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SP: Estamos esperando o caos?

terça-feira 20 de janeiro de 2015, por Terezinha Vicente ,

A água acabando, a luz faltando, a truculência militar tentando implodir as manifestações de rua, a mídia espetacularizando. Não é hora de a população sair às ruas por bens fundamentais, unificada pelos movimentos sociais?

A megalópole paulistana está para se tornar o melhor exemplo de como será a destruição final do planeta Terra, engendrada por meio de um sistema político-econômico ganancioso e fascista! Vivemos as conseqüências do consumismo e da obsolescência a que a maioria aderiu sem refletir, alienada pela vida dura e pela propaganda de massa.

Aqui secaram vários rios para construir a enorme cidade, “a locomotiva que puxa a nação”. Construíram-se tanto edifícios e espaços de concreto eliminando árvores e matas, quanto a ilusão do “subir na vida”, do “dar certo”, do conseguir ter e ter, do ser feliz submetendo-se ao padrão cultural hegemônico. Para cá vieram – e continuam a vir – milhões de migrantes e imigrantes, pois esta terra recebe quem quer trabalhar e trabalhar, quem vem insuflado pela propaganda capitalista de que se assim fizer, também “vencerá”. Assim, tornou-se esta uma região brasileira onde o pensamento de direita viceja !

Aqui está ACABANDO A ÁGUA!

Aqui continuam a secar os rios e as fontes para a privatização de tudo. Na megalópole as construções não param – embora estejam esgotados todos os espaços públicos e o atendimento nos serviços essenciais - e vemos por muitas ruas escorrer a água limpa do lençol freático que ainda resta, drenado pelas empreiteiras para manter os enormes edifícios em pé . No interior, o agronegócio domina – ocupando o lugar do plantio de comida saudável - e seca as fontes que alimentam os sistemas de fornecimento de água para as pessoas, com suas plantações de eucaliptos, sustentáculos de uma indústria dirigida à pequena parcela da população e que utiliza no seu processo produtivo mais água ainda.

Em São Paulo em breve NÃO HAVERÁ ÁGUA!

Aqui, para a grande maioria que trabalha sem parar e é a base da riqueza que a cidade ostenta, secaram também os rios e as fontes da saúde, da educação, da religião progressista, da utopia igualitária e justa, da felicidade. A elite pode comprar água, pode desperdiçar nas suas piscinas, nas suas produções de dinheiro, na sua vida asséptica. Não havendo água, a energia também começa a faltar, além dos desastres ecológicos que se sucedem e se alimentam continuamente. A poluição aumentará e o aquecimento global, pior nos espaços sem verde, já está sendo notado por todos no inferno que temos vivido nas últimas semanas.

Pensar voltou a ser perigoso

Vivemos num estado dirigido pela direita desde a ditadura! Lá se vão cinqüenta anos e a convivência da elite econômica daqui com os pobres que a sustentam continua baseada na mesma opressão, discriminatória, machista, racista, homofóbica e militarizada! Enfrentando esse Estado armado até os dentes estão alguns movimentos sociais que não param de lutar! Se na capital por três vezes tentamos mudar alguma coisa pelo voto, com xs prefeitxs ditos de esquerda que elegemos, se alguma coisa conquistamos, logo a seguir vieram os representantes da direita para destruir as mudanças. Pena que nem esses governos eleitos por nós estão dando conta de resistir e muito menos enfrentar o poder de cartéis e corporações disto e daquilo, do transporte à grande mídia. Pena estarem consciências de outrora amarradas a seus empregos burocráticos bem remunerados. O institucional é facilmente manobrável pelo dinheiro.


Temos visto o excesso de truculência da polícia militarizada do nosso estado, como resposta à demanda da juventude mobilizada em torno do passe livre. Esse é o único diálogo com o movimento que chega dos poderes públicos; vem da Secretaria de Segurança, como se todos os cidadãos que pensam e reivindicam a cidade em que vivem, fossem terroristas perigosos. A armadura com que tem se apresentado a polícia militar é digna disso, notem a semelhança com o aparato da polícia francesa visto na mídia nas últimas semanas. E não há Ministério da Justiça para dar um basta, Prefeitura para abrir um diálogo e ousar transformar de verdade a cultura política desta metrópole. A mídia ignora ou mostra apenas o tumulto e a ação da polícia, naturalizando o belicismo e colocando medo em quem tem vontade de engrossar os protestos. Enquanto isso, o governador analisa com a emoção de um poste a situação, e a imprensa repercute a “restrição hídrica”, como se todos acreditassem que São Pedro vai salvar a situação. Além de colocar a culpa na população que gasta água, claro, que precisa de água para viver. As instituições públicas do nosso estado republicano mostram-se completamente submetidas e inoperantes.

Unidade pelos bens comuns

Na minha casa não se desperdiça água ou energia, por hábito. Agora menos ainda. Há muitos meses, a decoração incorporou baldes na cozinha, no banheiro, na área de serviço – a água de lavar a roupa, de lavar a verdura ou enxaguar a louça vai toda para a descarga do banheiro e lavagem de chão, a água de enxaguar os copos e pratos serve para desengordurar as panelas. A descarga só é dada quando se faz necessário, o banho aqui sempre foi curto. A minha filha até ironizou um dia o cartaz distribuído pela Sabesp para ser divulgado nos edifícios, e que estava no elevador do meu... “mãe, isso não é o que a gente tem que fazer sempre??!!” E a classe média, que já compra água para beber? Vai comprar prá tomar banho, cozinhar? Aquela fila de mulheres no banheiro do cinema, a maioria para fazer aquele xixi básico antes ou depois do filme e, a cada xixi uma descarga, uma sucessão de descargas e tanta água desperdiçada!!! Quando questiono e proponho que só se dê a descarga depois de alguns xixis, apenas poucas compreendem e até concordam. Muitas me olham como se eu fosse um ser alienígena!! Faltam debates e educação que uma mídia democrática poderia oferecer.


Já há bairros sem água, como vários têm ficado horas e horas sem luz. A população pobre das periferias não sabe o que fazer, pois não tem dinheiro para comprar água; a população pobre já vive desde sempre sem direito ao seu quinhão dos bens comuns, terra, saúde, educação, alimentação segura, trabalho. A periferia já enfrenta os tiros e a violência diariamente, só falta mesmo morrer de sede. A água é o principal bem comum, essencial para a vida, nosso corpo e o planeta são compostos por água em maior parte. Tenho conversado com as pessoas na rua e elas parecem não querer pensar no assunto. Elas não sabem o que farão se acabar a água, ou então pensam em fugir. O direito à água, o direito ao ir e vir numa cidade, o direito à informação correta, à comunicação, é de todxs, é possível compartilhar.

Como vai ser quando a luta pelo direito de ir e vir se juntar com a luta pela água? Como o Estado vai conter as revoltas que logo começarão a surgir, porque a água está acabando?? Com essa violência que temos visto? Será que nossa humanidade vai chegar ao ponto de achar que é natural a seleção dos que merecem viver? Será que as nossas corporações midiáticas aproveitarão para editar espetaculares notícias para vender à mídia global? Por que estão calados a respeito os movimentos sociais? Onde estão as mulheres e suas organizações? Por que não unificar a luta de todas as pessoas, coletivos, partidos, movimentos que reivindicam simplesmente o direito aos bens comuns?