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Não são 49, somos milhares!

terça-feira 14 de junho de 2016, por Soraya Misleh,

Independentemente de sua religião, Mateen era violento, machista e LGBTfóbico.

A barbárie LGBTfóbica que assassinou 49 pessoas na boate Pulse, em Orlando, Flórida (EUA), no dia 12 de junho, atinge em cheio todos os oprimidos do mundo. Reflete sem máscaras a face do capitalismo no coração do Império, que precisa dividir a classe trabalhadora para manter sua hegemonia e exploração. Joga uns contra os outros, em todos os cantos do mundo – e se utiliza de nossas dores para alimentar o ódio contra as maiorias oprimidas. Assim tem ocorrido diante dessa tragédia, desse crime de ódio por um ato individual de alguém gestado no seio de uma sociedade doente. Lamentavelmente, no geral, as análises não vão nessa direção. Pelo fato de Omar Mateen ser um americano muçulmano de origem afegã e ter afirmado estar a serviço do Estado Islâmico, o caso está sendo tratado como terrorismo por parte de um extremista islâmico.

Independentemente de sua religião, Mateen era violento, machista e LGBTfóbico. Trabalhava na empresa de segurança multinacional G4S, que é denunciada pelas violações de direitos humanos em várias partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos. A empresa é alvo da campanha de BDS (boicotes, desinvestimento e sanções) a Israel por sua atuação nos cárceres onde se encontram em condições subumanas 7 mil presos políticos palestinos, inclusive crianças. Era esse o perfil de Mateen.

Não tardou para que políticos buscassem manipular a barbárie às suas campanhas eleitorais. Obviamente Obama expressou solidariedade e repúdio ao assassinato na boate Pulse, mas o fato é que como todos os governos, suas mãos estão também sujas de sangue, inclusive LGBT (o Brasil não é exceção: é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo).

Para além da retórica, durante o mandato de Obama, cresceram os índices de assassinatos, agressões e ameaças a LGBTs. Somente em 2013, segundo dados do próprio FBI, 20% dos crimes de ódio foram cometidos contra essa parcela da população.

O partido de Obama – o Democratas – tem estado à frente da ofensiva imperialista que produz milhares de excluídos. É corresponsável pela criação do denominado Estado Islâmico (EI) – que a maioria esmagadora dos muçulmanos no mundo rejeita e se opõe – como instrumento para impor derrota ao processo revolucionário no mundo árabe. O EI é financiado sobretudo pela Arábia Saudita, principal aliada dos Estados Unidos no mundo árabe. Assim como ditadores como Bashar El Assad, o Estado Islâmico tem assassinado milhares de sírios. O mesmo EI que agora se responsabiliza pelo ataque à boate Pulse e que Obama diz combater serve, portanto, aos seus interesses imperialistas no mundo árabe. Donald Trump, do Partido Republicano, expõe claramente a islamofobia, tentando navegar no sentimento de revolta da população para angariar votos. Enquanto isso, muçulmanos em todo o mundo estão solidários às vítimas em Orlando e repudiam o ato bárbaro.

Além de mascarar a LGBTfobia como pano de fundo, alimenta-se o racismo, a xenofobia e a islamofobia. A perspectiva colonial está presente mesmo em grupos que condenam o fundamentalismo “islâmico” sem avaliar que esse argumento serve de justificativa e instrumento a um projeto colonial. Ação típica do capitalismo para dividir os oprimidos. Ao repudiarmos os assassinatos por crime de ódio em Orlando, devemos levantar nossas bandeiras contra esse sistema mundial que nos massacra, explora e divide. Por um mundo sem LGBTfobia, machismo, racismo, colonialismo e xenofobia.