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Sobre: “Que Horas Ela Volta?”

quarta-feira 7 de outubro de 2015, por Joel Zito Araújo,

A pergunta que não quer calar é o que está acontecendo com o cinema autoral brasileiro que repete os filmes blockbusters em sua invisibilização do negro na sociedade brasileira.

Racismo ou preconceito de classe?Eu creio que ambos problemas são parte das piores chagas que o Brasil carrega desde a escravidão. A imigração massiva de trabalhadores europeus, desde o final do século XIX, e as militâncias comunista e anarquista que vieram juntos, não apagou o primeiro problema mas introduziu o segundo como explicação totalizante. Parece que Anna Muylaert vê igual a eles e diferente do que penso.

Antes de aprofundar essa minha observação crítica, sinto a obrigação de esclarecer que ADOREI E RECOMENDO o filme. Mais que isto, confesso que chorei no final (e olha que não sou um chorão habitual em salas de cinema). Mas este filme me pegou a partir do momento que resolvi relevar a quase ausência de personagens e atores negros na trama. Especialmente considerando que é um filme sobre a “persistência da escravidão” na relação entre patroas e empregadas domésticas, é chocante ver que até a segunda empregada é branquinha da silva. Onde estão a maioria de mulheres negras que sustentaram e sustentam suas famílias com este trabalho, como foi o caso de minha mãe. Não ignoro aqui os traços indígenas que Regina Casé carrega, nem mesmo a participação rápida e marcante de Luis Miranda, mas que não muda aquele universo de empregados brancos ou quase brancos. Os poucos negros nos cenários de favela também gritam na tela.

A pergunta que não quer calar é o que está acontecendo com o cinema autoral brasileiro que repete os filmes blockbusters em sua invisibilização do negro na sociedade brasileira.

Acabo de passar pela experiência de jurado no Festival de Cinema de Brasilia onde premiamos dois belos filmes, mas com problemas parecidos. Em um deles, “Para minha amada morta”, dirigido por um jovem e talentoso diretor baiano, radicado no Paraná, para minha surpresa, não escala nenhum negro nem mesmo como figurante no cenário dominante do filme que é a periferia de Curitiba e os seus adeptos das igrejas evangélicas. Sabemos o quanto essas igrejas radicais, que são abertas como se abrem empresas, tem como foco demonizar e conquistar os praticantes de cultos afros.

Alguém aqui poderia me explicar por quê gente bacana como a Anna Muylaert cai em uma coisa tão habitual e condenável do universo audiovisual brasileiro (publicidade, cinema e telenovela) praticando a invisibilidade de 53% da população brasileira?

https://www.youtube.com/watch?v=Dffs46VCJ_g