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O FSM respira os ares revolucionários no mundo árabe

domingo 7 de abril de 2013, por Rita Freire

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Apesar de conflituosas, as muitas expressões das lutas no mundo árabe, que se confrontam pelo destino político de seus países, marcharam na mesma avenida, no dia 30 de março, pela libertação da Palestina. Saara e Curdistão também mobilizaram as atenções do FSM

Quando o Fórum Social Mundial nasceu em 2001, na cidade gaúcha de Porto Alegre, ao sul do Brasil, era difícil imaginar encontro igual acontecendo na Tunísia. O FSM propunha outro mundo possível engendrado pela sociedade civil em uma época em que a ditadura de Ben Ali mandava para as prisões qualquer voz dissonante dos seus interesses. Antes de pensar em sociedade civil naquele país, seria preciso derrubar o regime pela vontade das ruas, algo que nem os participantes tunisianos daquele evento de 2001 conseguiam antever.

Doze anos depois, na segunda quinzena de março, jovens ativistas de diferentes países começaram a chegar à capital Tunes, buscando o escritório temporário do FSM nos arredores da Avenida Bourguiba, para ajudar na tarefas finais de construção do território de utopias e estratégias que reuniu, entre 26 e 29 de março, cerca de 50 mil pessoas na Universidade d’El Manar. Junto com eles, ativistas da comunicação, de hackers internacionais a comunicadores das rádios comunitárias sem licença na África, começaram já no dia 24 de março, seu III Fórum Mundial de Mídia Livre. Esse formigueiro de voluntários, jornalistas e mídia-ativistas que precede os encontros do FSM já é a certificação do próprio FSM em movimento. Em Tunes, como em Porto Alegre.

O ambiente geopolítico das transformações sociais se transferiu, em uma década, da América Latina – onde vários governos autoritários foram trocados por alternativas mais populares – para o Norte da África. Dois anos depois que a Tunísia deflagrou os levantes conhecidos como a Primavera Árabe, que tiraram Ben Ali do poder, derrubaram Hosni Mubarak no Egito, impulsionaram revoltas em toda região do Magreb Mashreq e inspiraram movimentos como os Occupy Wall Street e Indignados de Espanha, o Fórum Social Mundial chegou a Tunes como processo solidário e integrado às revoluções em curso.


Che, Chávez e Chokri, lembrados

Embora o FSM procure jogar todas as suas luzes para os movimentos sociais que pressionam, mas não participam de partidos ou governos, dois acontecimentos na esfera da representação política institucional contribuíram para uma ligação simbólica entre as resistências na América Latina e no mundo árabe, durante o evento de Tunes.

A edição 2013 teve início ainda sob a comoção com o assassinato, dia 6 de fevereiro, de Chokri Belaid, líder de uma frente de partidos de oposição democrática ao novo governo conservador da Tunísia, cuja morte levou milhares de pessoas às ruas. O crime poderia ter provocado um recuo na participação no FSM, mas gerou o efeito contrário. Produziu uma demonstração imediata de apoio da sociedade civil mundial ao povo da Tunísia, contra as saídas violentas.

Já os latino-americanos chegaram a Tunes ainda sob o impacto da morte do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dia 5 de março, e que levou consigo uma referência dos processos de enfrentamento à dominação externa do continente. O encontro dos sentimentos foi celebrado em shows auto-organizados na Avenida Bourgiba e em atos e homenagens criativas como as inscrições em camisetas que brincavam com as iniciais de “Che, Chávez e Chokri”.


Denominador comum: Palestina

Os dois últimos anos não trouxeram apenas ventos revolucionários à região do mundo árabe. Trouxeram também reações violentas dos regimes ameaçados, intervenções externas indesejadas, como no Mali, confrontos entre diferentes movimentos de “libertação” nacionais, disputas entre partidos laicos e islâmicos, entre islâmicos moderados e conservadores, e também acusações recíprocas entre militantes de esquerda pelo mundo. Na Líbia, onde Muammar Gadaf foi assassinado em 20 de outubro de 2011,como na Síria, onde Bashar Al-Assad é ameaçado, rebeldes acusam apoiadores desses regimes de traidores da Primavera Árabe, e os defensores dos governos acusam os rebeldes de mercenarismo a serviço do ocidente.

Um fenômeno impossível em outro processo das esquerdas mundiais aconteceu nesta edição do FSM. Apesar de uma série de conflitos e hostilidades quase inevitáveis, as muitas expressões das lutas no mundo árabe marcharam na mesma avenida, no dia 30 de março, pela libertação da Palestina. O compromisso de por fim à ocupação israelense, na esteira de um massacre infanticida na Faixa de Gaza, em novembro de 2012, mostrou-se um denominador comum a todos os movimentos e organizações sociais presentes.

Futuro do FSM em debate

O FSM também contribuiu para elevar o tom do povo saaraui que, por duas vezes, nas edições do FSM de Dacar, no Senegal, e agora na Tunísia, sofreu hostilidades de ativistas marroquinos, contrários à independência do Saara do Oeste do Estado colonial do Marrocos. As agressões acabaram contribuindo para minar as chances do Marrocos de hospedar uma próxima edição do evento, um sonho das organizações democráticas marroquinas.

Além da Palestina e do Saara, outro povo sem estado foi motivo de preocupação no FSM. O representante do Curdistão no Conselho Internacional do FSM, Yilmaz Orkan, que vinha dialogando com a sociedade civil internacional em busca de apoio para as negociações de paz em curso na Turquia, onde a população curda vive sob repressão, foi preso no aeroporto de Bruxelas, quando embarcava para Tunes. Uma série não explicada de prisões e assassinados de curdos nos países europeus nos últimos meses vem tirando de cena as expressões mais diplomáticas do povo que se divide entre a Turquia, o Iran, o Iraque e a Síria, e busca reconhecimento político.

Todos estes acontecimentos, carregados de tensão revolucionária, compuseram o ambiente para o FSM refletir sobre seu próprio papel. É possível que um próximo encontro do Conselho Internacional ocorra na mesma região, dentro de seis meses, após um processo de consultas aos movimentos e organizações sociais sobre o seu futuro. Como tornar mais ágil e democrático o funcionamento dessa instância, as articulações em seu interior mais estratégicas e suas ações de solidariedade com os povos em luta mais eficazes? Estes são alguns dos desafios que a experiência no mundo árabe deixou no centro dos debates sobre o próprio FSM.

Foto: Deborah Moreira/Ciranda

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