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Nelson Motta, o piadista de araque

sexta-feira 15 de fevereiro de 2013, por Pedro Estevam da Rocha Pomar,

“Monopólio” ou oligopólio, o fato é que um pequeno grupo de
poderosas empresas determina, em grande medida, a qualidade e o
formato daquilo que a maior parte dos brasileiros lê, ouve e assiste.

A hegemonia do “pensamento Globo” é tão forte que arrasta para o seu
campo uma série de intelectuais progressistas (ou que supúnhamos que o
fossem) que mantêm vínculos simbólicos ou materiais com o principal
grupo de mídia do país. O jornalista Nelson Motta, excelente crítico
de música, e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, ultimamente vem
se aplicando na tarefa de tornar-se um intelectual reacionário, sempre
pronto a espicaçar a esquerda por erros reais ou imaginários.

No artigo “Piadas no Salão”, publicado na edição de 8/2 do Estadão (p.
A7) e disponível também em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/02/08/piadas-no-salao-por-nelson-motta-485583.asp, Nelson Motta trata da questão da democratização da mídia com uma leviandade espantosa. Ao fazer referência a uma declaração do ex-ministro José Dirceu, condenado na AP 470, em que este denuncia o
“monopólio da comunicação”, o colunista pergunta: “Êpa! Que monopólio
de araque é esse com tantas empresas competindo num dos maiores
mercados publicitários do mundo?”

A rigor, não se trata mesmo de monopólio, mas de oligopólio, como
advertia o saudoso jornalista Jair Borin, professor da Escola de
Comunicações e Artes (ECA-USP). O que não refresca nada. Porque, ainda
que não seja uma única empresa a controlar sozinha o conjunto dos
meios chamados de “comunicação de massa”, são algumas poucas que
concentram, reunidas, algo em torno de 90% do sistema! Portanto, temos
um oligopólio em que cerca de uma dezena de grandes grupos
empresariais controla as principais emissoras de TV, rádio, jornais e
revistas impressos de maior circulação, portais da Internet e outras
mídias. Também integram o sistema, em maior ou menor grau, oligopólios
e monopólios de escala regional e local.

Portanto, “monopólio” ou oligopólio, o fato é que um pequeno grupo de
poderosas empresas determina, em grande medida, a qualidade e o
formato daquilo que a maior parte dos brasileiros lê, ouve e assiste.
A propriedade cruzada — o controle simultâneo de redes de rádio e TV,
publicações impressas, meios digitais, distribuidoras, produtoras de
filmes e discos e até transmissão de dados via satélite — confere
enorme poder a essas empresas.

Motta devia saber disso, afinal de contas ele trabalha para a TV Globo
e tem seus escritos publicados no G1, portal do mesmo grupo. O
supergrupo da família Marinho é a estrela de maior brilho dentro do
oligopólio e o “campeão” em matéria de propriedade cruzada da mídia no
Brasil.

Mesmo com audiência em queda na TV, o grupo Globo ainda é, de longe, o
maior conglomerado de mídia do país, com receitas anuais superiores a
R$ 10 bilhões nos últimos anos. Segundo a revista Forbes, somente com
a novela “Avenida Brasil” a Globo obteve receita de R$ 2 bilhões em
2012!

“Não podemos permitir que o Zé Dirceu tente cercear a palavra da
imprensa independente, que não depende de favores do governo e vive de
anunciantes privados que pagam para divulgar e promover seus produtos
e serviços nos veículos que atingem o maior público com mais
credibilidade”, exclama o indignado Motta no seu texto.

Ora, o que o articulista chama de “imprensa independente” são
exatamente esses grandes grupos que integram o oligopólio da mídia.
Afirmar que essa turma vive de anunciantes privados e que “não depende
de favores do governo” é contar apenas parte da história (e falsear a
outra parte). Tem sido fartamente noticiado que os governos estaduais
de São Paulo (Alckmin, Serra) repassaram centenas de milhões de reais,
durante anos, para os grupos Abril, Globo, Folha e Estado, mediante
contratos sem licitação para aquisição de publicações impressas.

Mesmo o governo federal, duramente combatido por alguns desses grupos
de mídia que resolveram assumir ostensivamente o papel de oposição,
tem contribuído generosamente para sustentá-los. Todos receberam
fartas verbas publicitárias da União em 2012. Mas Carta Capital, uma
revista comercial que faz jornalismo de qualidade (e que apoiou a
eleição de Dilma, sem abrir mão do direito de criticar erros do
governo), recebeu pouco mais de R$ 100 mil.

Por outro lado, a opinião do ex-ministro José Dirceu importa bem pouco
nesta questão. Para falar a verdade, enquanto esteve à frente da
máquina partidária, e depois na Casa Civil, ele nunca se preocupou
efetivamente em combater o oligopólio da mídia. É bom que se diga que
a bandeira da democratização da mídia pertence a movimentos sociais,
grupos, partidos e entidades da sociedade civil que conseguiram
viabilizar politicamente a I Conferência Nacional de Comunicação,
realizada em Brasília em 2009. Embora tenha sido convocada pelo
próprio governo federal, e contado com expressiva participação do
empresariado, as principais medidas aprovadas na Conferência para
tornar a comunicação mais democrática e pluralista jamais foram
implantadas.

Utilizando-se de um linguajar que seria mais apropriado num texto de
Arnaldo Jabor, diz ainda Motta em seu artigo: “Um dos relinchos (sic!)
mais estridentes nos blogs políticos é exigir que Dilma corte toda a
publicidade estatal da TV Globo, por criticar o governo. Devem achar
que a Caixa, o Banco do Brasil e a Petrobras anunciam na Globo, que
tem mais audiência do que todas as outras juntas, não por necessidade
de competir no mercado, mas para comprar apoio. Para eles tudo na vida
é mensalão”.

Criticar o governo é necessário e importante, sempre que houver erros,
omissões e ilicitudes que precisem ser apontadas. Porém, o que os
grupos de mídia (Globo à frente) têm feito frequentemente é inventar e
distorcer fatos, com a finalidade de proteger seus próprios interesses
(e os de seus aliados). O alvo dessa mídia nem sempre é o governo
Dilma: muitas vezes são os movimentos sociais, os beneficiários de
políticas públicas (como os sem-terra, os povos indígenas, os
quilombolas), as centrais sindicais (como a CUT), os movimentos
grevistas etc. Ou os governos de países como Venezuela, Argentina e
Equador, atacados como se fossem “ditaduras” e constantemente
ridicularizados por comentaristas e apresentadores.

Motta deveria refletir sobre o que ele mesmo escreve: que a TV Globo
“tem mais audiência do que todas as outras juntas”. Será que isso é
bom? Será que caiu do céu? Será que se deve apenas ao “padrão Globo de
qualidade”? Ou tem a ver com os benefícios que a Globo recebeu da
Ditadura Militar, que lhe permitiram crescer rapidamente, enriquecendo
a família Marinho?

É verdade que Caixa, Petrobras e BB anunciam na Globo por causa de sua
maior audiência? Em parte, sim. Mas também é verdade que não é à toa
que o Brasil é “um dos maiores mercados publicitários do mundo”. Aqui
gerou-se, historicamente, uma enorme relação de promiscuidade entre
gestores públicos e interesses privados, em torno exatamente da
publicidade oficial. Portanto é importante rever as estratégias de
publicidade do governo, inclusive como parte do processo de
desconcentração da mídia. Além disso, não custa lembrar um incômodo
detalhe: as TVs são uma concessão do poder público! O governo paga
para usar algo que é patrimônio da nação.

Por fim, não foi o próprio Motta que garantiu que a “imprensa
independente”, ou seja, o oligopólio da mídia, “vive de anunciantes
privados”? Bem, se é assim, devemos entender que não deve lhe fazer
falta a publicidade de empresas estatais como a Petrobras, o BB e a
Caixa...

Motta tripudia dos defensores da democratização da mídia, que ele vê
como “piadistas de salão”. Mas sua defesa do oligopólio é ou não é uma
piada de mau gosto?