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O cabelo do doutor

quarta-feira 30 de setembro de 2015, por Fernando Amaral,

Crônica de um advogado que acredita em pouca, pouquíssima, pouquésima cousa no direito, na justiça, nos anfetamínicos, ansiolíticos e que tais.

No antes - e é sério, seríssimo e batata, - eu me achava um adevogado mais ou menos, mas voluntarioso. Tipo volante no futebol. Compensava a falta de técnica com alguma simpatia, sorrisos, terno e gravata e alguma compreensão - sem falsa modéstia - que o problema dos outros têm sempre uma dimensão que só o outro pode definir. Sem julgar, fica mais fácil lidar.

O tempo passou. E aquele rapaz de cabelo comprido que antanho cortou o cabelo pra tentar ser melhor advogado - que tinha medo de ir em reunião desalinhado - deu uma pirada. Acredita em pouca, pouquíssima, pouquésima cousa no direito, na justiça, nos anfetamínicos, ansiolíticos e que tais.

De uns tempos, a cidade está visivelmente mais quente. Quente no sentido de frita, assada e não no bom significado de sexo casual do termo. Não faz muito sentido suar bicas por causa de um terno, de uma gravata e sei lá. Também não tenho muito mais saco para cortar cabelo. Depois de descobrir bons genéricos de neutrox não há porque temer os embaraços. O resultado? Terno e gravata só quando impossível fugir. Ainda não venho de bermudas, mas o pessoal do escritório está em campanha porque esta coleção primavera/verão promete prometido - tá uns mil graus no centro de SP, neste último dia de inverno.

O resultado? Aos poucos o "doutor" tem sido trocado pelos andarilhos das ruas, pelos clientes, pelos funcionários do café, pelas moças da lotérica, por outras alcunhas. Hoje, uma mocinha simpática, com aquele trabalho insuportável e chato recíproco - para quem trabalha e para quem é admoestado - de pedir fundos para a Unicef (ou para o Greenpeace, ou algum cartão de natal, ou o "vá ao teatro", variações do insuportável) me chamou de "Cabelo"!!!! Meu sorriso quase fez com que a moça ganhasse ao menos atenção. A última pessoa que tinha me chamado de cabelo na vida era um guardador de carro na Rua Riachuelo, na porta do XI de Agôsto, século passado. E uma simpática senhoura no quilão, puxando assunto depois do inevitável esconjuro do calor, perguntou-me se eu era cineasta ou trabalhava na secretária da cultura, que fica pertim do escritório, na Galeria Olido.

"Não... eu sou advogado.... embora não pareça...".

"Deve ser um bom advogado, então. Já não precisa fingir o terno e a gravata.".

A senhoura, de certa forma, me arrancou um nó. E de cabelo e sorriso concluo que está melhor assim...