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Os filhos da (nova) mãe

terça-feira 12 de fevereiro de 2013, por Rachel Moreno

Sim, hoje, podemos até optar por ser – ou não ser – mães. Mas, em o
sendo, que tipo de relação conseguimos manter com nossos filhos?
Pesquisa qualitativa feita no Rio Grande do Sul, em sete municípios,
com mães de diversas classes sociais, no nos permite traçar um quadro do contexto vivido pelos filhos desta nova geração de mães.

Durante décadas, cada mãe reproduzia o que tinha aprendido e vivido,
na educação de seus próprios filhos. Depois, as coisas mudaram e cada
geração, ao ter seus filhos, se viu ante a opção de reproduzir ou de
modificar a sua própria vivência.

A geração pós-guerra com certeza mudou e antecipou uma série de
vivências. Mas controlou os seus filhos.

Filhos controlados, e que viveram várias transformações em sua
adolescência e juventude (entre as quais, a revolução sexual), criaram
os seus filhos de uma forma mais livre e solta. E tivemos a geração sem-
limites.

Depois dela, vieram os yuppies, e assim vai indo, mudando até chegar aos
dias de hoje.

Sim, hoje avançamos em nossa trajetória e nosso espaço social, enquanto
mulheres.

Sim, ainda há diferenças, ainda há o teto de vidro que nos impede de subir
mais, ainda ganhamos menos mesmo com mais anos de estudo, ainda
acumulamos 90% do trabalho da segunda jornada, em casa.

Sim, hoje, podemos até optar por ser – ou não ser – mães. Mas, em o
sendo, que tipo de relação conseguimos manter com nossos filhos?

Pesquisa qualitativa feita no Rio Grande do Sul, em sete municípios,
com mães de diversas classes sociais, nos permite traçar um quadro do
contexto vivido pelos filhos desta nova geração de mães.

Nas classes mais altas (média, média-alta), as mães são mães e mulheres
modernas, que acumulam funções, como se fossem super-mulheres, sem
porém terem adquirido as suas super-condições e potência.

A sua ausência ou presença relativa em casa gera má consciência, por não
estar tão presente junto aos filho(s). E tendem então a compensar essa
ausência, através de dois mecanismos: levando presentes e atendendo
às demandas de consumo dos filhos, ao mesmo tempo em que tentam
tornar o tempo e convívio mais agradável, evitando impor demasiados
limites (e, imperceptivelmente, aquiescendo a todas as demandas).

Algumas renunciam à vida profissional por achar que devem estar mais
perto dos filhos. Mas, mais envergonhadas e fazedoras de múltiplas
tarefas, continuam utilizando o mesmo mecanismo de compensação.

Os filhos pertencem à geração comunicação/ redes sociais. Portanto
fogem ao controle, mesmo estando sob o olhar materno. A sua aspiração
então se traduz em conseguir tirá-los de frente ou moderar o seu uso do
computador. Ou, conformadas, naturalizar esta relação com declarações
do tipo “é uma geração que nasceu sabendo” ou “é a geração internet”,
“não tem como fugir disso”.

O medo que elas têm do computador vem duas vertentes:

Consequentemente, elas tentam seduzi-los com outras atividades. Mas,
nisso, os pais tendem a ser mais bem sucedidos, na medida em que as
atividades do horizonte doméstico, mais femininas, tendem a ser pouco
sedutoras.

Assim, tendem a sobrecarregá-los de atividades (curso de línguas,
natação etc.), onde ao menos eles estejam em local sabido e sob
cuidados. O conflito ou má-consciência surgem em caso nota ruim – será
que ele foi mal porque está tão sobrecarregado de atividades que não tem
tempo de estudar direito?

Resta-lhes, para controlar os filhos, o “não”, ou a retirada de reforços,
prêmios e similares, para além do discurso ineficiente. Acentua-se
portanto a ausência ou “necessidade de reforço” dos valores que
ela gostaria de incutir aos filhos, sem saber como. A necessidade de
parceria, na colocação dos limites, e de cumplicidade, que não lhes tire a
autoridade.

O pai

Neste contexto, o pai tem que se fazer mais presente, ao menos no
intervalo enquanto a mãe não voltou do trabalho e não há quem cuide do
filho pequeno.

A figura grande a ameaçadora (“espere para ver – vou contar tudo ao teu
pai!”) se desfaz pela proximidade e também o pai não quer ocupar o papel
de vilão ou de autoridade última e ameaçadora. E se faz mais macio e
acolhedor. A ponto de uma mãe nos relatar chegar em casa e ouvir:

“Você sabe que não pode fazer isso, porque tua mãe não deixa”...

Como assim “tua mãe” não deixa?! ... Inverteram-se os papéis? Por ele,
deixaria?...

Como resultado, a autoridade se ameniza e quase se desfaz...

Resultado? Crianças consumistas (sabem que, se pedirem, conseguirão o
que querem), e sem-limites...

As mães de classe mais baixa

Elas trabalham, quando podem, como podem, no que podem. O sustento
é a principal preocupação. Mas ter os filhos “andando direito” também
preocupa, num ambiente em que todas as alternativas se colocam,
enquanto ela está longe, batalhando pelo sustento.

O seu nível educacional é menor do que o das mães das classes
superiores. A sua capacidade, habilidade de convencimento verbal, ou de
formas mais sutis de controle são mais reduzidas.

E, nos últimos anos, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, ela
tem que se haver com a proibição de castigos físicos, a que recorria para
estabelecer controle.

Privada deste expediente, o controle fica mais difícil.

Mas a necessidade de manter os filhos sob o controle de “bons valores”,
permanece. Onde buscar reforço?

A baixa qualidade e precariedade do ensino público raramente consegue
um controle mais eficaz do que o seu. E permanece a necessidade de
estabelecer os limites e controle que ela, privada dos meios mais eficazes
com que contava, não consegue suprir.

Tirou-se-lhe uma arma, sem e antes que ela pudesse se familiarizar com
algum outro mecanismo de controle...

Traços comuns

O que há de comum entre estas classes distintas de crianças?

Duas coisas nos saltam à vista : a maior labilidade de controle e limites, e o
apelo ao consumismo.

Com a mídia estimulando ainda e sempre o consumo, como medida de
valor e de felicidade, ao mesmo tempo em que as condições do meio
ambiente exigem um consumo mais consciente e qualificado, para onde
vamos?

Como mudar?

Quem poderia deter ou modificar este cenário, trazendo a sua
contribuição para o bem comum?

A mim parece que a única instituição social que poderia contribuir na
construção de um senso crítico com relação a isso seria a escola.

A habilidade de ao mesmo tempo estimular, permitir e orientar as novas
descobertas e caminhos, ao mesmo tempo construindo uma percepção
crítica com relação ao pensamento dominante – esta seria a sua função
nobre, para além das demais, que já tem.

Assim, ensinar a ler criticamente a mídia, decodificando as intenções
que subjazem ao discurso, os interesses que o ditam e a possibilidade de
resistir, ampliar o leque de informações, de atitudes e posicionamentos
ajudariam esta geração de crianças e jovens a não serem meros joguetes
na mão da mídia estimuladora de consumo e de consensos e valores
conservadores.

Ao estabelecer uma relação gostosa de aprendizagem, em que
todos poderiam trazer as suas descobertas e contribuições, refletir
junto, aprendendo a aprender, não deixaria de ser um exercício de
estabelecimento de valorização das contribuições complementares, e de
respeito aos limites de cada qual.

É claro que outros espaços e manifestações culturais – a arte, o esporte,
etc – também poderiam e deveriam contribuir para este processo com
a sua parte. Mas, para isso, a universalização de seu acesso é passo
fundamental.

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