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Mundo árabe recebe marcha de abertura do FSM

quarta-feira 27 de março de 2013, por Deborah Moreira

Imagine um mundo sem fronteiras, sem guerras, sem precisar matar ou morrer. Imagine milhares de pessoas, de mais de 127 países com culturas diferentes, reunidas em uma grande marcha, em um lugar que clama por mudança. Imagine pessoas felizes, falando uma só língua, cantando, dançando. “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz”. Agora, não imagine mais. Isso pode ser real. Este é o clima do Fórum Social Mundial na Tunísia e sua marcha de abertura.

Como na música de John Lennon, “Imagine”, militantes de diversas partes do mundo imaginam um outro mundo possível e foram às ruas de Túnis, na terça-feira (26), para pedir a união dos povos com igualdade para todos; a manutenção das liberdades democráticas, algumas recém conquistadas e outras ainda por vir; e a paz mundial.

Homens, mulheres, jovens ou não, com ou sem religião, buscam alternativas ao atual sistema capitalista hegemônico. Contra o imperialismo, grupos ecoavam palavras de ordem, agitavam suas bandeiras e acenavam suas lutas para todos que quisessem ouvir. Os tunisianos, sempre muito envolvidos com tudo, acolheram a mobilização com alegria e solidariedade.

A todo instante, movimentos de nacionalidades diferentes trocavam palavras, firmavam compromissos de contatos desde a concentração da marcha, que começou por volta das 16 horas, na Praça 14 de janeiro de 2011, local da rebelião democrática. A integração permaneceu durante todo o longo percurso da marcha.

“Estamos conhecendo o movimento negro na Tunísia e demais países árabes e estamos bastante otimistas sobre tudo o que estamos trocando”, destacou Edson França, presidente da União de Negros pela igualdade (Unegro).

Um desses movimentos é o Adam for Equality and Development, que se apresenta como o primeiro movimento negro da Tunísia organizado, depois da insurgência ocorrida no país em dezembro 2010.

“Agora, a Tunísia vive uma instabilidade. Mas nós já percebemos uma nova Tunísia. Uma Tunísia de todos os povos, uma Tunísia de negros, de brancos, de homens e mulheres. E isso é um sonho”, declarou bastante emocionada a jovem negra Soudani Amina, integrante da organização tunisiana.

“Percebe-se na Tunísia uma relativa democracia. A gente tem informações geralmente da grande mídia essencialmente crítica ao país. Mas já dá para perceber, até aqui na marcha, que é um povo que tem tradição de protesto, de rua. A gente vê uma presença de mulheres, com ou sem burcas, de juventude, uma unidade nas palavras de ordem e uma certa força no ativismo”, observou o presidente da Unegro, que afirma ter uma visão “bastante positiva” sobre a unidade dos povos árabes.

“Sobre a revolução, é um tema não esgotado e os tunisianos estão dando continuidade ao processo. E certamente ainda vai crescer bastante. Com isso, cresce também o Fórum Social Mundial, uma vez que o Fórum continua sendo o espaço mais importante de aglutinação do pensamento antineoliberal dos movimentos sociais. O Fórum tem que continuar”, enfatizou Edson.

Também presente na marcha, a secretária da Mulher da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Raimunda Gomes, a Doquinha, também fez questão de mencionar o simbolismo do ato.

“Existe uma euforia muito grande de todos os povos presentes, até porque aqui a Tunísia simboliza um momento histórico muito importante da atualidade. E acredito que todos vieram para cá com o mesmo espírito, de construir um mundo melhor”, disse Doquinha.

Tanto a Unegro, quanto a CTB, promovem atividades no FSM. A Central faz o seminário "A luta pela paz: As políticas sociais inclusivas e o papel da ciência e tecnologia na soberania dos povos", em conjunto com a Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários (CNTU) e com a Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), na quinta (28).

“Vamos voltar aos nossos países mais enriquecidos no sentido de que é sim possível construir um mundo melhor. O espírito do Fórum não morre, continua vivo e temos que insistir para mantê-lo nesse formato que ele é”, declarou Doquinha.

Após cerca de oito quilômetros de marcha, os manifestantes chegaram ao estádio de futebol de Túnis, o Cité Nationale Sportive, onde foi montado um palco ao lado para os discursos políticos de diversas organizações presentes. Já era noite, e uma lua cheia brindou os ativistas, ainda cantando e dançando. Nos últimos instantes da marcha, em meio a palavras de ordem, era possível ouvir uma música clássica tocada por um violino.

Logo em seguida aos discursos, Gilberto Gil subiu ao palco e contagiou o mundo árabe com seu suingue brasileiro. Durante o show, entre uma música e outra, ouvia-se a reação do público presente: palmas, brados e até o hino comunista A Internacional foi cantado em árabe.

Gil cantou a Bahia, a cultura negra e a paz. Em um dos momentos marcantes fez o público cantar junto os versos de “Imagine”. “Imagine não existir países, não é difícil de fazer, nada pelo que matar ou morrer e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz”. Imagine. Faça. Mobilize-se por um mundo melhor. É o que pedem os ativistas em Túnis.

Deborah Moreira


De Túnis para o Vermelho



Imagens da marcha:



fotos: Deborah Moreira







fotos: Bárbara Ablas



























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