Implicações Epistemológicas da Invisibilidade

escrito por Jose Geraldo Rocha

José Geraldo da Rocha
Unigranrio

Dentre os tantos problemas em relação ao negro na sociedade brasileira, encontramos a sua invisibilidade. Independentemente do seu quantitativo no universo da população, em várias instâncias de decisões ele não está representado. Nesse caso trata-se de uma negação presencial. Em outros espaços, mesmo estando presentes fisicamente, a desconexão com sua consciência negra o torna invisível do ponto de vista de fazer valer as coisas e elementos associados à sua identidade, à sua pertença étnica e cultural. Ainda existem os espaços e circunstâncias, onde sua presença é ignorada intencionalmente, ou não, conscientemente ,ou não.
Na perspectiva da invisibilidade é que se coloca o questionamento relativo à produção do conhecimento. Os espaços privilegiados de produção do conhecimento na sociedade brasileira são espaços embranquecidos. Nesses espaços, não só é preocupante a ausência física sistemática de negros, como a quase absoluta inexistência de possibilidades de formulações teóricas. Talvez aqui coubesse uma pesquisa mais abrangente e detalhada sobre produção e sistematização de conhecimento a esse respeito nas teses de doutoramento ao longo da história das universidades brasileiras. Evidentemente, que a ausência, por tanto tempo, dos negros nesse espaço privilegiado de produção de conhecimento, corroborou substancialmente para esse quadro. Consequentemente, a parcialidade tornou-se uma marca do conhecimento produzido. Ao negar a possibilidade do negro ser nesse espaço, nega-se também o saber sobre ele. O Ser que não é visto, torna-se o Ser que não é apreendido. A negação da diversidade, da diferença, acaba obstaculizando o próprio saber. Nesse sentido, afirma Marcondes: Ver o ser é possuir o saber. Possuir o saber é obter a visão do todo, superando a visão parcial, ver os ser na sua totalidade.(MARCONDES,2006,27)
À luz das afirmações de Marcondes, nos deparamos com um grande problema filosófico no trato com as questões relativas ao negro no Brasil. Ver o ser negro na sua totalidade é verdadeiramente algo não costumeiro na sociedade brasileira. Ao contrário, o que se naturalizou a respeito do negro é que ele é pobre, favelado, pagodeiro, sambista ou jogador de futebol, quando não é bandido. Essa rotulação naturalizada na verdade acaba sendo uma redução do Ser negro. Tal redução aplasta dimensões e valores constitutivos da dignidade requerida do Ser. É o mesmo que dizer: olho um nego e vejo um Ser. Ser esse que é humano, portador de riqueza, de beleza, de valores e tantos outros atributos constitutivos do Ser.
Nesse sentido, o pensamento de Leibniz trabalhado em Marcondes parece-nos extremamente relevante.
Em vez de duvidar de tudo que possa parecer incerto, é preciso considerar os graus de aceitação ou discordâncias que cada afirmação possa produzir, ou seja, examinar suas razões(...)Toda verdade deve ter uma razão segundo a qual ela é verdade(... )a tarefa da filosofia consiste na integração da totalidade do conhecimento humano.(MARCONDES,2006,192)
Muitas são as verdades sobre o negro no Brasil, que os “ouvidos” da sociedade brasileira não querem, não suportam, não admitem ouvir. A impregnação e a incrustação do racismo na mente coletiva , não apenas cegam os olhos mas também entopem os ouvidos. Obviamente, tal realidade, inviabiliza toda e qualquer possibilidade de compreender o Ser negro na sua totalidade e consequentemente viabilizar a integração da totalidade do conhecimento.
Enquanto Descartes afirmava “cogito ergo sum” - penso logo êxito, como forma de estabelecer os fundamentos do conhecimento, no universo de uma epistemologia afro, tal afirmação seria modificada pelo “ sou porque vós sois”. O fundamento do conhecimento está no sentido da existência, não está no pensar. E o sentido da existência está no relacionar-se. Ora, do ponto de vista filosófico, isso encerra um enorme riqueza presente numa matriz cultural na sociedade. Entretanto para que isso se torne algo a ser partilhado nos espaços privilegiados de produção de conhecimento, necessário se faz um redimensionamento da inclusão presencial e relacional da diferença.
A sociabilidade é a conseqüência imediata das faculdades mais ligadas ao ser do homem, que são: o conhecimento, a corporeidade, a linguagem, a liberdade e o amor. O conhecimento põe-no em contato com todo o mundo que o circunda, particularmente com o mundo humano. A linguagem permite-lhe trocar com os outros as suas idéias próprias, os próprios sentidos, os próprios projetos. O corpo dá lhe a possibilidade de trabalhar, jogar, divertir-se etc. junto com os outros. O amor e a liberdade colocam-no à disposição para dar-se aos outros e para fazê-los participantes das próprias coisas e do próprio ser. (MONDIN, 2005, 170-171)
Os preconceitos e a discriminação são impeditivos à vivência e à sociabilidade do ser. São realidades que bloqueiam a expressão do ser., assim como o impede de desenvolver do ponto de vista do conhecimento, que vai desde a negação da oportunidade até a sedimentação de entraves psicológicos. Cria-se nessa perspectiva, processos de desconexão do ser com o mundo que o envolve e fundamentalmente com o seu mundo interior. É a chamada negação de si mesmo. Ao considerar um ser que nega a si mesmo, a sua dimensão corpórea não lhe permite estabelecer relacionamentos dignificantes enquanto ser humano. Desencadeia-se se assim uma invisibilidade de si mesmo. O ser negro não se vê enquanto ser. A perda da consciência corpórea desvincula o ser de si mesmo. Em Marx essa perda de consciência aparece como alienação, ou seja, o indivíduo se torna estranho a si mesmo em razão das artimanhas do sistema capitalista. É verdade que Marx não está preocupado com a questão da discriminação. Sua preocupação está centrada na exploração que a classe dominante exerce sobre a classe trabalhadora. Então a linguagem do ser não mais significa possibilidade de trocar com os outros. Trocar o que se a discriminação faz com que o que se é não tenha reconhecibilidade e aceitabilidade? Isso encerra uma implicação extremamente prejudicial a sociabilidade desencadeia dessa situação. As idéias, os projetos e o sentido da vida são desvirtuados. Quando um individuo perde esse referencial, a relação que ele vai estabelecer com a sociedade estará obviamente desfocada do eixo da humanização. Como falar de amor a esse ser? Falar de liberdade, de disposição para dar-se aos outros, se o que recebe dos outros são gestos e práticas discriminatórias, que só o diminui e o aniquila enquanto ser?
É notório na sociedade brasileira que essa invisibilidade do negro é algo construído socialmente e culturalmente. As marcas das culturas dominantes estão presentes nos mais diferenciados setores e aspectos da vida cotidiana do povo brasileiro. A negação, quando conveniente, dos aspectos culturais relacionados aos negros cumpre um papel político e ideológico. Nesse sentido, o pensamento de Mondin é ilustrativo. É possível constatar a complexidade que está presente culturalmente na sua origem, na sua forma e na sua finalidade

A cultura é um fenômeno complexo e a melhor maneira para entendê-la é a de fixar suas principais características. Elas podem ser agrupadas segundo três aspectos: a origem, a forma e a finalidade. Do ponto de vista da origem a cultura é humana, social e laboriosa (...) Do ponto de vista da forma, a cultura é sensível, dinâmica, múltipla e criativa (..) Do ponto de vista da finalidade, para alguns é considerada essencialmente religiosa, para outros humanistas, e por outros naturalista ( MONDIN, 2005, 179 -181)
Dada a complexidade do tema em questão, todos os esforços em busca de garantir uma visibilidade epistemológica, sao poucos, diante do tanto tempo que tal realidade foi relegada.

Referencia Bibliográfica
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: ZAAR, 2004.
MONDIN, Battista. O Homem, Quem é Ele? Elementos de Antropologia e Filosofia. São Paulo: Paulus, 12ª Edição, 2005.

Ninguém me contou, eu vi! - Reflexões acerca de atividades educacionais em uma escola de ensino básico em Duque de Caxias

escrito por Jose Geraldo Rocha

Jose Geraldo da Rocha - Unigranrio

O presente texto é resultado de inquietações nascidas a partir de algumas atividades realizadas em uma escola de ensino básico da rede particular localizada no município de Duque de Caxias no estado do Rio de Janeiro.
Como educador no ensino superior, como pai de uma aluna na referida escola, não poderia deixar de refletir algumas questões que transpareceram no desenvolvimento de atividades escolares, nas quais estiveram envolvidos além dos alunos e professores, os pais e pessoas da comunidade escolar.
Tudo começou no dia 20 de outubro de 2009. No final do dia, já era noite, saí da Universidade onde acabara de dar minha aula de sociologia, na qual desenvolvi com os alunos o tema “ Processos de Interação Social”. Como faço tantas outras noites, fui buscar minha pequena de seis anos, que após sair da sua escola, fica na casa de uma tia esperando a mãe, ou eu buscá-la , em conformidade com nossos horários. Notei que naquela noite minha filha estava meio triste. Nada comum com aquela menina. A mãe já estava com ela. Então no carro indaguei o que estava acontecendo. Mais que depressa, a sinceridade da criança aflorou e ela disse. “..é por que amanhã é o sarau literário na escola e você não vai lá”. Lembro-me que havia dito a ela que não tinha como ir, pois estaria em sala de aula na universidade na quinta feira pela manhã. Diante da tristeza dela e de sua insistente solicitação “ ... mas pai, vai lá só um pouquinho”, resolvi que daria uma passadinha no início da atividade. Foi só ela ouvir que iria, seu astral mudou completamente. Seu rostinho se alegrou, a conversa voltou a fluir a todo vapor, e de quebra ganhei aquele gostoso beijo afetuoso.
Chegou o dia do sarau. Então lá estávamos todos. Ela, a mãe e eu. Uma manhã diferente e animada. Poemas, músicas e muita animação.
Ai algumas coisas pareciam não soaram bem ao meu senso observador. Um poema das borboletas me deixou intrigado. A cena era linda. Algumas crianças vestidas coloridas, com uma grande flor desenhada e pintada em papel, em palco formavam um verdadeiro jardim. Ao som de uma linda música, uma outra criança com asinhas de borboleta entra em cena e corre entre as flores, dança e ensaia pousar em cada uma das flores. No final da cena, vem o poema.
As Borboletas - Vinicius de Moraes
Brancas ,Azuis ,Amarelas,E pretas,Brincam,Na luz,As belas,Borboletas,Borboletas brancas,São alegres e francas. Borboletas azuis,Gostam muito de luz.,As amarelinhas,São tão bonitinhas! E as pretas, então . .oh , que escuridão!

Na declamação do poema, ”borboletas amarelinhas... são tão bonitinhas... as azuis... procuram a luz... e as pretas então... oh que escuridão”. Ao ouvir tal afirmação no poema me pus a refletir o quão tal associação das borboletas pretas com a escuridão poderia estar desempenhando um papel na subliminaridade de uma criança. Certamente a construção literária no nosso país não ficou imune ao processo de naturalização e veiculação de concepções preconceituosas em relação a cor preta, que automaticamente se associa aos negros. Coloquei a mim mesmo uma série de questões a respeito de como isso é tratado na escola, se é realmente tratado. Como isso é visto pelos professores? E as implicações disso no dia a dia das crianças e em seus processos de interação social. Essa realidade me fez voltar em meus tempos de menino negro, crescendo no sul do país e não raras as vezes que me deparava com frases do tipo “ escureceu o ambiente” quando eu chegava. Naquele tempo jamais poderia eu pensar e ter a consciência das formas como na sociedade, e principalmente no processo educacional, tais concepções acabam sendo veiculadas naturalmente, ”inocentemente”. Para além da questão étnica, outras coisas me chamaram muito a atenção. Na encenação das borboletas, todas as crianças que representavam flores eram meninas, assim como a borboleta. Em outra cena, do relógio tic-tac, todos os relógios eram meninos. Do mesmo modo o teatrinho da “bola que rola”, todos os personagens meninos. Ali novamente surgiram questões relacionadas à gênero. As construções sociais delegaram o que é brincadeira de meninas e de meninos, e na escola, isso é reproduzindo de forma tão natural, sem nenhuma reflexão. Em pleno século XXI, diante de tantos esforços engendrados na perspectiva de uma sociedade sem discriminação, sem machismo, o papel da escola nessa árdua tarefa é preponderante. Ela não pode se eximir, em nome da “incapacidade reflexiva”, de dar a sua contribuição.
Em continuidade das atividades, vem o poema do elefantinho. Quem vai ser o elefantinho? O menino gordinho. Ora, não está em jogo a intenção aqui. Mas o fato é que isso marca a vida das pessoas. Abre caminhos para a depreciação humana. Cria e reproduz estereótipos e sedimenta-se a discriminação, que vai trazer como conseqüência a diminuição da auto-estima da criança, ou até mesmo a sua auto-negação.
Terminado o sarau literário, a outra atividade iria realizar-se no dia 24 de outubro. Dessa vez, uma atividade voltada para a comunidade escolar, digo, pais, alunos, professores entre outros. “Portas Aberta”! O próprio nome da atividade dá a noção da sua abrangência. Mais uma vez lá estávamos minha filha, minha esposa e eu. A atividade se desenvolvia na quadra de esportes do colégio. Eram apresentações onde as crianças demonstravam suas versatilidades artísticas. Em um dado momento iniciou-se uma apresentação, onde um senhor entrou na quadra com uma enorme bola ou seja, um globo terrestre. Com passos de danças, ao som de uma música, apresentava aquele globo à platéia presente na atividade. De repente surgiram meninos de várias direções, vestidos de preto, e iniciaram um ataque simulado àquele senhor,.Este por sua vez, fazia de tudo para defender-se dos intrusos. Nas costas dos meninos vestidos de preto, podia-se ler palavras como “ ódio”, “violência” , “ira” “mal”. Após alguns minutos cessa a luta, sem que os meninos de preto consiga destruir o homem com o globo terrestre. Em seguida entram em cena um grande grupo de crianças todos vestidos de preto, ao som de uma música de ritmo forte. Uns passos pra um lado e alguns para outro, todos tiram a blusa preta que estava sobre outra blusa branca, ao mesmo tempo em que a música mudava de ritmo, dando lugar a uma música mais calma. Dava-se ali a mudança de uma situação onde o bem, a paz era restabelecida e simbolizada na cor branca das blusas de cada participante da cena.
A realidade que ali se configurava, uma vez mais, de forma naturalizada, quase que de forma “inocente”, cumpria o seu papel ideológico. Atividades educacionais, inadvertidamente, servindo de veículo disseminador de uma formatação cultural, cuja concepção atenta contra a auto-estima da criança negra.
Como educadores, sabemos nós que uma criança aprende muito rápido à luz daquilo que presencia, sobretudo quando o que ele presencia é estimulado pelos seus professores em sala de aula e ou em atividades extra classe. A associação da cor preta com o ódio, a violência, o mal, a ira, naquela atividade, do ponto de vista pedagógico, não nos parece um caminho recomendado. Ao contrario, resulta em danos irreparáveis ao desenvolvimento infanto-juvenil. Nessa perspectiva se inscreve o diálogo de uma das crianças branca ,presente na atividade, em relação a outra criança negra, que com ela aplaudiu a cena que aqui referimos. “ você não deve ficar perto de mim, você representa o ódio”. Ao ouvir tal afirmação relatada pela criança negra, uma indignação muito grande tomou conta de mim. Entretanto, a indignação só nada resolve. Passei a refletir o que levou tal criança a fazer tal associação? Onde está o equívoco pedagógico? Que culpabilidade pode ter tal criança? O que se está ensinado a esses seres tão pequenos, tão inteligentes, que aprendem tão rápido? Os acontecimentos parecem indicativos de que o problema é muito maior do que aquilo que se revela. A associação do preto ao ódio,à violência, à raiva, ao mal, confunde e marca profundamente o processo de formação da personalidade de uma criança; e daí para a discriminação do ser humano em função da sua cor negra é um passo. Esse discernimento não pode estar ausente no processo de qualificação de educadores. Certamente, estes não refletiram, portanto, não se deram conta do que se passava em tais cenas aqui descritas, e muito menos colocaram, no universo de suas preocupações, as possíveis implicações na vida daquelas crianças que tais atividades poderiam acarretar.
Não sei de onde tiraram a compreensão de que o ódio é preto! Nem de onde vem o entendimento de que a raiva, a violência, o mal são pretos. Do mesmo modo, não ousaria afirmar que a paz é branca. Sou sabedor que no universo religioso cristão, a paz é simbolizada pela cor branca, e que o inferno é negro. Por muito tempo se ensinou que a alma é branca. Até existem os negros de alma branca - para dizer que existem negros bons. Essa equívoca associação da cor branca com aquilo que é bom e da cor preta com aquilo que é mau, tantos danos já causou à dignidade humana dos negros no mundo inteiro, e de modo particular no Brasil. Com base nessa compreensão, se criaram os estereótipos.
Os estereótipos, por sua vez, têm uma função importante no processo, uma vez que é através deles,em grande parte, que as ideologias são veiculadas nos materiais didáticos ...Os estereótipos geram os preconceitos, que se constituem em juízo prévio a uma ausência de real conhecimento do outro ( SILVA 2005)

Em virtude dos objetivos das atividades propostas pela escola, dentre elas, a construção da paz e de um mundo mais justo, talvez fosse interessante repensar sobre em que bases pensamos, enquanto educadores, construir tal mundo. Certamente elementos como reconhecimento do outro, do diferente; o respeito ao outro, ao diferente; o conviver com o outro, com o diferente; não poderiam ficar excluídos das pilastras de sustentação de um novo.
À luz das experiências e vivências mencionadas, constata-se que o desafio é muito grande e os esforços necessitam ser articulados. O preconceito, a discriminação é uma realidade que o processo educacional tem um papel preponderante na busca de suas superações. Para tanto, as observações propostas pela educadora Azoilda Trindade significam uma relevante contribuição.
...é importante, ao voltarmos como docentes para a temática das africanidades brasileiras, pensarmos na dimensão da didática e das práticas pedagógicas. Contudo, mais do que aprendermos conteúdos, precisamos mudar de mentalidade a cerca das questões das relações étnicas brasileiras, mudar nossas percepções e ações frente ao Ser Negro (TRINDADE, 2007, p. 18)

Uma nova cultura necessita ser engendrada na sociedade brasileira e a sala de aula é um espaço privilegiado para tal tarefa. Dai uma preocupação particular com a formação dos professores. O que esperar de um professor que não teve sequer oportunidade de discutir esses aspectos da sociedade brasileira em seu processo de formação?
Os cursos de licenciaturas, em sua maioria ainda não entenderam a relevância e a pertinência de conteúdos e práticas curriculares que envolvam os temas aqui apresentados.
...a abordagem das questões étnico-raciais na Educação básica depende muito da formação inicial dos profissionais da educação. Eles ainda precisam avançar para além dos discursos, ou seja, se por um lado, as pesquisas acadêmicas em torno da questão racial e educação são necessárias, precisam chegar à escola alternando antes o espaço de formação docente. (MONTEIRO, 2006, p.126)
Concluindo, longe, de querer ser o dono da verdade, no processo educacional, os desafios de aprender a cada dia com as novas experiências poderá ser enriquecedor para todos nós que sonhamos e buscamos um mundo mais justo, mais humano, mais irmão.

Referência Bibliográfica
MONTEIRO, Rosana Batista. Licenciaturas. In: CAVALLEIRO, Eliane. Valores civilizatórios - dimensões históricas para uma educação anti-racista. In: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Orientações e Ações para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Brasília: SECAD, 2006
SILVA, Ana Célia da. A Desconstrução da Discriminação no Livro Didático.In: MUNANGA, Kabenguele (org.) Superando o Racismo na Escola. Brasília: SECAD, 2005.
TRINDADE, Azoilda Loretto. O projeto político da/na escola: capilarizando a temática das africanidades brasileiras. Rio de Janeiro: CEAP, 2007.

Qual é a Sua Cor?

escrito por Jose Geraldo Rocha

Qual é a Sua Cor?

Eu negro? Virgem Maria moço! Negro eu? Deus me livre .Só me faltava essa! Como posso ser negro?- não sei - Eu não sou negro?- o que você acha? - Não sei, olhe pra mim. Eu sou assim... como é que se diz....você me entende ..- ah tá - . que cor eu sou? Cruz credo sô! Nunca tinha pensado nisso... mas por que você perguntou isso pra mim? - por perguntar - eu preciso responder? - seria bom- Deixa eu pensar um pouquinho... Bobagem essa. Que besteira sô! Que diferença faz ser negra ou qualquer outra cor? Ah mas você quer saber mesmo qual é a minha cor... uns me chamam de moreno, outros de mulato, de pardo, e alguns até me chamam de negro...sabe de uma coisa moço? Branco eu sei que não sou, mas sinceramente, sabe que não sei que cor eu sou. Meu Deus! Engraçado né! Agora veja eu não sei que cor eu sou. Como pode isso? - Sei não.- E se eu soubesse....o que iria mudar? Certamente nada. Meus cabelos continuariam assim.. duros, ruim, feios e rebeldes. Meu nariz continuaria chato. Ou ficaria fininho só por que eu sei minha cor moço? O senhor acha que o meu salário aumentaria por eu saber a minha cor? Ou que meu barraco na favela se transformaria numa casa num lugar chique? As pessoas passariam a me tratar diferente?

Sabe moço... tem horas que algumas perguntas não devem ser feitas. E o pior as respostas a essas perguntas, quando somos obrigados, aumentam a nossa dor!

Responder uma pergunta como essa exige pensar muito, exige consciência. E tem momentos que é melhor fingir moço. Fingir que não se sabe, que não se tem consciência e continuar vivendo na ilusão... o senhor tá me entendendo? Fingir já faz parte da minha forma de resistir, da minha vida. Tantos fingem que eu não existo, que eu não tenho direitos, que eu sou isso, que sou aquilo... Vivemos num mundo de muito fingimento moço. Fingir minha cor é apenas mais um fingimento entre tantos fingimentos que nos trazem tanta dor.

José Geraldo da Rocha

Para Refletir Sobre as Diferenças

escrito por Jose Geraldo Rocha

O objetivo da contribuição aqui apresentada é impulsionar no meio estudantil o debate sobre as diferenças. Os fatos apresentados visam sua leitura em sala e a partir daí suscitar trocas de opiniões dos estudantes em relação às atitudes e encaminhamentos por parte dos “atores” presentes no texto.

Primeiro fato:

Numa sala de aula da 4ª série do ensino básico , Antonia, 10 anos, discute com Isabel, 9 anos. Isabel chama Antonia de negra feia e macaca. Antonia furiosa, dá um tapa no rosto de Isabel e dá inicio a uma briga acalorada. A professora Clarice separa a briga e leva as duas meninas para a sala da diretora Ana. Após alguns minutos de conversa, a diretora manda chamar à escola os pais das duas meninas. Na conversa com os pais, Rafael e Lia, pais de Isabel ficam exaltados e dizem: “ vamos tirar nossa filha dessa escola de favelados e pretos, esse povo barraqueiro, aqui não é mesmo lugar para nossa filha freqüentar” Os pais de Antonia, Julio e Margaret tentam argumentar que são coisas de crianças e isso está relacionado a um problema maior na sociedade. Em vão! Rafael e Lia saem da reunião e sentenciam: “ nossa filha não põe mais os pés nessa escola.

Segundo fato:

Um dia, Alice, 21 anos, fala aos seus familiares que gostaria de fazer um almoço especial e que teria uma decisão muito importante para partilhar com todos. Na hora combinada chega Alice com uma amiga. “ Pessoal essa é a Rebeca , minha companheira e nós decidimos que vamos viver juntas”. Naquele momento houve um silêncio profundo. Após alguns instantes o pai disse: “ Não criei filha minha para essa safadeza, de hoje em diante não tenho mais filha, sai dessa casa e não põe mais os pés aqui” . A mãe , sem palavras abraça a filha e chora copiosamente. O irmão, homem religioso, diz “ você está possuída! Isso é coisa do demônio” e sai da sala. A irmã mais nova após instantes opina: “ olha Alice, a vida é sua, faça dela o que for melhor pra você. Siba que pode contar comigo para o que precisar”.
Acaba a reunião, Alice e Rebeca se abraçam e seguem seus caminhos.

José Geraldo da Rocha

Educar para o reconhecimento do direito à diferença

escrito por Angela Maria Roberti Martins , escrito por Jose Geraldo Rocha

O artigo é fruto das reflexões que vem sendo desenvolvidas na pesquisa: “Discriminação e Intolerância Religiosa nos Terreiros do Rio de Janeiro”, cujos objetivos são identificar como é percebida e sentida a discriminação e a intolerância religiosa, por seus praticantes, bem como buscar estratégias coletivas de superação da mesma.

Somos um povo caracterizado pela pluralidade cultural subjacente à raiz do nosso processo de formação.É histórico a constatação do quão longe tem ficado no processo educacional os elementos que destoam da matriz cultural dominante, além dos equívocos nas formas de abordagens que são feitas de aspetos relevantes das matrizes culturais dos povos “dominados”.

A educação é um campo com seqüelas profundas de racismo, pra não dizer, um veículo de comunicação da ideologia racial branca. Quase nada aprendemos em nossa passagem pela sala de aula sobre contribuições, valores, história e realidades relacionadas ao negro no Brasil. Essa constatação não é feita no ensino básico, e estende-se até nas instâncias de preparação dos educadores, no ensino superior

.O processo educacional na história do Brasil tem, sistematicamente, privilegiado a população branca em detrimento dos afro-brasileiros. A história do Brasil é construída com base no trabalho escravo. Os negros em um período de 350 anos garantiram aos brancos escravocratas as bases sócio-econômicas para o desenvolvimento, inclusive no campo da educação.

No pós abolição aos negros, dentre tantas proibições, o acesso à educação se constituiu em um dos maiores e mais perverso mecanismo de exclusão social, cujas conseqüências chegam até nossos dias. A restrição dos negros à educação na historia do Brasil vem desde 1854 quando o Decreto 1.331 de 17 de fevereiro impedia aos escravos o acesso à educação nas escolas publicas. Já no Decreto 7.031 de 6 de setembro de 1878 restringia ao horário noturno a presença dos negros nas escolas.

A diversidade é uma marca da sociedade brasileira, contempla-la necessariamente passará por reflexões profundas de como estão estruturadas a práticas do racismo na vida da sociedade brasileira, bem como que estratégias utilizarem para superá-las. As marcas das culturas de matrizes africanas na sociedade brasileira é uma realidade que em pleno século XXI encontram profundos desafios no tocante a sua compreensão, reconhecimento, respeitabilidade e aceitabilidade social. No modo de organização da sociedade brasileira a comunidade afro-brasileira ocupa os piores lugares em todos os aspectos da vida social.

No aspecto religioso, a fé professada a partir dos elementos da africanidade, tem sido concebida pela cultura dominante como uma prática primitiva, agressiva aos “bons costumes” e não raro, associada à coisas do demônio. Os danos causados por essa concepção, presente até os dias atuais na cultura brasileira são incontestáveis.Na contemporaneidade estamos presenciando o aumento da intolerância religiosa em determinados segmentos sociais.O direito à liberdade religiosa é uma condição, uma exigência, um pré-requisito, para o exercício da democracia e , consequentemente, da cidadania.

A ignorância, os preconceitos, acabam atuando como elementos que vão dar sustentação às práticas do desrespeito à diversidade cultural e religiosa presentes no cotidiano de fé da sociedade brasileira.O entendimento entre as diferentes religiões é exigência para a convivência digna entre os povos, entre as culturas, entre as nações e entre os cidadãos. Nessa perspectiva, é notório os esforços que vem sendo realizados no mundo inteiro buscando encontrar formas de superação da intolerância religiosa. No Brasil, esses esforços ganharam maior impulso a partir das deliberações da Conferencia Mundial de Durban,-África do Sul - 2001, onde tal temática ocupou espaço de destaque na agenda da Conferência.Os aspectos relativos à dimensão religiosa no processo de formação para o exercício da cidadania têm se colocado como desafiadores no universo da educação na contemporaneidade.

O crescimento da intolerância religiosa tem causado danos à dignidade das pessoas do segmento afro-brasileiro. Nos últimos meses, no Brasil em geral, e no Rio de Janeiro, em particular, vem acontecendo diversos atos de intolerância dirigidos aos praticantes das religiões de matrizes africanas, sendo o episódio mais conhecido a invasão e depredação do Centro Espírita Cruz de Oxalá, situado no Catete. Como repúdio, tem sido comum manifestações de protesto como caminhadas em defesa da liberdade religiosa, fóruns de debates sobre intolerância religiosa e a organização de seminários que discutem a relação entre Estado e religião.Com relação aos procedimentos metodológicos são utilizados, como instrumentos, a observação, o questionário uniformizado e a entrevista semi-estruturada

José Geraldo da Rocha e
Angela Maria Roberti Martins

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