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Termina em Túnis o Fórum Social Mundial mais difícil da sua história

segunda-feira 30 de março de 2015, por Sergio Ferrari, E-Changer,

Marcha de encerramento do ‪Fórum Social Mundial‬ 2015 foi marcada pela ausência de movimentos sociais de peso da Tunísia. No calendário de luta, está marcada ação internacional em 18 de abril contra os tratados de livre comercio. Também foi convocada uma semana de ações mundiais, entre 17 e 25 de outubro.

Começou nas ruas da capital tunisiana com uma substanciosa mobilização cidadã, na última terça-feira, 24 de março, e terminou neste sábado, 28, com outra manifestação. Desta vez em solidariedade à Palestina, menos concorrida que a do início e significativamente menos nutrida do que a de conclusão do Fórum Social Mundial (FSM) 2013.

Com a ausência quase total de grandes atores dos dois fóruns tunisianos: a União Geral de Trabalhadores de Túnis (UGTT), os Diplomados Desempregados e, inclusive, as Mulheres Democráticas. E com menos presença de organizações internacionais de primeiro nível, como a Via Campesina. A presença ativa da Marcha Mundial de Mulheres e da rede do Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM), juntamente com alguns militantes de um punhado de sindicatos europeus foi a exceção.

A complexa conjuntura política desde os atentados do Museu Bardo, em 18 de março, aporta uma chave para a explicação. O país não terminou de ser sacudido pelo choque e as prioridades de mobilização voltam-se para dentro. No domingo (29), milhares de cidadãos – incluída a UGTT – saíram às ruas convocados pelo governo e pelos principais partidos políticos tunisianos juntamente com várias dezenas de convidados internacionais especiais para reforçar a frágil unidade nacional sob as bandeiras da luta contra o terrorismo.

Convergência na ação

Até um par de horas antes da manifestação de encerramento, o FSM protagonizou, na Universidade El Manar, o que é a sua essência: o debate, o intercâmbio e o consenso sobre uma agenda comum para as principais mobilizações da sociedade civil internacional.

Desde a quinta-feira (26), à tarde, cerca de 30 Assembleias de Convergência temáticas buscaram sistematizar conclusões. A do Clima, com vistas à Cúpula de Paris das Nações Unidas, em dezembro próximo, agendou ações e mobilizações que serão realizadas nos diversos continentes durante todo o ano para culminar, na capital francesa, em uma espécie de Contracúpula dos Povos, que incluirá ações pacíficas de desobediência cidadã.

A da Água e da Terra elaborou uma Declaração detalhada que reitera que "a água, a terra e as sementes são bens públicos e não mercadorias”, dando continuidade a um processo de reflexão, que nasceu no FSM de Dakar, em 2011.

A proposta da Assembleia dos Meios Livres insiste em reforçar a informação e a comunicação a serviço dos movimentos sociais.

Foto: Mídia Ninja

Uma extensa programação com eventos paralelos continuou sendo a tônica no FSM 2015.

Enquanto isso, o Fórum Parlamentar Mundial, que se reuniu na quinta-feira (26), na mesma universidade e que funcionou como um espaço de convergência de legisladores progressistas emitiu cinco moções sobre temas da atualidade: a construção da paz; a migração; a dívida injusta; as multinacionais, assim como a renda mínima cidadã.

O futuro do FSM

Voltou a aparecer como tema transversal durante todo o FSM. E centraliza a agenda do Conselho Internacional do Fórum em sua reunião avaliativa de domingo (29) e segunda-feira (30). O futuro do FSM animou numerosos espaços de reflexão em Túnis e foi o tema central de uma das assembleias de síntese do sábado (28), pela manhã, convocando una boa centena de participantes.

O que está em jogo não é só o lugar de realização do próximo Fórum Social Mundial, mas também o momento da sua realização; a metodologia de funcionamento; a presença e visibilidade do mesmo no plano midiático internacional e, inclusive, o papel do atual Conselho Internacional, que atua como "instância facilitadora”. Em síntese, todo o Fórum se abre para o debate.

"O FSM é uma nova invenção política. Expressa outra forma de conceber e fazer a política…Tem apenas 15 anos de existência e as mudanças exigem tempo”, sintetizou o dirigente brasileiro Chico Whitaker, um dos co-fundadores e pessoa de referência desse espaço altermundialista.

Foto: Simone Freire

Whitaker não economizou críticas, que dada sua participação nessa instância tem o sentido de autocrítica: "o Conselho Internacional está totalmente perdido quanto às propostas. Já faz algum tempo propusemos a eutanásia desse elefante branco, para buscar uma nova fórmula. Até agora, não conseguimos. Houve gente que, assumindo a velha forma de fazer política, se integrou a esta instância crendo que havia uma quota de poder a ser disputada. Mas não é assim. O FSM não tem uma direção. Devemos recriar métodos inovadores de coordenação e facilitação”.

O Prêmio Nobel Alternativo 2006 reiterou duas propostas para os próximos meses: voltar a realizar o FSM em paralelo ao Fórum Econômico de Davos, "para recuperar a visibilidade perdida. Para voltar a existir internacionalmente”. E convocar um seminário de reflexão em 2016, em Porto Alegre, Brasil, "para comemorar os 15 anos de existência do Fórum, demonstrando que o processo continua e para refletir a fundo sobre seu futuro. Retomando todas as novas ideias que circulam”.

Próximo FSM

Participantes divergem sobre o formato e a localização do próximo FSM. Proposta que, na prática, contradiz a iniciativa impulsionada por organizações canadenses de realizar a próxima edição em meados de 2016, em Montreal. "Hoje, não existe mais um Norte e um Sul. Devemos globalizar as lutas. O Canadá e seus movimentos sociais necessitam ser reforçados”, assinala Rafael Canet, jovem promotor do Coletivo de Comitês Pró-FSM, em Montreal, em 2016. "Devemos superar o conceito tradicional de Norte-Sul. Há mobilizações e resistências por igual nos dois hemisférios. Necessitamos de inovação e energia para dinamizar esse processo. Buscar novas formas de relacionar a arte, a criatividade e o compromisso político. Integrando metodologias mais abertas para empurrar para frente o FSM”, ressalta.

O FSM abre portas novas e fecha velhas janelas conceituais. Não há fórmulas nem receitas à vista. Mas o questionamento interno aparece como sinônimo de vitalidade. Concluindo essa segunda edição tunisiana. A mais complexa dos 10 Fóruns centralizados realizados até agora nos últimos 15 anos. Por incertezas internas; por problemas logísticos dos organizadores locais – maiores que os dos anos anteriores – e pela realidade política de Túnis. Nunca antes uma edição do FSM esteve tão ameaçada como a atual.

Assembleia dos Movimentos Sociais

A Carta de Porto Alegre desestima que o Fórum Social Mundial publique uma declaração final, ainda que não impede que atores importantes divulguem seus próprios pronunciamentos. Desde a primeira edição, a Assembleia dos Movimentos Sociais elabora sua própria declaração. Dinâmica repetida uma vez mais em Túnis 2015. Os pontos centrais expressam a continuidade da luta contra as transnacionais e o sistema financeiro, convocando para o próximo dia 18 de abril uma jornada de ação internacional contra os tratados de livre comercio. O compromisso pela justiça climática e a soberania alimentar, estabelecendo 2015 como ano da mobilização pela justiça climática, culminando com uma grande mobilização cidadã, em dezembro, em Paris, na França, à margem da COP21. Ademais, denuncia a violência contra as mulheres, chamando a apoiar a 4ª Marcha Mundial de Mulheres, que começou no dia 8 de março e será concluída em outubro de 2015.

A Declaração expressa seu compromisso pela paz, contra a guerra, o colonialismo, a ocupação e militarização dos territórios, exigindo a reparação dos povos vítimas do colonialismo. Pronuncia-se pela democratização dos meios de comunicação e a construção de meios alternativos. Assim como convoca a multiplicar a resistência e a solidariedade. Chamando para uma semana de ações mundiais contra o sistema, entre 17 e 25 de outubro próximo.

Foto da capa: Sergio Ferrari