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Água pura...quero ver-te

sexta-feira 22 de março de 2013, por Sucena Shkrada Resk

Olho para o céu e sei que lá estão os “Rios Voadores”. Ao ler a explicação de Gérard e Margi Moss sobre o projeto de mesmo nome (http://www.riosvoadores.com.br/o-projeto/rios-voadores) penso o quanto do intangível há no tangível, quando se trata do tema água, que já é identificado como “ouro azul”, desde o século passado. Esse mesmo processo se dá com o conceito de “água virtual”*, que revela o que não conseguimos enxergar em parte na pegada hídrica (http://www.pegadahidrica.org/?page=files/home) da humanidade. Quando relegamos a segundo plano, o valor dos aquíferos ou melhor, desconhecemos por completo sua importância, só agregamos mais desconhecimento e inoperância...”. E ao nos depararmos com esgoto a céu aberto, acentuamos o ciclo baseado na inação.

Com o pensamento em longo prazo, os cenários se tornam mais turvos. Em 2030, quase a metade da população mundial poderá enfrentar escassez de água. A afirmação do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon só reitera o sinal vermelho há muito tempo dado à condução de nossos caminhos atuais no planeta. Somos mais de 7 bilhões de seres humanos espalhados por diferentes regiões do globo e estima-se que praticamente 4 bilhões não têm água encanada (tratada). Nessa matemática da escassez, anualmente 3,5 milhões de pessoas morrem por doenças causadas pela falta de água potável, de acordo com dados da ONU-Água.

Os números parecem frios diante de tantas vidas comprometidas, não é? E o fato de 2013 ser o Ano Internacional de Cooperação pela Água e estarmos vivendo a Década Brasileira da Água, desde 2005, não modifica uma realidade indiscutível. Essa é uma agenda “infinita” para a humanidade, pois basta um argumento: sobrevivência.

Os pesquisadores holandeses Arjen Hoekstra e Mesfin Mekonnen, da Universidade de Twente, divulgaram neste mês, cálculos sobre a pegada hídrica individual no contextos de países pobres, em desenvolvimento e desenvolvidos. Enquanto, no Congo, por exemplo, é de 552 m³/ano, no Brasil é de 2.027 m³/ano e nos EUA, 2.842 m³/ano.

Nessa desigualdade de consumo e acesso, há também o componente climático e as situações mais aflitivas são vividas em países como Bahrein, Qatar, Kwait, Líbia, Djibouti, Emirados Árabes, Iêmen, Arábia Saudita, Omã e Egito, no Oriente. Esses dados foram divulgados pela consultoria britânica Maplecroft, no ano passado. Ironicamente essas nações ricas em petróleo sofrem com o risco de escassez de um bem maior. Algo para se pensar, não é verdade? Afinal, já ocorrem guerras por causa desse “ouro negro” e nas últimas décadas existe uma outra guerra. Nesse caso, pelo “ouro azul”.

O documentário canadense “Ouro Azul: A Guerra Mundial pela Água”, de Sam Bozzo , que teve como fonte de inspiração o livro Maude Barlow e Tony Clarke, é um retrato dessa situação

O PROBLEMA SÓ SE ACENTUA

Todos os anos, chega o dia 22 de março e inúmeros artigos, reportagens, relatórios são divulgados sobre a situação da água localmente e no planeta. Quase como um filme reprisado há o alerta sobre os perigos que emergem entorno da escassez, do desperdício, da contaminação e das condições climáticas. A situação se agrava por uma complexa rede de causas: mau uso pela sociedade, má gestão pública e incompetência ou ausência de boas práticas empresariais. A tudo isso se agrega um fator importante e que não pode ser desprezado: a densidade demográfica aumenta anualmente no mundo e a pegada hídrica, por sua vez, também.

Nessa síntese da desigualdade, existe mais um elemento subdimensionado, que é o descompasso presente na sensibilização da população diante do problema. Nas grandes metrópoles, geralmente parte de nós nos vimos confortáveis com a água saindo da torneira, do chuveiro, com raros momentos de racionamento. Aquela falsa sensação de que nunca seremos pegos de surpresa pela ausência da água é recorrente. Só que também nas metrópoles, entretanto, nos bairros mais periféricos, essa iminência da falta é algo que faz parte do cotidiano.

Quando partimos para a regionalização (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte) no contexto brasileiro, começamos a perceber que o senso comum de percepção sobre o sofrimento de nordestinos, no semi-árido, perigosamente começa a ser visto como algo irremediável e, por muitas vezes, banalizado de forma grosseira por quem não vive na “pele” a estiagem e a seca. Ciclos intermináveis de soluções paliativas ou falta de empenho nas mesmas parecem uma trilha sonora interminável de “desculpas”.

Aquela visão quase caricatural de que no Norte do país, os rios são caudalosos o tempo todo também começa a cair por terra aos poucos. Nas demais regiões também há esses ciclos de “estiagens” cada vez mais prolongados.

Quando falamos sobre “água”, em qualquer ângulo, simboliza o principal condutor da infraestrutura. Está na base de um município, de um estado ou país e de nossas vidas. Na política de saneamento que está interligada com saúde, educação, transporte (hidrovias), agricultura, meio ambiente, alimentação, indústria e comércio...

Com todo esse repertório, não é preciso ir muito longe para se buscar novos caminhos para combater a inércia exaustiva, que faz vidas serem minadas e corpos sucumbirem. Morrer por causa da falta de esgotamento sanitário, pela presença de elementos químicos contaminantes nas águas ou pela ausência da mesma é sinal de que novos significados devem ser dados à palavra desenvolvimento no século XXI, para que não sejamos falaciosos e coniventes com esse ciclo perverso, que envolve a apatia ao que é essencial ao que tanto almejamos: qualidade de vida.

Glossário:

Água virtual*: conceito criado por John Allan em 1993, que representa o cálculo do total de água utilizado na produção de qualquer bem de consumo, desde matérias-primas à distribuição final.

Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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