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Mortos da ditadura, mortos da democracia

quinta-feira 3 de abril de 2014, por Terezinha Vicente ,

Duas emocionantes manifestações lembrando os 50 anos do golpe, que instituiu a ditadura militar brasileira. Contra a militarização do Estado, contra a militarização da própria vida, uma cultura de luta está sendo construída.

Muitas têm sido nestes dias as manifestações, debates, atos políticos, apresentações culturais, teatro, cinema, falando dos 50 anos da instituição da ditadura militar brasileira. “Ditadura nunca mais”. Sobretudo pelos mortos da ditadura, muitos dos quais ainda desaparecidos, e contra a não punição dos torturadores, tem sido a tônica da maioria dos atos.

Mas também tem sido denunciada a violência de Estado que continua. A repressão contra os movimentos sociais e contra a população pobre e negra da periferia continua. Propostas de leis bastante semelhantes às da ditadura proliferam no Congresso – lei antiterror, regulação das manifestações, e até uma Portaria do Ministério da Defesa chamada de “Garantia da Lei e da Ordem” – e remetem-nos aos anos de chumbo que vivemos recentemente no país.


Centenas de pessoas estiveram no antigo DoiCodi

Duas dessas manifestações destacam-se pela emoção que produziram, talvez por terem contido muita arte, sobretudo teatral e musical: “Ditadura Nunca Mais: 50 anos do golpe militar”, ato político realizado na delegacia da Rua Tutóia, que abrigou o DOI-CODI, talvez o pior centro de tortura no país, realizado na manhã de 31 de março; e o 3º Desfile do Cordão da Mentira: 64 + 50 Quando vai acabar a ditadura civil-militar?, um bloco político cultural, que saiu do Largo General Osório, ali onde ficava o DOPS – Departamento de Ordem Política e Social, outro braço da tortura e da repressão.


Rubens Paiva discursa no Congresso contra o golpe

Organizado pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” e apoiado por mais de uma centena de organizações e entidades defensoras dos direitos humanos, o ato “Ditadura Nunca Mais” reuniu quase mil pessoas. Adriano Diogo, deputado estadual e coordenador da Comissão, Amelinha Teles, conhecida militante feminista, presa e torturada pelo regime militar e Ivan Seixas, militante preso e torturado aos 16 anos de idade, leram junto com os presentes o manifesto dos organizadores. A seguir, foi lido o nome de cada um dos mortos no Doi-Codi, ao que o público respondia “Presente!”.

Entre os presentes, dezenas de presos políticos da ditadura, parentes dos desaparecidos, iam se encontrando e revivendo aqueles anos de intensa luta. No palco, sucederam-se diversos grupos de teatro e música, apresentando cenas que remetiam à ditadura e à luta contra o odioso regime político, emocionando a todos. Ponto alto foi a dramatização de Marta Baião (foto), em homenagem à Amelinha Teles, representando a tortura sofrida pela militante, que fez muita gente chorar. Reivindicou-se também que aquele espaço da Rua Tutóia – onde ainda hoje funciona uma delegacia – se transforme em um centro de memória em homenagem aos presos políticos da ditadura. Recentemente o prédio foi tombado pelo Condephaat, por sua importância histórica.


Grupo Kiwi forte presença nas duas manifestações

Unindo arte e luta

O Cordão da Mentira, realizado desde 2012, por movimentos sociais, coletivos, grupos de teatro e sambistas, organizou um dos maiores escrachos político culturais já vistos em São Paulo, um misto de bloco de carnaval e passeata de constestação. Uma cultura de luta está sendo construída, com arte, garra, enfrentamento político. Na noite de 1º de abril, por mais de 4 horas, o cortejo seguiu por várias ruas da área central da cidade, parando em lugares históricos, referências à ditadura, onde falas e intervenções teatrais denunciavam a continuidade do aparato repressivo e cobravam a punição a assassinos e torturadores, de ontem e de hoje.

“É fundamental que nesse momento marquemos posições com relação à desmilitarização das polícias”, disse Alípio Freire, jornalista e preso político da ditadura, na abertura do evento. A presença das “Mães de Maio” – organização de mães dos assassinados na grande chacina ocorrida em SP em maio de 2006, fazia a ligação do passado com o presente. Lembrando as recentes mobilizações de rua, reprimidas violentamente, as recentes mortes de inocentes em operações policiais que não devem nada àquelas da ditadura, como o caso Amarildo. “A Ditadura acabou, mas esqueceram de avisar a polícia”, falou Débora Maria da Silva (foto), das Mães de Maio.

“Brasil, a luz se apagou/ Quando a águia pousou/ E espalhou no continente a escuridão/ Censura, exílio, clausura/ Pra aprofundar um sistema opressor/ Milagre econômico: que farsa!!!/ ‘Milágrima’ caiu do pau-de-arara/ ‘Caminhando e cantando’/ A Lona Preta ‘Vai Passar’/ Gritando contra a ditadura/ Cabou o nome, ficou a estrutura”, puxava o samba a Unidos da Lona Preta (bateria do MST) junto com a Fanfarra do Mal (MPL), na concentração do cordão, em frente ao Memorial da Resistência, antigo DOPS. Várias intervenções culturais foram feitas, como imprimir nomes de mortos de ontem e hoje no chão, trocar simbolicamente o nome das ruas.

Como reprimir um bloco de carnaval?

Com composições próprias, ótimos puxadores de samba, o repúdio à ditadura que durou 21 anos no Brasil, foi uma brilhante idéia de manifestação. Sem o tradicional aparato da Polícia Militar para “proteger”, ou da CET (Companhia de Engenharia do Tráfego) para organizar a passagem pelas ruas movimentadas, o próprio grupo mantinha um cordão de proteção que se encarregava de conter o trânsito. Projeções de imagens da época da ditadura iam sendo feitas nas paredes de prédios, como em frente à Polícia Civil, onde se cobraram os mortos e desaparecidos, como também se defenderam as prostitutas. No Largo do Paissandú, onde fica a “Igreja dos Pretos”, lembrou-se que o genocídio dos pobres e negros não começou agora, existe desde os índios e os escravos. E foi ali que a polícia se mostrou pela primeira vez, com viaturas e policiais armados, que foram recebidos com uma palavra de ordem: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”. A repressão se conteve.

Foi também no Largo do Paissandú, que o Coletivo de Galochas, apresentou uma cena com uma representação do poder e sua força de cooptação e um pirata representando a resistência. Outros grupos de teatro se fizeram presentes, como o Grupo Kiwi, que participou da abertura, a Companhia Antropofágica, Engenho Teatral, Cia Estável, e outros. Os manifestantes juntavam aos mortos da ditadura os mortos da democracia. As estatísticas dizem que morrem na mão da polícia 50 mil por ano no Brasil.

A polícia reapareceu na Praça da República, onde a Tropa de Choque recebia instruções para cercar a manifestação. Foram encontrar o Cordão lá na Rua Maria Antonia, quando se lembrava a batalha entre estudantes da Filosofia da USP e do Mackenzie em 1968. Perfilaram-se ostensivamente ao lado dos manifestantes, e mais um esquete teatral era apresentado. Os organizadores logo reforçaram o cordão de proteção isolando a manifestação – que juntou mais mil pessoas, jovens em maioria – da polícia.

Como reprimir um bloco de carnaval? Estávamos quase no final da rota, pois o desfile terminaria logo ali em Higienópolis, em frente o prédio da TFP – Tradicional Família e Propriedade, organização retrógrada, um dos sustentáculos do cenário do golpe em 1964. Sim, as letras dos sambas eram mais que engajadas, as palavras de ordem questionavam a tal democracia em que vivemos, as fantasias eram alusivas à violência a que nos submetem, mas havia uma bateria, muita dança, música e poesia...

FOTOS: Joseh Silva, Mario Bentes, Roberto Brilhante, Terezinha Vicente

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