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Protestos contra aumento da passagem: o fim do consenso

quinta-feira 13 de junho de 2013, por Deborah Moreira,

Na grande teia planetária, o movimento social está online, a população curtiu, mas a grande mídia cutuca para chamar atenção sobre o post com atos de vandalismo. A cada protesto, cresce o número de manifestantes nas ruas contra o aumento da passagem. A revolução não está no feicebuque! Mas há uma guerra na rede.

É isso! Ninguém aguenta mais pagar tanto por tão pouco. Neste terceiro dia de protestos contra o aumento da passagem de ônibus (metrô e trem), ocorrido na terça-feira (11), teve de tudo um pouco: de prisão de jornalista cumprindo sua função até ataque de porta-voz da opinião pública mais conservadora do país contra militante de esquerda e cirandeiro.

Das cerca de 20 pessoas detidas durante o último protesto, na terça, três são jornalistas. Dois foram liberados. E o terceiro, que trabalha no Portal Aprendiz, o jornalista Pedro Ribeiro Nogueira, 27 anos, foi espancado e segue preso juntamente com 12 manifestantes que, ao exercerem o direito à livre manifestação, também foram levados sob a acusação de formação de quadrilha e outros absurdos. Em um vídeo, divulgado amplamente nas redes sociais, jovens correm da tropa de choque pelas ruas do centro da capital paulista e, logo em seguida, um grupo de policiais começa a bater no repórter.

Na mesma medida que cresce a mobilização, se intensifica a repressão policial e às críticas na grande mídia hegemônica. Bombas de efeito moral agora são arremessadas nas páginas dos jornais, em edições impressas com requintes editoriais, estimulando o maniqueísmo.


Alquimídia é vítima de ataque

Na internet, a mesma linha conservadora é seguida pelos portais de notícia dos grandes grupos de comunicação. Não acredito que revoluções ainda em curso, como a Primavera Árabe, se deram nas redes sociais, embora reconheça sua importância como ferramenta de organização e mobilização. Mas, certamente é onde se travam grandes combates. Alguns covardes. Na rede tem de peixe a tubarão. O blog do colunista Reinaldo Azevedo, que se criou a partir da crítica desmedida contra movimentos mais progressistas, desta vez mirou em um de nós. Com o post "Entidade que é dona de domínio do ’Movimento Passe Livre’ recebe dinheiro da Petrobras e do Ministério da Cultura e tem incentivo da Lei Rouanet" este senhor tem o cuidado de explicar ao leitor como ele descobre que a Alquimídia, organização dirigida pelo cirandeiro Thiago Skárnio, é quem detém o domínio do Movimento Passe Livre, que lidera as manifestações em São Paulo e em outras cidades. Mas, não se preocupou em exercer a função básica do jornalismo, que é a de investigar e checar antes de publicar uma informação.

Em nota, Skárnio responde à critica desmedida feita pelo colunista e registra sua perplexidade diante da afirmação. O fato é desmentido em nota (íntegra abaixo).

Ainda na guerra cibernética, o grupo hacker Anonymous invadiu na madrugada de quinta-feira (13) o site da Secretaria Estadual de São Paulo e postou uma mensagem de apoio ao protesto contra o preço das passagens de ônibus, trem e metrô.

“Exigimos a redução da tarifa! Os supostos representantes devem ouvir a vontade do povo. Basta de políticos inócuos! Estamos acordados! Seus dias de fartura estão contados!”, sentenciou o grupo na página inicial do site, ainda fora do ar durante boa parte da madrugada.

Contra o consenso que emburrece e limita

Para entender o que está acontecendo com os paulistanos e demais brasileiros que tomam às ruas em suas respectivas cidades por um transporte coletivo de mais qualidade, por mais investimento público, ao invés de políticas desastrosas que incentivam o individualismo apoiado pela indústria automobilística, é preciso buscar explicação na raíz: a crise mundial do capital. O aprofundamento da democracia só se dará com a superação do atual sistema econômico.

As democracias contemporâneas têm suas limitações que imobilizam os movimentos sociais a partir do excesso de consensos. Felizmente, nem todos se submetem. Não que não acredite na unidade política, quando ela se faz necessária na busca por pontos comuns. Mas, a independência se faz necessária para fazer girar o moinho das demandas sociais reprimidas.

Não há recursos para todos, alardeia o capital. Dar visibilidade a uma bandeira social sempre foi e ainda é um importante instrumento de pressão para incluir os excluídos. A opinião pública, subsidiada por uma mídia dirigida, continuará cumprindo seu papel de deturpar os papéis com o objetivo de manter o poder concentrado nas mãos de poucos.

"Por favor, alguém poderia avisar a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial? Petistas de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu... Que saudade da época em que esse tipo de coisa era resolvida com borrachada nas costas dos medras". A fala é de um promotor público, da 5ª Vara do Júri de São Paulo, que também é professor do curso de Direito, na Universidade Mackenzie. Ele postou esse comentário no Facebook enquanto estava em seu carro, preso no trânsito causado pelo protesto. Felizmente, de acordo com a Folha Online, Rogério Leão Zagallo será desligado da universidade.

Acompanhar as reações dos movimentos sociais contemporâneos frente à problemática do efeito da globalização (dos mercados, da pobreza, dos consensos de Whashington e por aí vai) pode ser uma opção na busca por uma saída das crises econômicas sistêmicas, que deixam milhões de desempreagos, à míngua. A ausência desses protestos são uma pista de que há algo de errado na engrenagem política e social. Quando não há manifestação e passividade em excesso, pode ter certeza que algo vai mal na condução da democracia.

Expostos por um fenômeno que vem ocupando e se reapropriando de espaços públicos, é preciso incluir essa massa de indignados na soma coletiva da representatividade política como uma alternativa às propostas totalizantes e de dominação hegemônica impostas pelos mercados que sufocam o Estado. Ao invés da lógica do sistema financeiro deve haver sempre a busca por uma democracia participativa.

No Brasil, o contexto é bem diferente do de países como a Turquia, que ferve há duas semanas com o OccupyGeizePark. Mas, de alguma forma, os ares que inspiram os jovens de Istambul sopraram também por aqui. Os atos, que crescem a cada dia, significam, em certa medida, O fim da produção de consensos. Pelo menos E, por outro lado, significaria o início exatamente do quê?

Nota da Alquimídia:

A Alquimídia.org possui mais de 10 anos de comprovada e registrada atuação no Terceiro Setor, fornecendo vários tipos de apoio tanto à sociedade civil organizada quanto aos movimentos sociais, principalmente em ações de comunicação e cultura digital. Nosso trabalho abrange desde a produção de documentários complexos até o registro de domínios na internet para coletivos não formalizados e de cultura popular e tradicional, ou seja, sem CNPJ. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Movimento Passe Livre (MPL) anos atrás, quando integrantes do grupo nos contactaram para registrar o domínio ‘mpl.org.br’, um movimento que milita por um transporte público gratuito e de qualidade para a toda a população.

Para manter estas e outras atividades sócio-culturais, a Alquimídia.org, assim como outras associações, desenvolve projetos para fundos e leis de incentivo, projetos estes com escopo definido, rígida aplicação dos recursos e detalhada prestação de contas.

A diretoria da Alquimídia.org registra sua perplexidade diante da atitude do colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo, que no post publicado às 19 horas do dia 11/06/2013 - Entidade que é dona de domínio do “Movimento Passe Livre” recebe dinheiro da Petrobras e do Ministério da Cultura e tem incentivo da Lei Rouanet” -, relacionou de forma irresponsável e caluniosa o registro de um domínio ao apoio de empresas e governos via projetos aprovados em editais públicos.

É importante destacar que as citações do colunista não são resultado de uma “investigação”, pois tudo o que Reinaldo Azevedo faz é reproduzir informações de conhecimento público e de fácil acesso, todas disponibilizadas no site da Alquimidia.org. Em nenhum momento o colunista entrou em contato com a Alquimídia antes de publicá-las, iniciativa essencial quando se busca, realmente, informar. O único tratamento que dispensou aos dados que nosso site fornece foi comentá-los à luz de teses excêntricas e resultantes de um pré-conceito, relacionado tanto a partidos políticos quanto a iniciativas da sociedade civil organizada.

Como Alquimidia.org, associação totalmente visível e não camuflada sob a assinatura de seu diretor, Thiago Skárnio, como insinua o colunista, lamentamos profundamente o ocorrido, que consideramos um total descomprometimento com verdade e descompasso com a cultura contemporanea. Por isso, estamos entrando em contato com a Editora Abril S/A para a publicação do direito de resposta, e analisando a adoção de outras medidas judiciais, caso sejam necessárias.

(imagem de capa: Agência Ninja)