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Um dia “normal” no Rio de Janeiro em meio à RIO+20

quarta-feira 20 de junho de 2012, por Terezinha Vicente ,

A vida cotidiana, prestando um pouco de atenção, mostra como naturalizamos regras e valores prejudiciais à vida sustentável. Mas @s poderos@s que estão decidindo pela humanidade vivem longe da vida real e sua boa vida é um compromisso com as grandes corporações capitalistas...

Uma crônica ilustrada...

Hoje é o dia em que começam as definições lá na Rio+20, mas todos já sabemos que o documento preparado para que os chefes de Estado batam o martelo é ridículo. Aqui pela Cúpula, que promove hoje a maior Marcha deste evento, chamam as resoluções da ONU de Rio—20 E RIO 171, que está parecendo o “codinome” mais adequado.

Enquanto muda-se o trânsito para a passagem das comitivas presidenciais, inúmeras e enormes, para os hotéis de luxo do Rio de Janeiro, a mídia condena as manifestações populares, prá variar, de estragar o trânsito e agora, acrescentam, de provocar maior emissão de gases estufa, não é o incentivo ao consumo de automóveis e ao transporte individual, aliás a tudo cada vez mais individual! Impactos dos protestos dividem ambientalistas diz a mídia, mas não explica os motivos e razões dos manifestantes.

É lamentável que, uma vez mais, os dogmas religiosos consigam impor aos Estados, tal qual as corporações transnacionais, a retirada dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres das questões fundamentais para a sustentabilidade humana! Realmente, acho que essas pessoas nasceram de chocadeiras e nada entendem é de VIDA!

Enquanto as comitivas dos países da Europa em crise ocupam as melhores suítes dos hotéis mais caros do Rio de Janeiro, “temos um bilhão de pessoas que passam fome, destas 180 milhões são crianças, e destas entre 10 e 11 milhões morrem por ano de inanição ou de não acesso a uma coisa tão prosaica como água limpa, ou seja, 30 mil por dia, dez torres gêmeas em termos de mortes por dia. Morrem no silêncio da pobreza, não rendem o mesmo espetáculo para a mídia. Não estamos matando, deixamos morrer”, como diz o professor Ladislau Dowbor, em seu “Roteiro” para a Rio+20.

E os responsáveis pela segurança dos governos locais reclamando contra as manifestações que não são avisadas antecipadamente, e a mídia repercutindo isso, insuflando como sempre a divisão entre nós, os povos. E a classe média acompanhando, reclamando, reclamando... Ora, ocupar as ruas é a única forma de fazer chegar a boa parte da população as nossas causas, a denúncia da mercantilização e utilização das pessoas e dos bens comuns, a nossa análise da realidade que ela nunca verá na televisão. Assim, massacrado por uma mídia e uma educação propagandeadoras do inútil e excessivo consumo dos bens do capital, o povo desconhece a existência de outras coisas, muita diversidade, outros valores, possibilidades.

A mídia monopolizada só valoriza o consumo, e vende para tod@s, por alto preço, os bens comuns que são de tod@s, expropriados, financeirizados, envenenados e envenenadores, mas com a promessa de muita felicidade por ter "tanta" coisa! O povo pobre continua sendo educado para temer a Deus e a natureza, idolatrar políticos que “ajudam”, ser obediente às leis, ser muito trabalhador e, principalmente, saber o seu lugar.

Vou contar um ocorrido que presenciei e registrei ontem, no ótimo bairro da zona sul onde me encontro hospedada solidariamente na casa de amigos, que imagino seja comum acontecer, mas que para mim, neste momento, foi emblemático, por envolver crianças, a educação pública, o futuro.

Educando para a submissão

Depois de quase uma semana nesta cidade maravilhosa, e tendo o mar perto de mim, resolvi tomar a benção de Iemanjá, já que a manhã chegara bastante ensolarada. Quando voltava da caminhada na praia, percebi alguns ônibus estacionando, de onde desciam dezenas de escolares uniformizados, em algazarra. Claro, as professoras no controle e repressão aos mais afoitos. Lembrei-me da minha primeira escola e de que só fui conhecer o mar quando tinha 18 anos... E fui registrando e conversando com as crianças.

Vinham do CEOS, um Centro Educacional de São Gonçalo, e poucas vezes a maioria tem acesso aquela praia linda... O local da chegada, a placa de PERIGO me faz pensar na Rio+20, na contradição do passeio das crianças... na vontade que elas tinham de pular naquele mar, mas nem o tênis podiam tirar. Ordens das professoras...

"Não pode tirar o tênis", reprimia a coleguinha, "a professora que disse!", reproduzindo a ordem. Ir até as pedras também não podia, os que para lá correram logo viram as professoras atrás para impedir...

Não culpo as professoras, impõe-lhes responsabilidades muito acima da sua formação e valorização... Mas era visível, o passeio foi embora dali com gosto de quero mais. Será que daria muito trabalho tornar aquele passeio melhor para as crianças? Será que é melhor isso do que nada, nunca passear, como disse alguém do meu lado. Discordo.

Acho que apenas políticas compensatórias, paternais, como esse passeio à praia que não permite as crianças sentirem o gosto do mar nem da areia, apenas olhar para dizer que foram, destinam-se a justificar e perpetuar desigualdades tão grandes e, sobretudo, ensinar aos de baixo "onde é o seu lugar". A praia, as casas, as roupas, as comidas que os personagens das novelas e os artistas ostentam na tv, e que são "vendidos" nos intervalos comerciais (com o som mais elevado), apenas parecem direito de tod@s. Criança pobre, ou se acostuma com o fato de que bens comuns não são direito de tod@s, ou então vira drogada e/ou bandida.

No passeio, os alunos recalcitrantes eram obrigados a se enquadrar - "4º ano! 4º ano!!!", chamava a professora. Ora, é a idade de começar a questionar, de protestar, de desafiar a ordem injusta, de iniciar a construção da autonomia. Para isso, além de comida saudável, é necessário um bom reforço na auto-estima. Mas a educação no Brasil não sabe disso, a não ser nas escolas dos ricos, o que garante a perpetuação dos mesmos em seu lugar no mundo do conhecimento e do poder.

Talvez o passeio tenha continuado com as crianças degustando algo do que havia para comer naquela praia. Alimentos processados e oferecidos por corporações globais da indústria de alimentos, no caso um monopólio de produtos lácteos "popular" em todo o mundo. Hoje, li no jornal que o tal monopólio esteve ontem na Rio + 20 defendendo uma das principais bandeiras dos ambientalistas brasileiros, a água, em contraposição a produção de biocombustível! Mas será que eles contaram que são donos de várias fontes de água em nosso país?

Enquanto as crianças curtiam o "passeio", crianças pequenas frequentadoras da praia correram para a segurança de suas mães, cachorrinhos vestindo roupinha "da moda" eram treinados, a idosa passeava acompanhada de sua cuidadora. Direitos que todas as pessoas deveriam ter. Os idosos, depois de trabalharem tanto para o futuro, assim como as crianças, que são o próprio futuro, deveriam poder desfrutar de todas as formas de conhecimento e cultura.

Embora o mundo evolua, a ciência avance em conquistas, o desfrute do mundo continua muito desigual e injusto. E ainda por cima muito mal direcionado, para o envenamento e a destruição do planeta. A Rio+20, ao que parece, nada mudará, ou pior, reforçará a economia verde e justificará o capitalismo e a financeirização da natureza, chamando isso tudo de avanços de uma civilização democrática. O governo brasileiro comemora vitória na gestão do fechamento do documento. Se existe algum compromisso de fato com justiça social e ambiental, veremos...