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O ’Velho Chico’ tem sede

segunda-feira 6 de outubro de 2014, por Sucena Shkrada Resk,

Sedento. Assim está o ‘Velho Chico’. Nascentes no Parque Nacional da Serra da Canastra, na região do Alto São Francisco, em Minas Gerais, estão praticamente secas. Ao longo de seu curso, como em Pirapora (MG), a 500 quilômetros da unidade de conservação, os sinais ‘desérticos’, de estiagem, trazem apreensão. A Represa de Três Marias, nessa região, está somente com 6% de sua capacidade de volume útil, segundo a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Mas os longos períodos sem chuva são apenas parte do problema.

O que acontece com o ‘rio da integração nacional’? Talvez, a pergunta certa seja: o que está ocorrendo ao longo dos anos? Não é um fato que surgiu de uma hora para outra, mas resultado de uma série de problemas ao longo do tempo, que envolve a gestão pública federal, estadual às municipais, quanto à falta de controle no uso de suas águas para irrigação, pela indústria, quanto aos desmatamentos e incêndios no entorno. As matas ciliares estão se extinguindo, deixando o rio São Francisco cada vez mais vulnerável. Há a carência de planejamento de longo prazo para sua conservação, planos de adaptação e redução de danos. É preciso uma intervenção mais efetiva da Agência Nacional das Águas (ANA), que está acompanhando a situação crítica da estiagem.
Será que as chuvas previstas, a partir desta Primavera, darão jeito nesta crise? Essa, pelo menos, é a expectativa do vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Wagner Costa. Uma incógnita. Historicamente, no entanto, o trimestre mais chuvoso é de novembro a janeiro, que corresponde a até 60% da precipitação anual. O certo é que hoje moradores narram que nunca viram tamanha estiagem há décadas. Os bancos de areia se formam onde antes havia abundância de água.
A pressão antrópica já é registrada oficialmente, desde 1985. De acordo com o CBH, estima-se que àquela época já atingia 24,8% da área da bacia, sendo que as pastagens correspondiam a 16,6%; a agricultura, 7%; o reflorestamento, 0,9%; e usos diversos, 0,3%.
Agora, este cenário desértico afeta a economia e subsistência local. Até as balsas deixaram de operar temporariamente por causa deste trecho comprometido e preocupa autoridades quanto ao transporte da população ou em caso de emergência, entre os municípios de São Francisco, Pintópolis e Urucuia. A situação começou a ser identificada já em julho deste ano. A Marinha do Brasil determinou também que o único vapor em atividade no mundo – o Benjamim Guimarães – pare de navegar até que o rio volte à sua normalidade, na região de Pirapora.
A Bacia Hidrográfica do Velho Chico’ é tão importante porque corta sete Estados brasileiros - Bahia (48,2%), Minas Gerais (36,8%), Pernambuco (10,9%), Alagoas (2,2%), Sergipe (1,2%), Goiás (0,5%) e Distrito Federal (0,2%). Um total de 504 municípios depende de sua vitalidade hídrica. É a referência da população principalmente do semiárido, em 2,7 mil quilômetros de extensão. Mas também cobre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado.
O rio passa por uma obra de transposição polêmica, com sucessivos atrasos, e valores orçados recalculados, que chegam à casa de R$ 8,2 bilhões, praticamente o dobro do custo inicial. Começou em 2007 e tem prazo estimado de conclusão, até 2016. A primeira estimativa era 2010. Segundo o Ministério de Integração Nacional, a meta é levar o acesso à água para 12 milhões de nordestinos. No presente, o que o ’Velho Chico’ precisa é que suas nascentes tenham abundância de água. Quer simplesmente viver.
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*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk


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