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Os Mapuches não são cubanos

quinta-feira 5 de agosto de 2010, por Atilio Boron, Atilio Boron

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Nós que criticamos o rumo ideológico conservador da autodenominada “imprensa livre”, ou “independente”, devemos lutar contra a convicção, enraizada na população, de que a mídia informa e se limita a dar a notícia, sem qualquer tendência política. A visão cultivada pelos poderes midiáticos é a de que se limitam a “refletir” a realidade e que, quando elaboram alguma interpretação – que inevitavelmente é política, por se referir a algum problema público – é limitada ao escrito, ou dito, nas colunas editoriais ou de opinião, claramente diferenciada da parte informativa que, supostamente, é “apolítica” e objetiva. Na realidade, salvo poucas exceções, o que ocorre é exatamente o contrário: informa-se ou desinforma-se, em função da perspectiva política pela qual cada meio de comunicação tomou partido, e só há duas possibilidades – ou se é pela conservação do estado de coisas, ou se propõe a superação da ordem social existente. Em assuntos como este, a “imparcialidade” é impossível.

Um exemplo claro do que dizemos é fornecido pelo escandaloso silêncio da “imprensa séria” das Américas, diante da greve de fome que, há mais de 15 dias, é mantida por 31 membros do povo Mapuche, em várias prisões do Chile. Eles se encontram presos pela aplicação da lei “anti-terrorista” aprovada por Pinochet. Produto dessa monstruosa legislação, ainda em vigor depois de 20 anos de “democracia”, 57 mapuches morreram na prisão da exemplar democracia chilena. E por volta de uma centena foram processados pela justiça deste país, por lutar para recuperar as terras dos seus ancestrais. Não apenas isso: o “estado de direito” no Chile, tão elogiado por analistas e opinólogos a serviço do império, torna possível uma aberração jurídica que, no entanto, não provoca nenhum comentário: que os presos possam ser julgados pela justiça civil e, também, pela militar, o que os coloca em risco de serem condenados em dois foros diferentes pelos mesmos delitos que, supostamente, haveriam cometido. Dois dos presos, que se uniram recentemente à greve de fome, Carlos Muñoz Huenuman e Eduardo Painemil Peña, fizeram saber, pelo site da web País

Mapuche (http://paismapuche.org/?p=554) que, “com esta medida extrema e justa, estendemos a resistência dos presos políticos Mapuche nos diferentes presídios chilenos, para denunciar as injustiças cometidas contra nosso povo, que se refletem em violentas expulsões e massacres, onde as vítimas são, principalmente, idosos e crianças; a utilização indiscriminada e forjada de testemunhas protegidas, incluindo menores de idade; o tempo excessivo das investigações levadas pelo ministério público, que só perpetuam a prisão preventiva; e, definitivamente, rechaçar as montagens político-judiciais, sustentadas pela aplicação da lei “anti-terrorista” de Pinochet, na função de encarcerar os lutadores sociais mapuches que enfrentamos a guerra de extermínio declarada pelo Estado chileno.

O que o povo Mapuche quer, e é razão principal de todas suas mobilizações, é a devolução de suas terras ancestrais, expropriadas violentamente pelos embandeirados da “civilização”. Os civilizados do outro lado da Cordilheira dos Andes, na Argentina, diziam que os povos originários da Patagônia eram selvagens, porque desconheciam as sacrossantas virtudes da propriedade privada e, com esse pretexto, fizeram seu genocídio, adoçado na história oficial com o nome de “Conquista do Deserto”. No Chile, esta mesma política de extermínio recebeu um nome não menos cínico, a “Pacificação da Araucania”. Na Argentina, esta tragédia foi documentada e denunciada na extensa obra do historiador Osvaldo Bayer, e hoje existe uma consciência cada vez mais nítida dos alcances e implicações deste infame e sangrento entulho histórico. Para recuperar o que lhes foi arrebatado lutam, hoje, os mapuches chilenos; para por fim à aplicação da lei anti-terrorista de Pinochet às lutas do Povo Nação Mapuche, como se assina em um de seus documentos; acabar com a militarização das suas comunidades, o duplo processo pelas justiças civil e militar; a libertação de todos os prisioneiros políticos mapuches, além de outras demandas mais pontuais.

Como se pode observar, a agenda de reivindicações é grande e de caráter estrutural, indo de encontro à engrenagem de exploração e acumulação capitalistas em voga no Chile atual. Por isso, a greve dos mapuches não é notícia e deve ser silenciada; acontece, mas não chega ao conhecimento público e pouquíssimas pessoas se informam sobre o que acontece. O principal jornal chileno, o golpista e pinochetista El Mercúrio – imortalizado na denúncia dos estudantes, em 1967, que se resumia na frase “Chileno, El Mercúrio mente”- mente outra vez, nada dizendo a respeito. Ao buscar, em seu arquivo, “greve de fome”, os resultados encontrados, previsivelmente, referem-se aos “dissidentes cubanos”, ou a um jejum de alguns dirigentes de futebol bolivianos, ou a outros episódios de igual importância e teor. Se alguém persiste na busca, surge uma avalanche de informações sobre a greve de fome de Zapata e Farina, em Cuba, acompanhadas de fortes imagens cujo impacto não pode ser outro senão suscitar uma solidariedade incondicional do leitor ou espectador com a vítima. Se a busca continua, com o nome Mapuches, o que aparece é uma referência a uma ocupação de terras feita quinta-feira passada; a presença do sol mapuche na nova cédula de $ 20.000, emitida pelo Banco Central do Chile; e a detenção de um membro dessa etnia, que haveria participado de um ataque incendiário, na Araucania. Os grevistas e os prisioneiros não são notícias, não são reportados; são “desaparecidos midiáticos” e a opinião pública nada sabe deles. Uma espessa cobertura de silêncio (cúmplice) é mantido pelo mais importante jornal do Chile e pelas agências de notícias que deveriam informar. Foi graças à Telesur que nos inteiramos desta situação, coisa que os “meios de confusão de massas” se encarregaram de silenciar.

Uma busca em La Nación, de Buenos Aires, serve apenas para confirmar a mesma evidência e sua “desinteressada” solidariedade com Fariña e os dissidentes cubanos, destacando-se no empenho o escritor Mario Vargas Llosa que, dando mostras da sua ignominiosa capitulação ideológica, exalta tais “dissidentes” como verdadeiros heróis do nosso tempo”. Claro, da greve de fome dos 31 mapuches não diz uma palavra. Esses não são heróis, mas índios turrões, que merecem apodrecer na cadeia e enfrentar um duplo julgamento, civil e militar. Imagine-se o que Mario diria se algo semelhante acontecesse em Cuba, Venezuela, Bolívia ou Equador! Ele rasgaria as vestes, elevaria a voz aos céus, deploraria este ataque ao “estado de direito”, convocaria a imprensa internacional e todos os intelectuais financiados pelo império para divulgar o assunto, os líderes do “mundo livre” para sancionar os países cujos infames governantes cometem tamanhas barbaridades. Mas, para ganhar o primeiro plano dos grandes meios de comunicação privados, que controlam de maneira quase absoluta a informação, a nível mundial, não basta uma greve de fome. É preciso fazê-la no lugar certo – Cuba, em primeiro lugar; ou na Venezuela, Bolívia ou Equador; mesmo na Nicarágua. Em outro lugar, não é notícia. É o que chamam “liberdade de imprensa”.

Boletim da Telesur de 3 de agosto de 2010

Tradução Eduardo Marinho

Foto: www.observatorio.cl/


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