Fórum Social Mundial: o que mudou de 2001 para 2014?

escrito por Marco Aurélio Weissheimer

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Treze anos depois da primeira edição do Fórum, Porto Alegre voltará a ser palco desse debate. A conjuntura não é a mesma, o mundo mudou, mas não muito. A construção de outro tipo de globalização, diferente desta regida pelo capital financeiro, segue uma tarefa em aberto.

O Fórum Social Temático, que será realizado em Porto Alegre de 21 a 26 de janeiro, será uma oportunidade para, entre outras coisas, se fazer um balanço dos treze anos de trajetória do Fórum Social Mundial. O objetivo do fórum temático não é exatamente este. Mas o próprio tema geral proposto para discussão, “Crise capitalista, democracia, justiça social e ambiental” exige um olhar sobre o que foi feito neste período, tanto do ponto de vista da crítica quanto do da produção de alternativas. Após mais de uma década qual é o balanço das organizações que promovem o processo FSM sobe a crise do capitalismo, a situação da democracia no mundo e a justiça social e ambiental? Melhorou ou piorou? Onde melhorou e onde piorou? Quais são os principais desafios do tempo presente?

Na avaliação dos organizadores do Fórum Social Temático de Porto Alegre, a crise da economia mundial e a crise da representação política ameaçam a democracia. A nota convocatória do encontro afirma:

“A crise internacional do sistema capitalista chega ao seu auge com a desestruturação das economias dos países europeus e norte-americanos e da retirada constante de direitos sociais de seus trabalhadores e trabalhadoras. Como parte deste processo de crise mundial há uma profunda crítica à capacidade de representação dos anseios políticos por parte dos partidos, inclusive dos partidos de esquerda. Este dois fatores colocam a sociedade civil internacional em alerta para possíveis retrocessos da agenda democrática mundial. A crise política e social não se arrefeceu desde 2012, justamente por isso, é fundamental refletirmos sobre o mundo que queremos”.

Diferentemente da conjuntura de 2001, quando o FSM nasceu, a Europa é que vive hoje os efeitos mais dramáticos dessa crise. Alguns países, como a Grécia, vivem uma situação de catástrofe social que coloca o mundo inteiro frente a uma situação muito perigosa. Quando houve a primeira grande depressão, nos anos 30, ela produziu o fascismo, o nazismo e a guerra. Há autores que acreditam que estamos começando a viver uma segunda grande depressão. Em alguns países, como Portugal, Grécia e outros, estamos no nono trimestre de recessão, no terceiro ano consecutivo de recessão. Estamos, portanto, diante de um quadro perigosíssimo do ponto de vista social e político.

Participante regular do Fórum Social Mundial, o economista português Francisco Louçã, dirigente político do Bloco de Esquerda, considera que a tarefa central para a esquerda hoje, principalmente na Europa, é lutar contra o capital financeiro e contra a lógica que transformou a dívida soberana de países em elemento de acumulação de capital. A esquerda, defendeu Louçã em recente conferência realizada em Porto Alegre, precisa saber que o seu eixo estratégico é atacar o sistema financeiro:

“O sistema financeiro gera a dívida não só como uma forma de exploração clássica do trabalho, mas como uma forma transversal de criar, sobre toda sociedade, uma noção de culpa, de culpa do país, da população, uma noção de subordinação. Há um texto da juventude de Marx, “Banca e crédito”, em que ele diz que a relação entre devedor e credor é a forma mais violenta de alienação, porque representa a coisificação da pessoa como dinheiro. Creio que estamos caminhando neste sentido”.

Grécia e Portugal são dois países que sofrem com essa realidade. Nos dois casos, o resultado da aplicação do receituário da chamada troika (FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu) é uma catástrofe social. A austeridade foi aplicada por meio de um grande aumento dos impostos sobre o trabalho e, sobretudo, pela via da redução do apoio social aos desempregados, do investimento público na saúde, da degradação da escola pública. Na Grécia, o desemprego entre os jovens já ultrapassa os 50%; em Portugal, ultrapassa os 40%. E é preciso considerar também que na outra metade, entre os jovens que estão conseguindo trabalhar, mais de 60% estão em empregos totalmente precários. É um trabalho muito mal pago e por períodos muito curtos.

O desemprego geral na Grécia, na Espanha e em Portugal atingiu um recorde histórico em 2013. Mas o efeito conjugado dessas políticas atinge também países como a Itália. Considerando apenas Itália e Espanha já temos aí duas das maiores economias do mundo. A Itália e a Espanha, junto com outros países periféricos como Grécia, Irlanda e Portugal, representam juntos cerca de 6% do produto mundial, o que é um peso enorme, com efeitos muito grandes sobre a União Europeia.

Em uma conferência realizada na primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001, Louçã defendeu que a esquerda precisava ter ideias fortes para combater o neoliberalismo. Para ele, em 2014, essas ideias fortes estão ligadas à luta contra o sistema financeiro. “A questão decisiva no curto prazo é o combate à dívida. Creio que aí a esquerda precisa de ideias muito fortes. Ela precisa saber que o seu eixo estratégico é atacar o sistema financeiro”, defende.

A posição defendida por Louçã dialoga diretamente com a advertência feita pelos organizadores do Fórum Social Temático 2014 sobre as ameaças que pairam sobre a democracia em todo o mundo. Ele afirma:

“O sistema financeiro internacional tem a particularidade de estar totalmente protegido da democracia. Os governos podem ser substituídos, sob a condição de que, qualquer governo, obedeça ao sistema financeiro, cobrando de seu povo o custo da dívida crescente. O ponto mais forte da ideia que a esquerda deve defender é a recuperação da soberania da democracia como capacidade de decisão sobre o tempo. A dívida não é só exploração, mas também significa retirar das pessoas a possibilidade de escolher o tempo, de viver o futuro. Não há futuro quando a dívida determina toda a política de uma sociedade, quando determina o empobrecimento de uma sociedade. O rastro de destruição que esse capital está deixando tem como ponto de apoio a certeza de que é imune à democracia”.

Treze anos depois da primeira edição do Fórum, Porto Alegre voltará a ser palco desse debate. A conjuntura não é a mesma, o mundo mudou, mas não muito. A construção de outro tipo de globalização, diferente desta regida pelo capital financeiro, segue uma tarefa em aberto.

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Os dois 11 de setembro

escrito por Marco Aurélio Weissheimer

O mundo se tornou um lugar mais seguro, dez anos depois dos atentados de 11 de setembro e da “guerra ao terror” promovida pelos Estados Unidos para se vingar do ataque?

A matemática macabra do 11 de setembro

A resposta dos EUA ao ataque contra o World Trade Center engendrou duas novas guerras e uma contabilidade macabra. Para vingar as mais de 2.900 vítimas do ataque, algumas centenas de milhares de pessoas foram mortas. Para cada vítima do 11 de setembro, algumas dezenas (na estatística mais conservadora) ou centenas de pessoas perderam suas vidas. Mas essa história não se resume a mortes. A invasão do Iraque rendeu bilhões de dólares a empresas norteamericanas. Essa matemática macabra aparece também no 11 de setembro de 1973. O golpe de Pinochet provocou 40 mil vítimas e gordos lucros para os amigos do ditador e para ele próprio: US$ 27 milhões, só em contas secretas.

O mundo se tornou um lugar mais seguro, dez anos depois dos atentados de 11 de setembro e da “guerra ao terror” promovida pelos Estados Unidos para se vingar do ataque? A resposta de Washington ao ataque contra o World Trade Center e o Pentágono engendrou duas novas guerras – no Iraque e no Afeganistão – e uma contabilidade macabra. Para vingar as mais de 2.900 vítimas do ataque, mais de 900 mil pessoas já teriam perdido suas vidas até hoje. Os números são do site Unknown News, que fornece uma estatística detalhada do número de mortos nas guerras nos dois países, distinguindo vítimas civis de militares. A organização Iraq Body Count, que usa uma metodologia diferente, tem uma estatística mais conservadora em relação ao Iraque: 111.937 civis mortos somente no Iraque.

Seja como for, a matemática da vingança é assustadora: para cada vítima do 11 de setembro, algumas dezenas (na estatística mais conservadora) ou centenas de pessoas perderam suas vidas. Em qualquer um dos casos, a reação aos atentados supera de longe a prática adotada pelo exército nazista nos territórios ocupados durante a Segunda Guerra Mundial: executar dez civis para cada soldado alemão morto. Na madrugada do dia 2 de maio, quando anunciou oficialmente que Osama Bin Laden tinha sido morto, no Paquistão, por um comando especial dos Estados Unidos, o presidente Barack Obama afirmou que a justiça tinha sido feita. O conceito de justiça aplicado aqui torna a Lei do Talião um instrumento conservadora. As palavras do presidente Obama foram as seguintes:

"Foi feita justiça. Nesta noite, tenho condições de dizer aos americanos e ao mundo que os Estados Unidos conduziram uma operação que matou Osama Bin Laden, o líder da Al Qaeda e terrorista responsável pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças."

O conceito de justiça usado por Obama autoriza, portanto, a que iraquianos e afegãos lancem ataques contra os responsáveis pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças. E provoquem outras milhares de mortes. E assim por diante até que não haja mais ninguém para ser morto. A superação da Lei do Talião, cabe lembrar, foi considerada um avanço civilizatório justamente por colocar um fim neste ciclo perpétuo de morte e vingança. A ideia é que a justiça tem que ser um pouco mais do que isso.

Nem tudo é dor e sofrimento

Mas a história dos dez anos do 11 de setembro não se resume a mortes, dores e sofrimentos. Há a história dos lucros também. Gordos lucros. Uma ótima crônica dessa história é o documentário “Iraque à venda. Os lucros da guerra”, de Robert Greenwald (2006), que mostra como a invasão do Iraque deu lugar à guerra mais privatizada da história: serviços de alimentação, escritório, lavanderia, transporte, segurança privada, engenharia, construção, logística, treinamento policial, vigilância aérea...a lista é longa. O segundo maior contingente de soldados, após as tropas do exército dos EUA, foi formado por 20 mil militares privados. Greenwald baseia-se nas investigações realizadas pelo deputado Henry Waxman que dirigiu uma Comissão de Investigação sobre o gasto público no Iraque.

Parte dessa história é bem conhecida. A Halliburton, ligada ao então vice-presidente Dick Cheney, recebeu cerca de US$ 13,6 bilhões para “trabalhos de reconstrução e apoio às tropas. A Parsons ganhou US$ 5,3 bilhões em sérvios de engenharia e construção. A Dyn Corp. faturou US$ 1,9 bilhões com o treinamento de policias. A Blackwater abocanhou US$ 21 milhões, somente com o serviço de segurança privada do então “pró-Cônsul” dos EUA no Iraque, Paul Bremer. Essa lista também é extensa e os números reais envolvidos nestes negócios até hoje não são bem conhecidos. A indústria da “reconstrução” do Iraque foi alimentada com muito sangue, de várias nacionalidades. Os soldados norte-americanos entraram com sua quota. Até 1° de setembro deste ano, o número de vítimas fatais entre os militares dos EUA é quase o dobro do de vítimas do 11 de setembro: 4.474. Somando os soldados mortos no Afeganistão, esse número chega a 6.200.

A matemática macabra envolvendo o 11 de setembro e os Estados Unidos manifesta-se mais uma vez quando voltamos a 1973, quando Washington apoiou ativamente o golpe militar que derrubou e assassinou o presidente do Chile, Salvador Allende. Em agosto deste ano, o governo chileno anunciou uma nova estatística de vítimas da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990): entre vítimas de tortura, desaparecidos e mortos, 40 mil pessoas, 14 vezes mais do que o número de vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Relembrando as palavras do presidente Obama e seu peculiar conceito de justiça, os chilenos estariam autorizados a caçar e matar os responsáveis pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças.

Assim como no Iraque, nem tudo foi morte, dor e sofrimento na ditadura chilena. Com a chancela da Casa Branca e a inspiração do economista Milton Friedman e seus Chicago Boy’s, Pinochet garantiu gordos lucros para seus aliados e para si mesmo também. Investigadores internacionais revelaram, em 2004, que Pinochet movimentava, desde 1994, contas secretas em bancos do exterior no valor de até US$ 27 milhões. Segundo um relatório de uma comissão do Senado dos EUA, divulgado em 2005, Pinochet manteve elos profundos com organismos financeiros norte-americanos, como o Riggs Bank, uma instituição de Washington, além de outras oito que operavam nos EUA e em outros países. Segundo o mesmo relatório, o Riggs Bank e o Citigroup mantiveram laços com o ditador chileno durante duas décadas pelo menos. Pinochet, amigos e familiares mantiveram pelo menos US$ 9 milhões em contas secretas nestes bancos.

Em 2006, o general Manuel Contreras, que chefiou a Dina, polícia secreta chilena, durante a ditadura, acusou Pinochet e o filho deste, Marco Antonio, de envolvimento na produção clandestina de armas químicas e biológicas e no tráfico de cocaína. Segundo Contreras, boa parte da fortuna de Pinochet veio daí.

Liberdade, Justiça, Segurança: essas foram algumas das principais palavras que justificaram essas políticas. O modelo imposto por Pinochet no Chile era apontado como modelo para a América Latina. Os Estados Unidos seguem se apresentando como guardiões da liberdade e da democracia. E pessoas seguem sendo mortas diariamente no Iraque e no Afeganistão para saciar uma sede que há muito tempo deixou de ser de vingança.

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Imprensa silencia sobre fossa com milhares de corpos na Colômbia

escrito por Marco Aurélio Weissheimer

Em uma audiência pública realizada dia 22 de julho – mesmo dia que o agora ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, solicitou uma reunião de urgência da Organização de Estados Americanos (OEA) para denunciar a Venezuela – uma delegação internacional composta por 10 dirigentes sindicais, 6 membros do Parlamento europeu, 3 membros do Parlamento britânico, 3 delegados da Espanha e 2 dos Estados Unidos testemunharam a existência da gigantesca fossa comum encontrada no povoado de Macarena, no Departamento de Meta, Colômbia. Trata-se da maior fossa comum da história recente da América Latina, com aproximadamente 2.000 cadáveres. O assunto vem sendo praticamente ignorado pela imprensa brasileira e internacional. Imaginem se fosse na Venezuela ou na Bolívia…

O secretário do Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos da Colômbia, Jairo Ramírez, descreveu assim o que testemunhou: “O que vimos foi de arrepiar, uma infinidade de corpos e na superfície centenas de placas de madeira de cor branca com a inscrição NN e com datas que vem desde 2005 até hoje”. Segundo Ramírez, o comandante do Exército colombiano disse que os corpos eram de guerrilheiros mortos em combate, mas moradores da região garantem que, entre os mortos, estão líderes sociais, comunitários e camponeses que desapareceram sem deixar rastro. Já há na Colômbia um movimento para denunciar Álvaro Uribe ao Tribunal Penal Internacional pela prática de crimes contra a humanidade.

Ver online : Imagens no blog RS Urgente, de Marco Weissheimer

Fórum Social Mundial amplia debate e quer ação global contra guerra

escrito por Marco Aurélio Weissheimer

Fórum Social Mundial amplia debate e quer ação global contra guerra

Marco Aurélio Weissheimer, Agência Carta Maior

A pauta e a agenda dos fóruns regionais e temáticos que serão realizados nos próximos meses estarão intimamente ligadas à evolução da conjuntura internacional. As mudanças organizativas e metodológicas introduzidas no FSM 2003 pretendem ampliar a capacidade de intervenção do movimento nesse cenário.

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O tema da guerra será uma pauta central desses encontros. A iminente ofensiva dos Estados Unidos contra o Iraque pode originar um novo cenário mundial de contornos ainda imprevisíveis. No Fórum Social Europeu, em Florença, deverá ser organizada uma grande manifestação contra a guerra como opção para enfrentar o problema do terrorismo.

O III Fórum Social Mundial, que será realizado de 23 a 28 de janeiro, em Porto Alegre, pretende estender e consolidar o processo de mundialização do movimento que luta por uma globalização solidária e por um novo patamar na relação político-econômica entre as nações. No momento em que o mundo enfrenta a ameaça de uma nova guerra, de proporções imprevisíveis, o FSM quer também denunciar o processo crescente de militarização da agenda política global, especialmente a partir da divulgação da nova doutrina Bush. Através dela, o governo dos Estados Unidos quer firmar sua posição como polícia do mundo e legitimar seu direito de agir unilateralmente em qualquer parte do planeta sempre que julgar que seus interesses estão ameaçados.

Durante o lançamento do FSM 2003, realizado dia 23 de setembro em Porto Alegre, os organizadores do Fórum apresentaram os objetivos estratégicos do encontro e as novidades que serão introduzidas em sua terceira edição. A expectativa é que o número de participantes em 2003 gire em torno de 100 mil, contra 60 mil em 2002 e 20 mil em 2001. A terceira edição do FSM terá novidades em relação aos eventos anteriores. O Conselho Internacional do Fórum aprovou uma proposta de organização com cinco eixos temáticos ao invés de quatro. Para cada eixo serão organizados múltiplos painéis, além de conferências. Cada eixo será dividido em cerca de seis sub-temas. Além dos painéis e conferências, o FSM de Porto Alegre contará com inúmeras outras atividades, como oficinas, seminários, mesas de controvérsias, testemunhos, atividades culturais, o acampamento da juventude, coletivas de imprensa, entre outras iniciativas auto-organizadas pelos próprios participantes.

Os eixos temáticos

O Conselho Internacional definiu cinco eixos temáticos para o FSM 2003. Cada eixo é concebido como um catalisador de preocupações, propostas e estratégias que já são desenvolvidas pelas organizações participantes do processo Fórum Social Mundial. Os cinco eixos temáticos são:

1. Desenvolvimento democrático e sustentável
2. Princípios e valores, direitos humanos, diversidade e igualdade
3. Mídia, cultura e contra-hegemonia
4. Poder político, sociedade civil e democracia
5. Ordem mundial democrática, luta contra a guerra e pela paz

Conferências e painéis

Em torno de cada eixo temático será organizada pelo menos uma grande conferência. As conferências têm a finalidade de socializar visões e análises para o grande público do FSM. Elas devem contribuir para o fortalecimento de um amplo movimento de opinião voltado para a urgência de construir “outros mundos” diante das ameaças e limites da globalização econômico-financeira do neoliberalismo. Os painéis, estruturados por eixos temáticos, representam o mapa das ações e a face pública do FSM, como encontro da sociedade civil mundial. Neles, serão explicitadas as grandes questões, propostas e estratégias de luta para mudar o atual modelo de globalização e começar a criar outros cenários globais.

Além das conferências e painéis, o FSM contará mais uma vez com um espaço para testemunhos. Os testemunhos são depoimentos de personalidades - ou grupos de pessoas que atuam numa mesma área - cujas trajetórias exemplares de vida e ação em defesa da liberdade e da dignidade humana apontam caminhos para um novo mundo. Eles foram concebidos como uma forma de valorizar o patrimônio político-cultural do campo das entidades, organizações e movimentos que constroem o FSM.

Mesas de diálogo e controvérsia

Uma das principais novidades do FSM 2003 serão as mesas de diálogo e controvérsia, um espaço destinado a confrontar visões e propostas de delegados com convidados de partidos políticos, governos e organizações da ONU. O Conselho Internacional do Fórum pretende eleger questões polêmicas em que o estabelecimento do diálogo e da controvérsia, segundo regras previamente acertadas, possa ser útil na construção de propostas e estratégias do movimento.

O Fórum também contará com seminários e oficinas sobre temas relacionados aos conteúdos dos cinco eixos temáticos. As oficinas são atividades propostas pelas entidades que participam do FSM com delegados. Elas funcionam como uma espécie de fábrica do Fórum e têm a finalidade de permitir o encontro, a troca de experiências, a articulação e a definição de estratégias de grupos, redes, movimentos e organizações.

Fóruns Sociais pelo Mundo

Desde a primeira edição do FSM, seus organizadores trabalham para ampliar o movimento para outros continentes. A partir deste ano, esse processo começa a apresentar resultados concretos. Em Porto Alegre, haverá um espaço reservado para os debates sobre os Fóruns Regionais e Temáticos. Serão organizadas atividades para que os diferentes Fóruns Sociais que serão realizados antes do encontro de Porto Alegre possam se manifestar. A idéia é dar visibilidade ao processo de mundialização do FSM, respeitando a autonomia, características e dinâmica específica de cada Fórum realizado.

Além do Fórum Social Temático Argentina, realizado de 22 a 25 de agosto em Buenos Aires, estão programados os seguintes fóruns regionais:

Fórum Social Europeu - 7 a 10 de novembro, em Florença (Itália)
Fórum Social Asiático - 2 a 7 de janeiro de 2003, em Hyderabad (Índia)
Fórum Social Pan-Amazônico - 16 a 19 de janeiro de 2003, em Belém (Brasil)
Fórum Social Mediterrâneo - final de novembro de 2003, na Espanha
Fórum Social Pan-Americano - outubro de 2003 (data e local a confirmar)
Fórum Social Temático Palestina - Está previsto um encontro preparatório em Chipre (a confirmar).

O tema da guerra será uma pauta central desses encontros. A iminente ofensiva dos Estados Unidos contra o Iraque pode originar um novo cenário mundial de contornos ainda imprevisíveis. No Fórum Social Europeu, em Florença, deverá ser organizada uma grande manifestação contra a guerra como opção para enfrentar o problema do terrorismo. O mesmo deverá ocorrer no Fórum Asiático e no Fórum da Palestina, ainda em fase de organização. A crescente ameaça de escalada dos conflitos militares acabou colocando os temas da guerra e da paz no centro da agenda política do Fórum Social Mundial. A luta por um “outro mundo” adquire, assim, um primeiro objetivo concreto: a denúncia das políticas militaristas e a busca de soluções pacíficas e negociadas para os conflitos entre as nações. Assim, a pauta e a agenda dos fóruns que serão realizados nos próximos meses estarão intimamente ligadas à evolução da conjuntura internacional. As mudanças organizativas e metodológicas introduzidas no FSM 2003 pretendem ampliar a capacidade de intervenção do movimento nesse cenário.

Marco Aurélio Weissheimer é correspondente da Agência Carta Maior em Porto Alegre.

[Artigo tirado da sección ’perspectivas’ de ’Agência Carta Maior’]

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