igreja de Copacabana, bastante destacada pela imprensa carioca, até porque foi reprimida pela polícia. Embaixo do pôster do Papa chamando para a Jornada Mundial dos Jovens, as manifestantes gritaram pela legalização do aborto.

Embora a ação espontânea tenha dividido a manifestação e provocado a intervenção da polícia com sprays de pimenta, a organizadora da Marcha se emocionou com o enfrentamento a um dos ícones da hipocrisia patriarcal. “Lembramos os milhares de crimes cometidos pela Igreja Católica, lembramos as mulheres queimadas vivas, as crianças que tiveram suas vidas marcadas pela violência sexual cometida por padres, a violência cometida todos os dias contra nós mulheres quando essa Igreja impõe para governos suas convicções”. A defesa do Estado laico é fundamental para as feministas e, todos sabemos, para a democracia que queira ser chamada assim. Mas realmente não é o que acontece no Brasil, basta rodar com o controle remoto a nossa programação televisiva.

Acho que por aí o mundo caminha bem. Semelhanças com o discurso de outros movimentos, como a Marcha da Maconha ou as “Acampadas” do movimento “Occupy”, não são mera coincidência. Cresce na juventude uma consciência de não aceitar mais as regras desse Estado mercantilizado e autodestrutivo, não aceitar mais suas imposições culturais, econômicas, ditames sobre o que faz bem ou mal para sua saúde, qual deve ser sua moral, o que você deve comer, vestir, consumir, consumir, consumir. Discursos hipócritas, enquanto a vida é envenenada e destruída. Liberdade! é mais uma vez o grito da juventude!

Comprometimento é individual e assumido

Eu fiquei emocionada. Cantar junto com aquele monte de jovens as nossas palavras de ordem, rapidamente aprendidas, que iam caminhando por blocos na passeata e juntamente com ela. Usando pouca roupa, ou quase nada, pintando o corpo com cores chamativas, sobretudo pondo os seios à mostra, as mulheres celebravam seu empoderamento e o direito adquirido de serem livres. E exigiam o fim da violência dos homens, do Estado, da mídia. Contra o machismo, que costuma confundir manifestações de liberdade com o oferecimento do corpo feminino, e sua mercantilização.

"Eu só quero é ser feliz / andar tranquilamente com a roupa que escolhi / e poder assegurar / de burca ou de short, todos vão me respeitar", cantavam. “Vem, vem, vem pra rua vem, contra o machismo”, convocavam a plateia que parava e saia dos prédios para ver e apoiar. "A nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito", “Eu dou pra homem, dou prá mulher, o corpo é meu, dou pra quem quiser”, e várias outras demandas eram cantadas e acompanhadas por batuques e outros instrumentos.

As feministas contemporâneas, bem como os homens antimachistas, não aceitam mais que alguém se diga dono de alguém, muito menos que o Estado e a Igreja tentem dirigir sua vida e controlar seus corpos. Repudiam a violência com que isso é feito, a militarização, a criminalização da pobreza, o feminicídio. A profusão de cartazes com as mais variadas expressões, subjetivas, exibidas com gosto por cada ser humano que ali estava, era uma manifestação da palavra empenhada por cada indivíduo, sem hipocrisia. Essa moçada percebe-se mais como natureza, quer parar a destruição do planeta e da sua vida, quer poder escolher, trocar o consumo fútil por prazer e felicidade. Eu também quero. “Libertar, libertar, o direito de pensar”!

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