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BDS contra o apartheid israelense

quinta-feira 28 de março de 2013, por Soraya Misleh

A campanha global foi o tema de plenária realizada durante o Fórum Social Mundial na Tunísia na manhã do dia 28 de março. A atividade foi chamada pela CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular), que integra a Frente em Defesa do Povo Palestino-SP – comitê que reúne dezenas de organizações da sociedade civil brasileira.

Com foco no embargo militar a Israel, a ação por BDS (boicote, desinvestimento e sanções) no Brasil, lançada por essa coalizão de movimentos em 2011, foi apresentada pela sua coordenação na plenária, que teve ainda a presença de representantes da campanha na França, Itália, Espanha, além da coordenação na Europa, do Ijan (International Jewish Anti-Zionist Network), do Comitê Nacional Palestino por BDS e da Frente Palestina da USP (Universidade de São Paulo). Participaram cerca de 70 pessoas, incluindo representantes dos trabalhadores e da juventude palestina, entre outros ativistas da região e de diversas partes do mundo.

A palestina Rafeef Ziadah enfatizou o apartheid e racismo israelense. Estradas exclusivas para israelenses, um muro de segregação, cores diferentes nas placas dos automóveis para permitir ou proibir a circulação entre determinados lugares e centenas de postos de controle integram o aparato que sustenta esse regime. Para combatê-lo, campanha global de BDS - aos moldes do boicote que derrubou o apartheid na África do Sul - é prioritária. Segundo destacou ela, a iniciativa tem como premissas o fim da ocupação de terras palestinas, a derrubada do muro, direitos iguais para todos e o retorno dos milhares de refugiados às suas terras. Ela lembrou que a maioria dessa população encontra-se hoje no exílio e diáspora.

Erwan, da coordenação do BDS na Europa, informou na oportunidade que a campanha no continente teve início em 2005 – ano em que foi feito o chamado da sociedade civil palestina por boicotes a Israel. Não obstante, a iniciativa ganhou força após os ataques a Gaza ao final de 2008 e começo de 2009. Ele frisou que a ação tem caráter amplo – não se limitando, portanto, aos territórios ocupados da Cisjordânia e Gaza. Na Europa, a atuação se dá nas diversas frentes: cultural, acadêmica, esportiva, de produtos e por embargo militar por parte de governos.

As ações específicas nos países da Europa representados à plenária também foram apresentadas. Na França, Dror indicou, entre as lutas bem-sucedidas, a recusa de venda de produtos israelenses fabricados em assentamentos ilegais na Cisjordânia, território palestino ocupado, caso do refrigerante Sodastream, em uma rede de supermercados. Além disso, destacou a nova campanha iniciada contra a Orange, empresa telefônica francesa que colabora com uma empresa de Israel denominada Partner, situada nas colônias sionistas.

Pela Itália, Amelie destacou que foi eleita como central a luta contra a participação da companhia Pizzarotti & C. Spa na construção da ferrovia que visa conectar exclusivamente colônias israelenses ilegais em Jerusalém, na Cisjordânia, a Tel Aviv. Já Magali, da Espanha, apontou que atualmente o movimento está envolvido em pressionar o time do Barcelona a cancelar uma partida de futebol marcada para julho com uma seleção montada com palestinos e israelenses. A ideia é protestar contra a ideia de normalização da situação, quando os primeiros são oprimidos e os segundos, opressores. Ademais, ela frisou a importância de os sindicatos de trabalhadores levantarem a bandeira por boicotes e de os governos romperem relações inclusive diplomáticas com Israel. Liliana, do Ijan, abordou o tema da compra de tecnologias militares da potência ocupante pelos governos, que têm sido usadas na repressão às populações nos países importadores. A campanha de BDS tem o papel fundamental de pressionar pela ruptura de acordos nesse sentido.

No Brasil, o foco é embargo militar, salientou a coordenação da Frente em Defesa do Povo Palestino-SP. O País se converteu nos últimos anos em um dos cinco maiores importadores de armas de Israel e é crucial mobilizar-se para que essa situação se reverta. Além da cumplicidade do governo brasileiro ao apartheid, também foi destacado que os poderes públicos estaduais seguem o exemplo. Caso do Rio de Janeiro, que recentemente investiu milhões na compra de oito blindados (os chamados caveirões) licitados para uma empresa israelense. Na plenária, Clara, da Anel (Assembleia Nacional dos Estudantes-Livre), denunciou que esses tanques servem à ocupação de favelas na capital fluminense e repressão sobretudo da população jovem pobre e negra.

Herbert, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, lembrou os acordos firmados pela Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica) com a israelense Elbit Systems. Com uma fábrica em Porto Alegre, essa última tem como uma das especialidades a fabricação de Vants (veículos aéreos não tripulados), utilizados nos ataques a palestinos. Com histórico de contribuição ao apartheid na Palestina, a companhia deve ampliar sua fábrica na capital gaúcha, com a bênção da Prefeitura local.

Fortalecer a iniciativa no Brasil, indicaram os ativistas do país, é parte da luta global pela Palestina livre. Entre as ações definidas para tanto, manifestação contra a Laad (Feira Internacional de Tecnologia e Defesa), no primeiro dia do evento que contará com a presença de 30 empresas israelenses - 9 de abril. A data ironicamente marca um dos inúmeros massacres cometidos durante a criação do Estado de Israel em 1948 –, na aldeia de Deir Yassin. Além disso, ação em 15 de maio – data que lembra a nakba (catástrofe palestina) há quase 65 anos -, coordenada com os movimentos de BDS do mundo inteiro para pressionar o governo brasileiro a romper os acordos militares com Israel. E a realização de um Tribunal Popular no segundo semestre deste ano, em articulação com outros países da América do Sul, para julgar a potência ocupante pela sua cumplicidade na repressão à população jovem, pobre e negra em todo o globo, mediante a venda de tecnologias militares. Os comitês de BDS presentes à plenária se comprometeram a apoiar a iniciativa no Brasil, que inclui ainda a luta pela ruptura de convênios de cooperação entre universidades deste país e israelenses.

Na USP, que reúne dezenas de acordos do gênero, a Frente Palestina da universidade, representada por Pedro na plenária, realizou uma semana contra o apartheid entre 11 e 15 de março e tem batalhado por uma vitória. Neste momento, o foco central é a não renovação do convênio que vencerá em breve com a Universidade de Ariel, situada em um dos maiores assentamentos ilegais na Cisjordânia, uma clara violação à lei internacional.

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