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Sobre os 50 anos do golpe militar

quinta-feira 3 de abril de 2014, por Bia Barbosa,

Só me dei conta do peso que estes 50 anos do golpe militar tiveram em mim quando deitei à noite e não consegui dormir.

Foto: Teatro em greve contra a censura. Rio de Janeiro, fevereiro de 1968/ CPDOCJB

Há dez anos, recém-chegada à editoria de direitos humanos da Carta Maior, eu cobri os 40 anos do golpe (o especial está aqui: http://www.cartamaior.com.br/?%2FEspecial%2FAnos-de-Chumbo%2F174). Naquela época lutávamos pela criação da Comissão da Verdade, pela abertura dos arquivos, pela responsabilização dos agentes do Estado que operaram a máquina de chumbo. Sim, avançamos um pouco, mas a passos ainda muito lentos diante de tamanha dívida histórica.

Foi triste, neste 1o de abril de 2014, ver uma faixa em elogio aos militares golpistas ser aberta no plenário da Câmara dos Deputados – exatamente no mesmo lugar onde, há uma semana, abrimos a nossa celebrando a aprovação do Marco Civil da Internet, que veio também para garantir liberdade de expressão nas redes. Mas foi bonito ver militantes e parlamentares erguendo cartazes com o rosto dos mortos e desaparecidos no mesmo plenário, e dando as costas à principal voz que defende a ditadura em nosso Parlamento.

Foi triste ler os editoriais dos jornais de maior circulação nacional justificando sua covarde e irresponsável opção de apoio ao golpe em 1964, como se a história pudesse ser apagada num piscar de olhos. Mas foi bonito ver a reportagem da TV Brasil, e tantos textos que circularam por aí (inclusive no blog do Intervozes: http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/apoio-a-ditadura-o-pedido-de-perdao-que-nunca-veio-dos-jornais-8985.html), lembrando que a escolha da mídia conservadora gerou consequências irreparáveis pro nosso país. E isso nós nos encarregaremos de lembrar sempre!

Foi triste ver conhecidos, ou amigos de amigos, em sua maioria jovens, defendendo o golpe. Mas foi bem bonito ver os escrachos da juventude do Levante Popular na casa dos torturadores impunes.

Com este misto de sensações, eu deitei para ouvir o especial “Canções da Resistência”, produzido e coordenado pelas queridas Bia Pasqualino e Juliana César Nunes para as rádios da EBC (ouçam aqui, é imperdível: https://soundcloud.com/radioagencianacional/can-es-da-resist-ncia-especial). E foi aí que o peso do dia caiu. Nos primeiros minutos de música e depoimentos, eu não consegui controlar o choro. E chorei durante o programa todo, ao ressignificar tantas canções e ao imaginar tantas cenas; ao ouvir as vozes que eu passei a conhecer depois de muitas vezes entrevistá-las sobre a transição inacabada. Amelinha, Rose, Criméia, Ivan...

Chorei de tristeza pelos que se foram, pelos que apanharam, por suas famílias que ainda não tiveram seu direito à memória, à verdade e à justiça garantidos. Chorei de raiva por nossos governantes ainda não terem tido coragem de dar outro rumo a esta história. Chorei de medo, por saber que este passado tão recente segue vivo nas estruturas e instituições do meu país, ceifando vidas a cada dia. Chorei de cansaço, porque a luta contra tudo isso, perpassada de poucas vitórias e muitas barbáries, também é muito dolorida de ser lutada.

E, chorando, fiquei pensando na minha relação, tão sentimentalmente intensa, com este período. Não fui diretamente atingida pelo golpe. Não perdemos ninguém próximo da família. Minha mãe bem que tentou ir ao Congresso de Ibiúna, mas meu avô a trancou em casa. Meu pai cresceu ouvindo o golpe ser chamado de “revolução”. Sim, meu avô era militar. Trabalhou no SNI. Me pergunto quantos corpos e almas seu trabalho ajudou a marcar. E choro por isso. Foi um avô querido, que amou incondicionalmente a única neta. Mas de quem ouvi, algumas vezes, que “esse papo de tortura nas cadeias era conversa de vagabundo”, que “pior mesmo seria a ditadura dos comunistas”. Eu, cheia de coragem pra tantas coisas, nunca consegui enfrentá-lo de fato. Meu avô morreu há alguns anos sem que eu tenha lhe perguntado se, ao menos, ele não se arrependia daquilo. E hoje descobri que isso dói muito.

Minha trajetória deixou muito claro de que lado dessa história eu teria que estar. Hoje, estou cercada de pessoas que perderam familiares, que sofreram diretamente na pele a força da bota e da farda dos militares, que seguirão marcadas pra sempre. E que, por isso, não podem deixar de lutar. Vou com eles, com elas. Pela liberdade, pela igualdade, pela justiça. Como diz o título de uma das músicas do “Canções da Resistência”, de Francisco Mário, venceremos!