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Que as forças vivas e sagradas da nossa ancestralidade acolham o nosso guerreiro Abdias no Orum

quinta-feira 26 de maio de 2011, por Gal Souza,

Nós aqui estamos, Zumbi, para jurar o nosso compromisso de restaurar a tua pátria, retomar o chão da liberdade que tu plantaste nesta terra que é nossa. Esta chão não será mais daqueles latifundiários que te apunhalaram pelas costas e pelo peito, aqueles latifundiários que te roubaram a vida a ti e a teu povo;

Uma homenagem da CONEN – Coordenação Nacional das Entidades Negras

JURAMENTO A ZUMBI(*)

“Peço humildemente permissão à Iyalorixá Mãe Hilda para invocar Olorum, senhor de todas as coisas, senhor da vida e da morte, senhor dos mortos e dos vivos.

Invoco Oxum, a doadora do amor. Rogo permissão a Oxum e a Exu para me ajoelhar diante da terra da liberdade da minha raça, e beijar este solo sagrado.

Beijo a terra da minha história e digo: “Aqui estou, Zumbi; aqui vim Zumbi, para me desculpar, para te dizer: Chegamos tarde, mas chegamos. Demoramos muito a vir resgatar o chão da nossa história, recuperar o chão da nossa existência livre. Perdão, rei Zumbi, por termos demorado tanto!”

Ao pé desse monumento, celebrado pelo amor dos seus herdeiros, pelo amor dos seus descendentes, depositamos nossas lágrimas e nossas esperanças. Viemos tarde, Zumbi, mas viemos definitivamente. Para marchar sempre para frente, levando o teu facho de luta, sonhando o teu sonho de liberdade. Até que esta raça grandiosa, este povo belo, o mais belo do mundo, o meu povo, o povo negro, resgate este país que ele construiu, o chão de Palmares, encharcado pelo teu suor, pelo sangue teu e dos nossos ancestrais. Chão sacralizado pelo sacrifício, pelo holocausto de toda uma raça.

Nós aqui estamos, Zumbi, para jurar o nosso compromisso de restaurar a tua pátria, retomar o chão da liberdade que tu plantaste nesta terra que é nossa. Esta chão não será mais daqueles latifundiários que te apunhalaram pelas costas e pelo peito, aqueles latifundiários que te roubaram a vida a ti e a teu povo; que ainda estão roubando o suor do teu povo, calejado nos porões infames desta civilização industrial e capitalista. Este suor e este sangue – patrimônio africano que tu plantaste, nós os recolhemos, Zumbi. Estamos aqui, de joelhos, unidos de braços erguidos e punhos cerrados para dizer não à opressão. Dizer não ao racismo. Não à discriminação e à exploração”.

Abdias do Nascimento
Uma referência de luta para muitas gerações, no Brasil e no mundo!

No final dos anos de 1970, a luta política organizada contra o racismo ampliou-se com a articulação nacional do Movimento Negro.

É nesse período que a juventude negra que articula esse movimento passa a conhecer uma de suas mais fortes influências, o intelectual militante Abdias do Nascimento.

Abdias do Nascimento contribui para a organização e participa do ato público de fundação do Movimento Unificado contra a Discriminação Racial, em julho de 1978, nas escadarias do Teatro Municipal, na cidade de São Paulo.

É o fundador, em 1981, do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, o IPEAFRO, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. No ano seguinte, em 1982, organiza nessa Universidade o III Congresso de Cultura Negra das Américas.

Pela sua forte personalidade política, pela radicalidade de seus discursos, pela sua extensa trajetória de luta contra o racismo no Brasil e em
outros países, pela contribuição teórica expressa em seus muitos livros e
artigos, escritos em vários idiomas, tornou-se uma referência para muitas gerações da militância negra, no Brasil e no mundo.

Irmão e companheiro Abdias do Nascimento, tenha a certeza de que militância negra da CONEN – Coordenação Nacional das Entidades Negras e de todas as organizações que hoje constituem o Movimento Negro brasileiro, daremos continuidade a sua luta contra o racismo e todas as formas de exclusão, opressão e dominação. Esse é o seu principal legado.

Que as forças vivas e sagradas da nossa ancestralidade acolham o nosso guerreiro Abdias no Orum.

(*) Trecho do Improviso proferido por Abdias do Nascimento por ocasião das solenidades cívico-religiosas na Serra da Barriga, inaugurando um marco de tributo a Zumbi, comemorativo do dia 20 de novembro – aniversário da sua morte – Dia Nacional da Consciência Negra, programada pelo Memorial Zumbi, em 1983, em União dos Palmares, Alagoas, Brasil.


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