Página inicial > FSM WSF 2017 > O FSM, a mídia livre e o desafio da comunicação

O FSM, a mídia livre e o desafio da comunicação

sexta-feira 23 de dezembro de 2016, por Rita Freire,

Todas as versões desta matéria: [English] [Português do Brasil]

Uma história de construção por dentro do FSM e a necessidade de entender as novas dimensões - digitais - das lutas sociais. Colaboraram Bia Barbosa e Erika Campelo

Nos últimos 15 anos, muitos movimentos e redes sociais se constituiram, desenvolveram ou fortaleceram no âmbito do processo do Fórum Social Mundial. O Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML), um espaço de articulação de lutas internacionais por outra comunicação, é um deles.

Fruto do enlace das experiências de comunicação compartilhada que vinham do FSM desde 2001 com as lutas pelo direito à comunicação em suas tantas dimensões – políticas, sociais, tecnolṍgicas e culturais –, o FMML nasceu em 2009, durante o FSM em Belém.

Foi um desdobramento natural dos esforços coletivos de promover ações midiáticas em torno do FSM. Com as edições anuais de cobertura compartilhada, que aconteciam a cada edição do Fórum e que resultaram em projetos coletivos de mídia escrita, rádio, TV e em um hacklab, ativistas da comunicação se organizaram globalmente e se constituíram, por dentro do FSM, também como um movimento de luta pela liberdade de expressão.

Um ano antes, em janeiro de 2008, a experiência do Dia de Ação e Mobilização Global, mostrou a centralidade da comunicação para a transformação tão buscada pelo FSM. Sem um centro físico, toda possibilidade de encontro das lutas dependeu, naquele ano, de conexões no ambiente virtual.

A comissão de comunicação do FSM e seus projetos compartilhados lançaram então uma rede social que contou com adesão explosiva. Centenas de páginas e um milhar de notícias com textos, fotos e vídeos, além de fóruns de debates públicos e comunidades temáticas, foram criadas e inseridas simultaneamente, por iniciativas de várias partes do mundo, na plataforma chamada fsm2008.net. O processo FSM dedicou infraestrutura e recursos à comunicação e o resultado foi claro.

Infelizmente, o projeto foi suspenso depois para dar lugar a novas experiências. Mas aquela experiência única deixou ainda mais claro que não era possível dar voz efetiva aos que lutam por um outro mundo possível sem desenvolver redes próprias e livres de comunicação e confrontar os grandes conglomerados que controlam o direito à palavra e os modos de produção e difusão de conteúdo nas mais diferentes regiões do mundo.

Assim, o movimento de comunicação compartilhada prosseguiu no apoio à cobertura das ações do FSM, mas passou a procurar espaços autônomos para debater sua ação política.

Ainda em 2008, durante o I Fórum brasileiro de Mídia Livre, que reuniu coletivos e veículos independentes na defesa de políticas públicas e sustentabilidade para o setor, somou-se à proposta de organização de um seminário internacional de comunicação compartilhada no âmbito do FSM. Juntos, esses atores construíram as bases para o nascimento do primeiro Fórum Mundial de Mídia Livre, em Belém, dois dias antes daquela edição do Fórum Social Mundial.

Era um ano de crise econômica mundial avassaladora, tema crucial daquele FSM e suas coberturas. E de diálogo com comunidades indígenas e tradicionais, alijadas das conexões virtuais do FSM por falta de infraestrutura, mas se apropriando aos poucos da produção audiovisual.

A continuidade do FMML foi proposta em um seminário realizado no Senegal, no FSM 2011. A Assembleia de Convergência pelo Direito à Comunicação foi concluída com a aprovação da Carta de Dakar, que contou com a adesão de mais de uma centenas de organizações de todo mundo, reforçando a importância dos ativistas da mídia livre e da liberdade de expressão seguirem se organizando internacionalmente.

O resultado foi a sequência de Fóruns Mundiais de Mídia Livre no Brasil (Rio 2012), Tunísia (Túnis 2013 e 2015) e Canadá (Montreal 2016), além de vários fóruns nacionais e seminários regionais no Brasil, Tunísia, Marrocos e França para a elaboração de uma Carta Mundial de Mídia Livre, lançada no ano passado.

O documento, elaborado de maneira colaborativa, por meio de plataformas virtuais livres e encontros presenciais com a participação de mais de 30 países, afirma os princípios e estratégias para as lutas da comunicação e sua relação com os avanços sociais que tanto buscamos. Trata-se de uma plataforma de ações comuns, fruto da conexão entre o Fórum Social Mundial e o Fórum Mundial de Mídia Livre.

Os próximos desafios

Em sua última reunião, organizações que integram o Conselho Internacional do Fórum Social Mundial propuseram que o FMML se encarregue da Comissão de Comunicação do FSM – uma das instâncias suspensas enquanto o Conselho e o próprio FSM discutem seu papel, sua incidência e seu futuro. Um chamado ao FMML vindo do universo FSM significa possivelmente um passo importante para o reconhecimento recíproco dos propósitos. O FMML é espaço de luta pela comunicação das vozes sociais. O FSM reúne os que precisam comunicar e conectar suas lutas.

Mas ainda existe uma pauta não superada no âmbito das relações entre os processos do FMML e do FSM. Trata-se da politização do esforço comunicativo. Os esforços mais claros nessa direção se deram em 2005, com a opção do FSM pela migração ao software livre, somando lutas pelo conhecimento livre e contra as patentes, entre outros horizontes rumo a Outro Mundo Possível.

As formas de privatização e controle da informação, do conhecimento e das oportunidades humanas desde então se aprofundaram, transformando dados pessoais em mercadoria abundante, sofisticando sistemas de vigilância e controle das multidões, massificando mecanismos de coleta e isolando as pessoas em suas próprias bolhas midiáticas, dentro de uma rede que, no início do século, se acreditava essencialmente livre. Agora estão em disputa, e seriamente ameaçadas, sua neutralidade, o direito à privacidade e toda liberdade de expressão. Corporações como Google e Facebook colonizam a internet, domesticam e organizam usuários e facilitam o fluxo de dados especializadas sobre comportamentos, preferências e vulnerabilidades das populações.

As lutas e mobilizações globais disputam espaço nesse cenário loteado, em que os algorítimos contribuem para maior ou menor presença política, independentemente da legitimidade das reivindicações em curso. Os que protestam nas redes, falam para si mesmos. O eco dessas vozes está contido em bolhas virtuais.

Em lugares mais distantes ou não-economicamente rentáveis, a infraestrutura não chega. As vozes comunitárias são caladas por leis restritivas e pela repressão dos Estados. Em países com menor grau de democracia, os meios tradicionais de radiodifusão fazem o controle pretendido pela política. É o caso no Brasil, em que as redes e as grandes mídias asseguraram aparente adesão do público a um golpe institucional, contra seus próprios direitos. Transformar coletivamente esta realidade é a prioridade do Fórum Mundial de Mídia Livre.

Enquanto isso, o Fórum Social Mundial, que nasceu como um espaço de reconhecimento entre lutas sociais, sintetizado no abraço presencial das suas edições, mas dependente das interações permanentes que fazem dele um processo comunicativo por outro mundo, precisa identificar, dentro e fora de si, o que ameaça sua vocação. Precisa abrir caminhos da comunicação onde estes são travados. E mobilizar suas forças para um interação mais ampla com a sociedade.

O processo FSM é chamado neste momento, depois de seus 15 anos de caminhada, a se expandir e dar visibilidade a tantas e tantas lutas que precisam de uma conexão global de resistência. Foram assim os protestos contra a guerra no Iraque e depois os levantes da Tunísia e Egito, e são ainda hoje os gritos de Gaza massacrada, as lutas atuais do povo curdo, do povo saraui, das mulheres da RDC, dos indígenas das Américas, da juventude pobre e negra do Brasil.

A renovação do processo FSM vem sendo cobrada e debatida pelos que se preocupam em preservar sua relevância para os atores que advogam a transformação social em todo o planeta. Um entre os desafios deste momento é reconhecer as novas dimensões em que as lutas se dão. É estabelecer uma profunda conexão com as mídias livres, seus ambientes alternativos, redes autônomas, suas vozes comunitárias e conhecimentos expropriados e contribuir para os atuais enfrentamentos políticos por democracia na rede, pela governança participativa da internet, pela democratização da cultura e infraestrutura digital.

É desde ponto que o FMML também acena por dentro ao processo FSM com a perspectiva de aprofundar esse diálogo e fortalecer nossas lutas em comum.

Texto integrante da publicação FSM 15 Anos, do Coletivo Brasileiro do FSM. Sobre as autoras: Rita Freire é jornalista, representa a Ciranda no Conselho Internacional do FSM. Colaboraram Bia Barbosa, integrante da coordenação do Intervozes e do FNDC; e Erika Campelo, responsável de projetos internacionais e digitais da rede Ritimo (França). Todas integram o comitê internacional de mobilização do FMML.


Ver online : FSM 15 Anos