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Assembleia reúne Primavera Árabe em Túnis

terça-feira 9 de abril de 2013, por Deborah Moreira

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Estavam todos lá. Jovens, negros, brancos, asiáticos, religiosos e não religiosos, homens e mulheres. Muitas mulheres. A Assembleia dos Movimentos Sociais, uma das atividades que tradicionalmente encerra o Fórum Social Mundial (FSM), reuniu em Túnis, na sexta-feira (29), organizações de mais de 100 países.

Até quem era contra a realização do evento também estava lá, reivindicando seu espaço. Assim se dá a democracia no Fórum. Tem pra tudo e pra todos.

O FSM da Tunísia, que ocorreu entre 26 e 30 de março na capital tunisiana, teve na Assembleia um de seus pontos máximos. No Anfiteatro da Faculdade de Direito, da Universidade El Manar, palavras de ordem regeram todo o encontro. Eram ecoadas a todo instante entre os grupos presentes, em uma disputa sadia por espaço. Entre as vozes, os nomes dos líderes da esquerda Chokri Belaid e Hugo Chávez, que morreram recentemente, estavam constantemente presentes. Mártires de revoluções em curso. E quase sempre, um coro puxado lá do fundo da plateia pedia o fim do capitalismo.

Enquanto isso, mulheres árabes emitiam sonoros “zaghrouta” ou “salgouta”, grito de guerra que vem dos tempos dos faraós do Egito, quando as mulheres recebiam ou despediam-se de seus maridos que chegavam ou partiam para guerra. Hoje, o som ululante é usado para transmitir alegria, emoção e bastante usado nas celebrações e danças.

Músicas típicas árabes e as mais recentes que marcaram a chamada Primavera Árabe também deram ritmo ao evento e até um rap foi cantado a capela por um artista da região.

Estima-se que duas mil pessoas estavam presentes dentro do auditório. E algumas centenas ficaram do lado de fora devido a grande concentração de pessoas. Com idioma francês predominante, algumas falas tiveram traduções para o inglês, o espanhol e o árabe.

Curdos

A assembleia começou com uma menção aos imigrantes e aos que foram impedidos de entrar no país para participar do Fórum, como Yilmaz Orkan, membro do Conselho Internacional do FSM e que faz parte da Rede Curda e da Rede Mundial de Direitos Coletivos dos Povos (RMDCP). Yilmaz, que é conhecido internacionalmente por sua luta contra a opressão dos povos curdos, foi detido no aeroporto internacional de Bruxelas no domingo (24) quando estava a caminho do FSM.

“Nós, participantes do Fórum Social Mundial (FSM) em Tunis 2013, condenamos a prisão de Yilmaz Orkan”, diz um trecho da carta assinada por mais de 30 dirigentes e militantes, divulgada durante o FSM. De acordo com o documento, a detenção do ativista curdo teria sido solicitada pelo governo espanhol e pela Europol, sob o pretexto dele ser membro do Partido dos Trabalhadores Curdistão (PKK) acusados de terrorismo – eles estariam na lista da União Europeia de “organizações terroristas”. A carta encerra afirmando: “Nós denunciamos essa prática como uma ferramenta de criminalização da luta dos povos curdo por seus direitos básicos da República da Turquia e Oriente Médio!”

Os curdos são majoritariamente muçulmanos, sunitas, e têm seu próprio idioma e cultura. Desde a dissolução do Império Otomano, após a Primeira Guerra Mundial, quando tiveram sua tradicional vida nômade cerceada pelas novas fronteiras criadas no pós-guerra, vivem dispersos em cinco países: Armênia, Iran, Iraque, Síria e Turquia, onde está a maior população curda, cujas forças de esquerda exercem forte influência. Em meio aos conflitos sangrentos, que dizimam comunidades curdas, travados nas terras montanhosas do sudoeste asiático, eles reivindicam reconhecimento político do Curdistão e o respeito a sua cultura.

Luta anticapitalista e o feminismo

Muitas lideranças feministas presentes reforçaram a luta contra o machismo, o patriarcado e o fundamentalismo islâmico de algumas regiões de países muçulmanos que afetam diretamente a autonomia das mulheres.

“Temos que avançar com a luta anticapitalista que não terá sucesso se não for feminista”, reforçou Ahlem Belhard, presidenta da Associação Tunisiana de Mulheres Democratas, uma das lideranças convidadas a falar durante a assembleia e foi quem, logo no início do FSM, conduziu a Assembleia de Mulheres.

Nas falas que se seguiram houve um pedido por um minuto de silêncio ao mártir Chokri Belaid, líder da esquerda tunisiana, assassinado em fevereiro deste ano. Mesmo diante de ameaças, a Frente Popular criada por 12 partidos, em setembro de 2012, entre eles o Partido dos Patriotas Democratas Unificados (PPDU) de Belaid, continua como força opositora das Ligas para a Proteção da Revolução (LPR), formada por salafistas ((muçulmanos ultraconservadores) e simpatizantes do partido que governa a Tunísia atualmente, o Ennahda, de orientação religiosa. Belaid acusava-o de crimes não apurados. Sua morte desestabilizou o novo governo, abrindo novas eleições.

Saara Ocidental

Outras lutas da região foram mencionadas, como a da Palestina. Já a bandeira de independência do Sahara Ocidental, no Marrocos, causou instabilidade na assembleia, levando os participantes a discussões inflamadas. Muitos marroquinos, que não aceitam a luta do povo saaraui, contestaram um trecho do documento final da assembleia que diz: “Defendemos o direito dos povos à sua autodeterminação e à sua soberania, como na Palestina, Sahara Ocidental e Curdistão.”

Desde 1960, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou a Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais, o que provocou a descolonização de territórios até então mantidos por nações europeias, o Saara Ocidental se mantém como disputa colonial derradeira na África - não confundir com as recentes investidas colonialistas na região como na Líbia, Iraque e Síria.

O encerramento do encontro foi marcado pela saída de um grupo pequeno de saaraui que, sob aplausos, precisou ser escoltado por voluntários do Fórum.

A unidade dos povos esteve presente entre muitos discursos,bem como a manutenção da diversidade cultural da região do magreb-marschrek. O mundo árabe não é homogêneo e suas lutas específicas precisam ser respeitadas. É preciso um olhar não ocidentalizado sobre esses povos, que têm sua própria maneira de se organizar e de lutar por seus direitos. Assim seguem as primaveras.

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