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Rio Tietê: um insistente subversivo

segunda-feira 22 de setembro de 2014, por Sucena Shkrada Resk,

Hoje (22/09) é dia dele, de um dos rios mais ‘subversivos’ e com usos múltiplos brasileiros. Quem vê essa expressão, pode estranhar, mas já vou explicar. O adjetivo se aplica perfeitamente ao rio Tietê, que por aquelas condições que só a natureza explica, segue ao interior e não vai para o mar (apesar de estar distante 22 quilômetros de lá), contrariando o que geralmente acontece com os demais cursos d`água. A sua nascente fica no município de Salesópolis e percorre 1.100 quilômetros até chegar ao rio Paraná, cortando quase ao meio o estado paulista em seu traçado, até Itapura, na divisa com o Mato Grosso do Sul. E ele consegue se superar por causa da resiliência à ação do ser humano, que mudou este traçado, tirou as matas ciliares que o protegiam em vários trechos e que despeja diariamente resíduos e esgoto. Essa série de problemas no contexto da deficiência de políticas públicas de saneamento, em especial, na região metropolitana de São Paulo.

Segundo recente relatório da Fundação SOS Mata Atlântica, “O Retrato da Qualidade da Água e a evolução parcial dos indicadores de impacto do Projeto Tietê”, iniciado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, em 1992”, o trecho considerado “morto” do rio Tietê foi reduzido em 70,7%, em quatro anos. Agora está concentrado entre os municípios de Guarulhos e Pirapora do Bom Jesus, totalizando 71 quilômetros, nos quais, os índices ainda variam de ruim a péssimo. No ano de 1993, a extensão comprometida era de 530 km.
Segundo Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da ONG, a mudança ocorreu nos últimos quatro anos e foi monitorada por grupo de voluntários em 82 pontos (sendo 11 trechos novos), entre setembro de 2013 e setembro de 2014. Entre os pontos mais críticos (avaliados como péssimos), estão nos rios Caputera (Arujá), Cotia (Cotia) e Tietê, na altura da USP Leste. “Os pontos de qualidade boa ficam próximos a área protegidas”, destacou.
Os trechos que obtiveram categoria “boa” foram: do rio Tietê (Biritiba Mirim), Ribeirão Tanquinho (Botucatu), Ribeirão e córrego Cabreúva (no município de mesmo nome), córrego São José (Itu), rio Piray (Salto), rio Tietê (Salesópolis), rios Capivari e Embu-Guaçu (São Paulo) e Córrego Água Preta, no bairro da Pompeia, na capital.
A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (CETESB), divulgou em maio deste ano, que a qualidade das águas ainda são precárias em 11 dos 23 pontos de monitoramento em toda a extensão do rio, entre Suzano e Laranjal.
Para entender a dinâmica do Tietê, é preciso se ter em mente que esse curso d´água sofre a pressão antrópica há décadas, de cerca de 70 municípios. As suas águas recebem carga de afluentes de diferentes bacias hidrográficas: Alto Tietê (localização da Região Metropolitana de São Paulo); Piracicaba; Sorocaba/Médio Tietê; Tietê/Jacaré; Tietê/Batalha e Baixo Tietê. No trecho metropolitano, é que as condições mais precárias permanecem historicamente, desde a década de 20, por causa do despejo de esgotos domésticos e industriais. Uma questão de saneamento ainda a ser superada no estado mais rico do país.
De acordo com a Sabesp, o Projeto Tietê deverá concluir a terceira fase, até 2015. Deverão ser construídos até o término deste período, 580 quilômetros de coletores e receptores, além de 1,2 mil quilômetros de redes coletoras e 200 mil ligações domiciliares. A expectativa, de acordo com a empresa é que haja um total de 87% de esgoto coletado e 84% destes sejam tratados, numa dimensão populacional de 20,1 milhões de habitantes. A universalização é prevista para o ano de 2018.
Ao mesmo tempo, parte deste rio com a união com o Paraná forma o segundo corredor mais extenso de hidrovias no país, com 1,7 mil quilômetros navegáveis (sendo 573 quilômetros no Tietê, a partir de Conchas), que ligam Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás. No trecho paulista, há seis barragens, todas com eclusas, possibilitando a navegação (Três Irmãos, Nova Avanhandava, Promissão, Ibitinga, Bariri, e Barra Bonita). A ligação com o Rio Paraná acontece por meio do canal Pereira Barreto, e com o aproveitamento da barragem de Ilha Solteira.
No ano de 2013, foram transportados cerca de 6 milhões de toneladas por toda a extensão da via. O quadro, neste ano, no entanto, não é tão animador por causa da forte estiagem. A situação também reflete no potencial hidrelétrico. O nível do reservatório da Usina Hidrelétrica de Três Irmãos chegou a ficar com o volume mais baixo no Brasil. As condições em Ilha Solteira também não são das melhores. O Tietê subversivo, neste caso, está com dificuldade de permanecer tanto tempo resiliente.
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