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Saravá! Mulheres negras da esquerda brasileira – Invisibilidade histórica

sexta-feira 8 de março de 2013, por Gal Souza

Sônia Leite foi ativista incansável contra o capitalismo, o machismo e o racismo. É dela este artigo que segue abaixo sobre gênero, raça e classe.

A invisibilidade da mulher negra é o dilema que acompanha a sua trajetória de luta desde o período da escravidão aqui no país. Estas mulheres ficaram secundarizadas e por vezes esquecidas.

No período pré-Abolição, estas mulheres tiveram papéis relevantes, eram quem circulava “de lá para cá” trazendo e levando notícias. Era o princípio da informação. Isso ocorreu porque as mulheres negras estavam em diversas frentes de trabalho, estavam no leito, estavam na casa grande e, principalmente, acompanhando as “sinhazinhas” em seus passeios. Por conta disso, eram as escravas que podiam levar notícias de uma estância a outra, de forma precária mas eficaz. Foram elas que iniciaram esta corrente embrionária de informações de quilombo para quilombo.

Por outro lado, sempre que lembramos do maior quilombo da história, o Quilombo dos Palmares, entendemos o que significa a invisibilidade da mulher negra. Todos já ouviram falar de Gangazumba – Zumbi dos Palmares. Mas e a referência histórica de Dandara? Às vezes aparece como a esposa de Zumbi. Acotirene, então, só as feministas negras trouxeram à contemporaneidade.

Mas Dandara era uma guerreira do quilombo e Acotirene era sacerdotisa, aquela que orientava os guerreiros e seus planos de guerra no Quilombo de Palmares. A importância delas era vital, mas outra vez foram secundarizadas. Aqui não cabe nenhum senso de juízo sobre as importâncias históricas estabelecidas na saga de heroísmos que foi o Quilombo de Palmares, mas serve de parâmetro para notarmos como fatos históricos são omitidos. O racismo ocultou e transformou a história de Zumbi de Palmares, por muitas décadas, em uma lenda, retirando o caráter de herói para ser uma figura mítica, fruto da imaginação dos escravos brasileiros e seus descendentes. Podemos afirmar que, paulatinamente, o machismo acabou contribuindo para ocultar figuras tão importantes como Dandara e Acotirene e outras mais que perderam suas vidas heroicamente na luta contra a barbárie da escravidão.

Resistência histórica

Mas a mulher negra, independente do reconhecimento histórico, sempre esteve presente nas lutas de seu povo. Aqui, em nosso país, a história da população negra esteve submersa durante décadas e reconduzida ao seu espaço como forma de resistência e auto-estima de seus descendentes através das lutas contemporâneas e da reafirmação da participação dos negros e das negras na construção desta nação e da luta pela eliminação do racismo, herança da escravidão.

A mesma garra que as mulheres negras tiveram para resistir no período da escravidão, se manteve quando lhe imputaram as mais duras formas para sobreviver, ou melhor, como todos os escravos passaram a ser coisas. Este foi o processo de “coisificação” da população negra e escravizada. E à mulher negra couberam os estereótipos de ama de leite e mulata exportação, ambos ligados ao ato de servir.

O período pós-Abolição realçou a força da mulher negra. É ela quem vai às ruas com o cesto de frutas na cabeça, é ela quem lava a roupa, cozinha e é ela quem mantém a cultura de seu povo através do culto aos 0rixás, Inkisses e Vodus, preservando o hábito adquirido no período da escravidão e que, através do sincretismo religioso, representou por vezes seus santos através da imagem dos santos da igreja católica. Foi esta mesma mulher quem formou as Irmandades nas igrejas e nessas Irmandades, mais uma vez, fez a rede de informação.

Nesta época, as Irmandades dos homens de cor eram sustentadas pelo trabalho das mulheres negras e foi por meio destas Irmandades e dos Candomblés que a população negra se reorganiza em terreno hostil.

Cabe salientar que o governo brasileiro não ofereceu nenhum tipo de indenização à população negra escravizada. Comentava-se, na época, que ao negro bastava dar um pau, um pão e um pano (um pau para matar os animais com quem conviveria na floresta, um pão para matar a fome pelo menos por 24 horas para seus antigos donos não serem acusados de suas mortes, e um pano para cobrir suas vergonhas).

Foi proibida no Brasil a entrada de africanos e asiáticos na pós-Abolição (ação levada a cabo pela Coroa Portuguesa, que projetava a nova Europa, branca, projeto quase impossível com os quase setenta por cento de negros e negras remanescentes da escravidão espalhados pelo país).

A República não alterou o quadro de desigualdades sociais que começava a ter novos contornos. Já não existia mais o ânimo de transformar o Brasil em uma nova Europa, mas os negros e negras ainda não eram considerados cidadãos com direito de cultuar seus santos, de lembrar a África. Começa a ser gestado o racismo à brasileira ou racismo cordial ou a democracia racial. A hostilidade frontal passou a ser escamoteada, escondida em maneirismos nos idos de 1930, especificamente a partir do tratamento sócio-cultural dado ao assunto por Gilberto Freyre em seu Casa Grande e Senzala, de 1933, que buscava apaziguar as relações, trazendo o maniqueísmo do senhor mau e do escravo servil-submisso. A idéa era de criar uma nova raça brasileira, o Brasil moreno, com referencias européias e esquecimento das referências africanas; era virar as costas para a África.

A Frente Negra Brasileira foi um instrumento utilizado pelos negros e pelas negras brasileiras para trazer a problemática da não inserção dos então chamados “homens de cor” na sociedade brasileira. Junto à Frente Negra surgiram várias manifestações de revalorização da população negra. Desta forma, ressurgia também a beleza negra por meio dos vários concursos feitos pela comunidade negra organizada (Bonequinha do Café, Bonequinha de Piche, se hoje parecem esdrúxulos, na época eram oportunos, pois levavam aquela mulher negra tão estereotipada a ter orgulho de sua cor).

Quanto mais negra, mais bonita! Valorizar aquelas mulheres que hoje têm na função de doméstica um emprego em grande escala, mas sem nenhuma valorização. Foram importantes os grandes bailes organizados, por quase todo estado de São Paulo, criando bolsões de revalorização da raça negra, na contramão da democracia racial, que preconiza o afastamento destes valores e exaltava a mistura de raças, desde que sumissem os traços da África negra.

A mulher negra, mesmo neste clima hostil, participava das lutas pela emancipação no Brasil. Cabe abrir um parêntese para relacionar algumas ações de mulheres negras, símbolo de resistência: Em 1920, a despeito do caráter pequeno burguês existente na Federação Brasileira do Progresso Feminino, a entidade trazia algumas afrodescendentes em suas fileiras. Almerinda Farias Gama, uma das militantes afrodescendentes que se destacou junto com Bertha Lutz, criando o Sindicato das Datilógrafas e Taquigrafas e, posteriormente, abandonou a FBPF por achar que as mulheres que lá estavam eram da elite e não se preocupavam com os problemas das mulheres trabalhadoras. Na Bahia, em 1940, temos Maria Brandão, militante do PCB e, em 1934, tivemos a eleição de Antonieta de Barros, professora negra, filha de proletários de Santa Catarina. Nos idos dos anos 1950, víamos a primeira ação de classe ligada à mulher negra: o Conselho Nacional de Mulheres Negras, criado por domesticas, um exemplo, entre outras ações louváveis entre 1934 e 1950.

Anos 1960/1980: anos de luta

Na contramão da ditadura. aqui no Brasil, os movimentos sociais se organizavam. Nos anos 1970 o movimento negro dinamizava sua participação política junto às tendências pan-africanistas, as novas lutas travadas por negros da diáspora nos Estados Unidos e na França, lutas pelos direitos civis, Negritude de Aimé Césarie, lutas de caráter frontal contra o sistema, como a ação dos Black Panther, nos Estados Unidos.

A valorização do ser africano traz uma nova estética ao movimento negro, além da discussão sobre a existência do racismo no Brasil, desbancando a teoria governamental da democracia racial. Discutia-se também a mudança de sistema e o socialismo passava a figurar como uma opção de luta. Havia o entendimento de que o racismo era um componente de opressão do regime em curso, o capitalismo, que crescia.

Nesta época, nos idos dos anos 1970, destacamos a presença de Lélia Gonzáles, mulher negra e feminista que questionava o racismo e o machismo como componentes de opressão. Quem também dialogava sobre esta tese era Ângela Davis, uma das únicas mulheres da frente dos Panteras Negras, de Malcom X.

De 1978 a 1980 temos um boom de crescimento na organização da mulher negra no Brasil. Cabia ainda a esta mulher protagonizar a luta contra o racismo e contra o machismo.

Surge a teoria da tríplice exploração da mulher negra, por ser negra, mulher e estar inserida na população pobre do país. Estes limites não intimidaram a mulher negra que seguiu na sua saga ancestral, participando das ações tanto do movimento negro quanto do movimento feminista. Questionando o movimento negro e o movimento feminista.

As mulheres negras iniciam uma nova fase na qual a visibilidade era a meta.

Mulher negra buscando a visibilidade

“Eu, mulher negra, existo”. Esta era a premissa do movimento embrionário de mulheres negras para mostrar a nossa existência e como sujeito político atuante na frente de lutas. Éramos invisíveis, o empoderamento era dado aos homens no movimento negro e às mulheres brancas, no movimento feminista.

Como exemplo temos o 2º Congresso Feminista, realizado em São Paulo, no qual uma militante feminista do Movimento Negro Unificado, Leni de Oliveira, questionou a ausência de mulheres negras nas mesas de discussões. Houve um impasse e mau estar, pois não era justificável aquela ausência, a não ser por um não entendimento de que o racismo e o machismo caminham na mesma esteira de opressão.

Mas a década de oitenta foi fértil para as mulheres negras. Várias entidades surgiram e a discussão da participação como protagonista da sua própria história cresceu. De Antonieta de Barros a Benedita da Silva, podemos traçar uma trajetória de inserção da mulher negra em todas as frentes de luta democrática no país; da tentativa de Almerinda, lá atrás, em 1934, tentando estar na Assembléia Constituinte, à bem sucedida eleição de Francisca Trindade, no Piauí, eleita em 2002 em um território de tradição de coronéis em eleger homens brancos, mostrar que a mulher negra optou pelo caminho da esquerda brasileira. Estivemos no Araguaia, símbolo de resistência contra a ditadura, com a participação de Helenira Resende, estudante da USP, vice-presidente da UNE. Estamos hoje com Marina Silva, a guerreira contemporânea da luta do povo da Amazônia contra o flagelo da destruição do ecossistema da floresta e o aniquilamento de seu povo.

Temos que lembrar que com o advento dos partidos políticos após a ditadura, em especial podemos consignar a dois partidos políticos a discussão racial como um componente para mudança social no Brasil: PDT e PT. Em primeira instância, o PDT, que trazia nosso Abdias Nascimento e, posteriormente, a militância do PT.

Esta militância do PT trouxe ânimo às mulheres negras organizadas. Lélia foi militante e dirigente do PT, a maioria das mulheres negras eleitas pertence ao Partido dos Trabalhadores, as militante negras de ponta, mesmos as que foram para outros partidos, iniciaram sua militância no PT, como Dulce Pereira, que foi a primeira mulher negra contemporânea a exercer cargo de destaque em governo federal (embaixadora do Brasil em 2001 ao assumir a Secretaria Executiva da Comunidade de Países de Língua Portuguesa).

Na atualidade, tivemos três mulheres negras (uma delas permanece) em funções ministeriais no governo Lula. Sem dúvida, o governo que mais colocou negros e negras em cargos de primeiro escalão.

Na área sindical, destacamos a participação da companheira Neide Fonseca, que durante anos foi presidente de um instrumento intersindical importante para a América Latina, o INSPIR, ligado a várias centrais, com o intuito de discutir a luta anti-racismo no mundo do trabalho.

Da favela para a Câmara do Rio de Janeiro, Jurema Batista. Valeu a pena o esforço da Joana Angélica, que liderou as mulheres negras de favelas do Rio de Janeiro para ocupar o espaço no III Encontro Feminista Latino Americano e do Caribe, realizado em Bertioga (SP). Valeu à pena acreditar que a luta racial junto com a luta contra o machismo transforma. E vale a pena entender que este instrumento pode pertencer a todas, que a luta é coletiva.

É bom poder louvar meus santos em ioruba, bantô, angola -nagô e acreditar no poder libertário da revolução permanente de Trotsky. Saravá é uma expressão “bantisada” que muitos usam para se referir a religiões de matrizes africanas. Mas Saravá é uma forma sincrética de dizer “como a senhora vai?“, mas também hoje serve de saudação de orgulho e estima, com a qual quero terminar meu texto. Saudamos pessoas que introduziram várias gerações neste caminho de luta e que nos dão orgulho de todo dia sermos mulheres negras. Nós, mulheres negras, existimos!

Saravá Lélia Gonzáles, que reafirma a nossa fé na luta e no cotidiano de ser mulher negra.

Saravá Beth Lobo, que me mostrou que a classe operária tem dois sexos.

Saravá Flávio Jorge, que me mostrou que na luta pelo socialismo temos também que lutar contra o racismo.

Saravá Roseli, do Grupo Negro da PUC, que me mostrou que sem Orixá não temos raízes, então nada somos.

Artigo publicado originalmente no livro "O Feminismo é uma Prática – Reflexões com Mulheres Jovens do PT, de 2008, organizado por Fernanda Papa e Flávio Jorge" (Fundação Friedrich Ebert e Fundação Perseu Abramo).

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