Memórias e trajetórias diaspóricas

Foto: Juan Castro

Dedicado à mulher africana, o dia 31 de julho, é uma data simbólica para a visibilidade das mulheres negras. A data foi escolhida para comemorar o 25 de julho, dia da mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, com bonita homenagem a brasileiras que assumiram destaque no cenário carioca das lutas afirmativas femininas e Afro-brasileiras.

Reunidas em cerimônia organizada por Lelette Coutto, coordenadora da Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - CEPPIR/RJ, receberam homenagens a escritora Conceição Evaristo, a trabalhadora doméstica e sindicalista Carlí Maria dos Santos, a economista Elma Aleluia, a atriz Léa Garcia, a professora doutora Helena Theodoro e a porta bandeira Dodô da Portela.

A noite foi aberta com uma homenagem para a professora Dulce Vasconcellos, presidente COMDEDINE e protagonista de ações decisivas para o início e continuidade das ações afirmativas realizadas no Rio de Janeiro. A seguir, a rapper Refem - Revolta Feminina (Janaína de Oliveira) assumiu a condução da cerimônia. Representante da nova geração de mulheres negras atuantes na cultura carioca, a apresentadora falou da emoção em estar ao lado de precursoras de antigas lutas que atravessam a trajetória de mulheres negras de diferentes gerações.

Sob aplausos, as homenageadas foram chamadas para compor a mesa e convidadas a falar das experiências marcantes presentes em suas trajetórias. O primeiro depoimento veio da eterna porta bandeira Dodô da Portela, figura histórica do carnaval carioca, que resgatou fatos marcantes em suas nove décadas de vida, oito dedicadas aos desfiles de escola de samba. Com invejável memória, Dodô resgatou detalhes de sua chegada à Portela, seu encontro com o fundador da escola, Paulo da Portela e características dos primeiros desfiles. Cheia de humor, falou de seu aprendizado autodidata, lembrando que bailava com o cabo de vassoura e quebrava as coisas em casa. Ressaltou, ainda, que era preciso rezar um terço para que sua mãe, uma lavadeira muito católica, permitisse sua ida aos ensaios na quadra da escola em Oswaldo Cruz. Na sequência, foi a vez da atriz Léa Garcia, cuja fala foi iniciada por uma reverência à presença da mais antiga Dodô, a quem a atriz viu desfilar várias vezes na Praça XI. Dentre os desfiles assistidos, Léa recordou aquele em que a agremiação de Madureira entrou na avenida silenciosa quando da morte de Paulo da Portela. Para Léa, o riso das homenageadas e da plateia diante dessas histórias é provocado por lembranças vindas à tona com semelhanças nas trajetórias femininas. Revisitando o passado, Léa recorda as expectativas de sua família de classe média, residente em Copacabana, que desejava que ela fosse contadora. Porém, após o encontro com Abdias Nascimento e contato com o Teatro Experimental do Negro, se afastou de seu desejo de ser escritora e da intenção do pai em ter uma filha contadora. Nos anos de 1950 sua carreira artística foi iniciada na dança, com Mercedes Baptista, no espetáculo Rapsódia Negra. Nesse período as convicções ideológicas e artísticas, recebidas de Abdias, foram decisivas para abraçar a carreira de atriz. Em momento emocionado e emocionante, a atriz enaltece a presença de Abdias em sua vida profissional e pessoal, destacando o pai de seus filhos como grande incentivador, seu grande amigo e um grande homem. Refletindo sobre a vida profissional ela pontuou a longevidade da carreira de atriz, na qual existem oportunidades em cada faixa etária, e manifestou seu desejo de continuidade nessa carreira e sua disposição em amadurecer trabalhos que já realiza como roteirista. Léa finalizou associando seu trabalho a um permanente interesse de trazer a figura do negro para o protagonismo na mídia, buscando, assim, uma sociedade mais justa e igualitária.

Atuando em ações do terceiro setor, Elma Aleluia falou do trabalho com crianças de baixa renda, realizado na comunidade carioca do Vidigal. Compartilha com a plateia a experiência de, como tantas brasileiras, ingressar na vida profissional após cumprir a tarefa de criar os filhos. Em sua fala engajada, Elma encoraja as realizações femininas afirmando que “não importa a idade que você tenha, importa o que você quer fazer” e usa como exemplo de êxito seu trabalho social, nascido de sua vontade em atuar na melhoria das condições de vida de crianças do Vidigal, comunidade onde nasceu e cresceu seu marido, hoje doutor pela COPPE. Aprendendo na prática, o casal tocou a instituição que hoje atende 303 crianças, oferecendo balé clássico, curso de inglês e outras atividades que ajudam na formação saudável. Um dos resultados do projeto foi a conquista de bolsas de estudos para ingresso de jovens em universidades, cursos de inglês e espanhol. Agradecendo a homenagem Elma ressaltou que “nós mulheres, somos valorosas, podemos fazer muito mais” e afirmou que sua experiência fortaleceu a convicção de que “só a educação transforma as nossas vidas.”

A quarta fala da noite foi de Conceição Evaristo. A escritora e poetisa enfatizou sua emoção diante de todas as histórias ouvidas, observando que todas as falas tinham a ver com sua história, e ressaltando que as semelhanças se devem ao “fato de sermos mulheres negras e de termos uma resistência muito grande”. Pensando a trajetória das mulheres negras em diferentes frentes de trabalho, a professora aposentada disse que “é muito bom perceber que, apesar da dificuldade que temos, somos muito fiéis. Que apesar da dificuldade, nada nos derruba. É bom dizer que nosso trabalho deu fruto. Quando a gente volta do COPENE (Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as), e vê a quantidade de mulheres negras, meninas, que estão aí... Isso prova que nosso trabalho tem efeito e que nos dá mais coragem para continuar. Minha escrevivência faz parte da minha experiência com mulheres negras.”

Professora pioneira na inserção do carnaval no universo acadêmico, Helena Theodoro falou do orgulho de estar entre mulheres que admira. Também escritora, Helena reverenciou o legado cultural herdado de seus pais que a levavam a espaços de cultura erudita e popular. Desse contato nasceu a admiração por Lea, Abdias, Dodô e outras figuras notáveis da cultura brasileira. Helena relembrou as lições recebidas do pai, um comunista que frisava sempre que era preciso batalhar para que todos tenham oportunidades, transmitindo à jovem a responsabilidade de aproveitar a oportunidade de adquirir uma bagagem cultural e formação raras aos negros. As palavras de Helena sintetizam seu sentimento nesta noite de homenagens: “a única coisa que a gente leva é o que a gente viveu. A minha relação com minha família foi muito importante e fico feliz de estar nessa família de mulheres. Estou colocando o carnaval dentro da perspectiva acadêmica para provar que esses saberes tem espaço de valorização. Os jovens podem encontrar apoio e inspiração nessas mulheres que estão aqui. Agradeço a Deus por poder ler e estar com vocês e ao lado de Conceição Evaristo.”

A fala final refletiu a simplicidade e poder de superação de Carlí Maria dos Santos, a dirigente do sindicato municipal das trabalhadoras domésticas do Rio de Janeiro. Após uma reverência à elegância de Dodô, Carlí lembrou que ao chegar ao Rio, aos doze anos, visitou a Portela e ficou impressionada com damas do samba que nunca saíram de sua memória. Ainda menor, aos 10 anos de idade, Carli começou a trabalhar como domética no interior do Rio de Janeiro. O início precoce do trabalho impediu seus estudos, aos quais deu continuidade depois de adulta e após muitos anos de trabalho na casa de uma mesma família na cidade do Rio. Seu trabalho de militância teve início quando passou a participar de um grupo de domésticas da igreja católica, onde teve acesso a um curso de alfabetização. Ela revela que foi preciso enfrentar a patroa para ter horas livres e garantir seu direito de acesso a educação. Teve início aí um processo de conscientização sobre seus direitos e sua humanidade. Deixou a casa dessa patroa, arrumou trabalho doméstico em melhores condições, entrou no movimento sindical e desenvolveu uma caminhada na Associação das domésticas, chegando à presidência em 2003. Carlí ressalta sua alegria diante do crescimento na militância e participação nas gestões que colaboraram com a evolução da associação para sindicato. Atualmente aposentada, considera necessário permanecer orientando as mulheres que chegam ao sindicato, porque “muitas pessoas ainda não se descobriram como gente, como seres humanos.”

Brindada com experiências de vida tão ricas, a plateia ainda foi surpreendida por intervenções artísticas que presentearam também as homenageadas. Vindas de diferentes pontos da plateia, talentosas artistas afro-brasileiras cantaram e encantaram. Declamando e cantando Lia Vieira fez a primeira intervenção, Iléa Ferraz deu vez ao samba, acompanhada do pandeiro e de sua poderosa voz e Maria Ceiça dividiu a cena com a saxofonista Mônica Ávila. Entoando Humbiumbi, canção de Filipe Mukenga, Maria Ceiça encheu o teatro com sua voz melodiosa, utilizada também em Muxima, canção tradicional angolana. Envolvida, a plateia participou da homenagem com um coro vindo de corações (muxima) que se deixaram levar pelo rio de histórias passadas nas vidas de Dodô, Lea, Elma, Conceição, Helena e Carli.

O som do sax fechou essa noite que abriu espaço na memória dos que presenciaram a ciranda formada por mulheres afro-brasileiras que dão as mãos para resistir na luta.

Pretos novos: a dolorosa chegada

Durante as atividades da Cúpula dos Povos na Rio + 20 a Ciranda Afro fez uma roda de conversa com a Merceds, responsável pelo Instituto Pretos Novos, um espaço cultural que abriga o Sítio Histórico e Arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, localizado na região portuária da cidade do Rio de Janeiro, no bairro da Gamboa.

O Cemitério dos Pretos Novos é um triste testemunho de um dos capítulos mais marcante da história da escravidão no Brasil. As pesquisas realizadas até o momento apontam que neste lugar foram depositados milhares de corpos de africanos que não sobreviviam à travessia transatlântica em navios negreiros ou morriam antes de serem comercializados, por este motivo utiliza-se a expressão “pretos novos”.

Este capítulo da história estava perdido debaixo da malha urbana da cidade até o ano de 1996, quando o casal Merceds e Petruccio decidiu reformar sua casa e achou, por acidente, fragmentos de ossos humanos enterrados no terreno. Analisado por especialistas, o material encontrado foi identificado como ossadas de escravos chegados ao Brasil entre final do século XVIII e meados do século XIX e enterrados neste local, que passou a ser um dos mais importante sítio histórico e arqueológico do período da escravidão africana nas Américas.

Merceds Guimarães relata que ao encontrar as ossadas imaginou tratar-se de uma chacina, porém após fazer várias conjecturas descobriu que eram ossos de africanos quando recém chegados no Rio de Janeiro e foi procurar as autoridades para saber o que fazer. À medida que buscava informações, soube que a academia já havia feito descobertas sobre o fato e que algumas pesquisas estavam em andamento, tudo isso confirmou que debaixo do chão de sua casa estava enterrado um capítulo da história da atrocidade colonial vivida em terras brasileiras.

A partir desta descoberta, Merceds teria um longo caminho a percorrer para que a memória desses africanos fosse respeitada. Ao descrever o percurso da descoberta à constituição do Instituto, ela conta que houve negligencia do poder público, talvez por não saber ao certo o que fazer com achados históricos e arqueológicos em local residencial, porém, reconhece que o trabalho está avançando. Com ajuda de pesquisadores e voluntários, o casal Merceds e Petruccio criou o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, apesar de diversos empecilhos, o espaço vai ganhando reconhecimento, foi integrado ao roteiro cultural de museus da cidade do Rio de Janeiro e ao Circuito Histórico e Arqueológico do Valongo e segue comprometido com pesquisas, ações sócio educativas e preservação da memória da maior diáspora da humanidade.

Merceds Guimarães

Descrição do Sítio Arqueológico

Ver online : http://www.pretosnovos.com.br/

Spirito Santo: um pesquisador musical e escritor desfazendo ruídos sobre as origens do samba e da cultura afro-brasileira.

(foto: Marina Alves)

Conjugando atividades em diferentes espaços Spirito Santo faz artesanato musical (organologia), milita na luta antiracismo e promove discussões que colaboram com o reconhecimento da contribuição negro-africana para a formação da cultura brasileira. Em seus trabalhos como professor convidado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autor do livro “Do Samba ao funk do Jorjão”, produz esclarecimentos sobre o surgimento do samba brasileiro e do carnaval carioca, dois pilares de sustentação de nossa cultura e espaços de projeção de identidades afro-brasileiras.

Ao refletir sobre experiências acumuladas nas seis décadas de vida, o pesquisador avalia a presença do negro na vida social e cultural, levantando questões cruciais para acorrentar os afrodescendentes a estereótipos atribuídos no passado e mantidos nos presente. Atento aos movimentos necessários à desconstrução de rótulos e preconceitos, o autor faz colocações apropriadas sobre “o processo dramático de exclusão e da privação do negro dos direitos de cidadania na sociedade brasileira” e aborda ações que visam a combater tal exclusão aliando escrita, pesquisa e música ao empoderamento jovens afrodescendentes, à afirmação de identidade afro-brasileira e a transformações nas relações étnico raciais.

Ciranda Afro – Em 2011 você lançou o livro “Do Samba ao funk do Jorjão”. Esta iniciativa literária corresponde a comunicação que queremos, na qual o silêncio sobre as experiências e memórias negras é rompido, dando visibilidade à participação ativa da comunidade negra brasileira na criação da arte e cultura. Fale um pouco das dificuldades e prazeres envolvidos nesta experiência de pesquisar, registrar e transmitir memórias que contam a história do samba.

JPEG - 49.8 KB

Spirito Santo - Como sabemos, o Brasil tem no racismo um dos eixos principais de seu modelo de sociedade. É um modelo arcaico, superado há muito tempo pelas sociedades mais evoluídas (e por isto mesmo, mais prósperas). O que mais nos diferencia talvez seja o fato de ter-se adotado aqui - e mantido de forma renitente até hoje - um recorte supostamente racial, fenotípico de estratificação social, criado após a abolição da escravatura como pretexto para perpetuar a exclusão social tornando-a sistêmica. Esta prática de controle social (a qual damos o nome algo eufemístico de ’racismo’) é no Brasil, apesar de não muito sofisticada, extremamente eficiente.

Esta fachada ’racial’ (étnica, no caso) deu à Educação e à Cultura funções mais ou menos estratégicas do ponto de vista dos gestores do sistema. É mais ou menos evidente, portanto que o monopólio da Educação, da informação, principalmente dos meios de difusão cultural, tenha se tornado o calcanhar de aquiles do sistema.

É um processo, como disse acima bem vulgar, simples e arcaico, mas que funciona. Desqualificar, subestimar a expressão da cultura específica dos demais (a cultura ’dos negros’ no nosso caso) é, pois, a principal barricada desta elite, o ’trono’ onde o sistema está assentado e de onde teremos que escorraçá-lo um dia.

O caso do meu livro - da literatura quero dizer, entre outros meios, o teatro, o cinema, etc. - é emblemático neste sentido. Não foi visível, mas deu para perceber nos 7 anos entre a produção do texto e a busca de uma editora, que existem filtros muito rígidos - embora sutis, enrustidos em sete chaves - tornando muito difícil a publicação de certos livros, a difusão de certas ideias em nossos meios de comunicação e dispositivos de mídia mais convencionais.

Existem, é claro, espaços e expressões de cultura negra ’permitidos’, ’autorizados’, tolerados’. O grande prazer que encontrei nestes anos todos (a pesquisa que redundou neste livro tem já mais de 30 anos) foi, entre outros, portanto poder exercitar – e de certo modo vencer - o desafio de contar uma história provável do Samba para todos e não apenas do gueto para o gueto, não me conformar ser enquadrado num espaço apenas tolerado, permitido, não adequar o meu discurso aos lugares comuns de sempre, o que todos repetem por aí acerca deste tema tão caro à nossa autoestima.

Ciranda Afro - O título do livro aponta para um processo de criação e transformação do samba. Ao analisar as transformações no ritmo das baterias de escolas de samba cariocas sua pesquisa indica que a abertura de espaço para o funk resulta de um processo de comunicação entre sonoridades africanas. Este diálogo diaspórico enfraquece ou renova o samba e a cultura afro-brasileira?

Spirito Santo - Na verdade, não há muita novidade nesta minha abordagem expressa pelo título. O que eu constatei é que há sim uma complexa rede de enganos, um manto de mistificações que ocultavam os aspectos mais profundos da experiência histórica e cultural dos africanos no Brasil. Este ’processo de comunicação entre sonoridades africanas’ sempre ocorreu, até porque é humano que seja assim. Ele ocorreria de um modo ou de outro, nas circunstâncias em que se deu o sequestro, o translado forçado de tantas pessoas de um continente para o outro.

A cultura dos seres humanos – e não só a cultura negra – sempre se processou assim. Os africanos não eram, silvícolas de tanga, ’povos tradicionais’ como certa antropologia reducionista os pinta até hoje. Eram - e são - em sua grande maioria, povos com larga e antiga - experiencia cultural e civilizatória, como se sabe. Além disto o mero convívio com a diversidade cultural do meio para o qual foram transplantados, a cultura de uns e de outros (inclusive a dos europeus, na dolorosa experiencia do colonialismo em África e na escravidão nas Américas, é claro) era natural que se ensejasse um processo de trocas com um resultado muito complexo e com traços e vocação para a modernidade.

As pessoas não se deram conta ainda, mas quando observamos mais profundamente certas caraterísticas específicas – historiológicas, antropológicas - dos modos de ser e pensar destes grupos étnicos africanos que a escravidão trouxe para as Américas, talvez se deva concluir que o próprio sentido do conceito cultura popular urbana (’cultura pop’ como se diz mais grosso modo, no sentido mais amplo da palavra) pode ter sido criado aqui nas Américas, no início do século 19 e por força do transplante destas pessoas e suas almas cultas, espalhadas aos milhares, em multidões buliçosas, pelos principais grandes centros urbanos que se formaram na ocasião.

O eixo – um tripé – onde, neste processo o fenômeno, provavelmente se deu (e eu sugiro isto, diretamente no livro), foi o Caribe, o Brasil e o Sul dos EUA, uma linha evolutiva, de tempo que simbolicamente vai “...Do Samba ao Funk do Jorjão”.

É por isto que, neste sentido, não existe para mim, uma música negra ’brasileira’, ’nacional’, no sentido restrito e xenofóbico mais recorrente. As circunstâncias em que se deu a escravidão – para o bem e para o mal - produziram uma música popular única, partilhada pelos negros das Américas e tornada a música ’do mundo’, ’música pop’ universal, de todo o planeta.

O Samba para mim - como o Funk original, norte americano - sínteses destas sonoridades todas, são um reflexo claro desta ’diasporidade’ maravilhosa, que nos une e que talvez seja, com seu espírito de união fazendo força, a nossa única chance de salvação um dia.

Ciranda Afro – Ainda sobre a trajetória do samba no Rio de Janeiro, desde as primeiras manifestações culturais organizadas em torno da sonoridade africana, a comunidade negra exerceu um protagonismo na criação artística. A organização das escolas de samba foi um marco deste protagonismo. No entanto, com a transformação do desfile das escolas de samba em evento de maior projeção no calendário cultural carioca, notamos um deslocamento da comunidade negra para a periferia do espetáculo. Qual sua impressão sobre este processo?

Spirito Santo – O que ocorreu no Rio de Janeiro a partir de 1910 está ligado diretamente a este fenômeno cultural diaspórico ao qual acabo de me referir. Não foi um fenômeno de modo algum isolado, envolvendo inclusive um processo muito intenso de transferência de populações de um estado para o outro. O reflexo musical deste processo na época, mais precisamente foi o surgimento das grandes bandas musicais e de fenômenos musicais típicos como a ’Habanera’ cubana (a Salsa atual), o Rag Time de New Orleans e o Samba (e o Choro) carioca. O que deflagra este processo do ponto de vista cultural aqui no Rio de Janeiro na verdade não é o nem o Samba apenas (que, aliás nem existia ainda como tal), mas de um lado a emergência dos hábitos baianos (como o ’pastoril’ ou ’Lapinha’ lusitana, aqui chamada de ’Rancho Carnavalesco’ prevalecendo) e, de outro lado, pelo Jongo (que resultou no ’Partido Alto’) trazido das fazendas de Café do Vale do Paraíba do Sul, na província do Rio de Janeiro (bom frisar também que o Candomblé não tem, a rigor nenhuma participação, assim direta ou relevante nesta mistura musical, no caráter de música urbana, profana, dela).

Era, portanto um processo de muita efervescência social no qual o negro assume o protagonismo não exatamente por ser negro (ou africano) mas por ser o ’povo’ real e visível, a maioria populacional nestes centros urbanos principais que se formaram (Rio de Janeiro, Salvador e Recife) que acumularam uma massa impressionante de ex escravos em busca de trabalho e sobrevivência.

Há que se considerar também que há no processo um recorte social muito sutil que a historiografia brasileira omite ou subestima: Os baianos que chegam à Corte (uma pequena colônia oriunda de Salvador, na verdade) são uma espécie de classe média emergente, já desde a Bahia com um grau importante de assimilação dos valores pequeno burgueses brancos que surgiam. Eles tinham um espírito de corpo, uma vocação elitista muito forte marcada por agudos anseios de ascensão social. Este perfil de colônia negra orgulhosa, atraiu - e iludiu - a inteligentsia branca da época (como ilude a academia branca ainda hoje), criando um conceito de ’pureza’ negra, de ’supremacia ’yorubaiana’ (que eu chamo no livro de ’reducionismo nagô’) bem questionável à luz de estudos mais aprofundados.

Ciranda Afro - Além das transformações rítmicas abordadas em seu livro, as escolas de samba realizaram muitas transformações visuais. No cenário das escolas houve aumento de luxo e da profissionalização, com um visível embranquecimento da equipe técnica e dos componentes das escolas. Como ficou o protagonismo da comunidade negra no atual samba carioca? Nesta trajetória de profissionalização do carnaval, como explicar o distanciamento dos afrodescendentes das posições de comando das escolas de samba e órgãos ligados à organização dos desfiles cariocas?

Spirito Santo - As Escolas de Samba são um excelente microcosmo para se analisar o processo dramático de exclusão e da privação do negro dos direitos de cidadania na sociedade brasileira. O processo que descrevi entre 1910 e 1930 é virtuoso para o negro. O Rancho Carnavalesco deixa de ser uma manifestação pequeno burguesa luso baiana e, embora já tocada por negros, assume de vez, com a chegada do Samba dos jongueiros entre outras influências, características negro africanas bem mais definidas.

Já com este perfil estético essencialmente negro africano, as Escolas de Samba catalizam então tudo que é cultura de massa no âmbito do Carnaval da cidade. De certo modo, o Carnaval de rua da elite, da classe média carioca (que no geral já se isolara nos salões) passa a ficar reduzido apenas às Chamadas ’Grandes Sociedades’, desfiles de imensos carros alegóricos.

No livro se pode observar nitidamente que ficou mais ou menos evidente no pós guerra (e por razões que não cabe analisar aqui) a agudização do processo de empobrecimento, exclusão geral da comunidade negra. Iniciativas como o Teatro Experimental do Negro, num rol de iniciativas culturais dos negros urbanos que começa antes de 1950, demonstram claramente que o racismo se agravou muito e que algo precisava ser feito.

É nesta fase que o processo de degradação das Escolas de Samba atual, aparentemente se inicia também, sutilmente a princípio, para se agravar muito nas décadas seguintes, 1960 e 1970. O sinal mais evidente desta decadência política das Escolas de Samba, como representação de nossa cultura negro africana, consiste nas ’transformações visuais’ que são, nada mais nada menos do que a inserção das ’Grandes sociedades’ burguesas, seus gigantescos carros alegóricos e seus artistas plásticos ’carnavalescos’, no contexto de uma manifestação antes inteiramente ’popular’, ’de pobres negros’, numa espécie de democratização às avessas.

Os resultados deste longo processo (que não é exclusivo das Escolas de Samba, pois a proliferação de favelas e bairros miseráveis para negros se inicia nesta época também) pode ser claramente observado hoje, quando de Samba – e de sambistas – mesmo as Escolas de Samba já não têm quase nada do que tinham no passado.

Ciranda Afro – O crescimento do carnaval de rua e a profissionalização das escolas de samba são oportunidades para a inclusão da comunidade negra em atividades culturais remuneradas e valorizadas economicamente?

Spirito Santo – Infelizmente não. E estes são os outros aspectos omissos da questão. O espaço político e econômico do negro nas Escolas de Samba foi inteiramente usurpado por interesses espúrios os mais diversos há muito tempo, desde os anos 1970, à época da ditadura militar pelo menos. Os interesses comerciais pelo gigantesco valor econômico dos eventos são muito poderosos.

Na verdade as Escolas de Samba - entidades legais sem fins lucrativos - se transformaram em espécies de lavanderias de dinheiro escuso de variados tipos de máfia, entre as quais os chamados ’contraventores’ - que, aliás vão perdendo terreno rapidamente para outras máfias mais poderosas - são apenas um grupo a mais. Isto sem contar nos interesses midiáticos mais evidentes.

No livro conto um curioso e emblemático exemplo da tentativa de organização de uma entidade profissional de ritmistas de Samba (iniciativa de um mestre de bateria nos anos 80) que foi rapidamente abortada e esquecida depois do que pareceu ser uma sutil ameaça de morte lançada no ar por um famoso (e falecido) ’patrono’ contra o ex-quase sindicalista sambista.

A relativa ausência de negros nos inúmeros blocos de Carnaval de rua do Rio de Janeiro de hoje em dia é também um sintoma bem claro desta situação que, como disse é dramática.

Ciranda Afro – Além da cultura, e do carnaval, outras frentes de atuação foram abertas pela comunidade negra. A partir dos anos 1970, militantes negros/as tomaram lugar na produção de ações práticas e reflexões teóricas que têm garantido a inserção de questões afro-brasileiras na comunicação. Nos atuais tempos de cultura digital, a web abre espaço para experiências promotoras da democratização da informação. No Brasil, ativistas da luta pela igualdade racial e estudiosos das relações étnicoraciais têm recorrido ao blog como ferramenta que amplia a circulação de conhecimentos e de questões importantes para afirmação da cultura e dos afro-brasileiros. Em que medida estes espaços constituem um novo modelo de militância?

Spirito Santo - Esta é sem dúvida a grande virada nesta questão. O caráter amplamente democrático da internet quebra a espinha dorsal de um sistema baseado no controle da informação, na medida em que mais e mais pessoas vão aprendendo a utilizar estas novas mídias disponíveis e vão podendo exercer os seus direitos culturais a coisa muda, rapidamente. Eu mesmo sou um fruto deste processo aí, pois, velho militante da cultura negra que sou, só agora, me valendo destas ferramentas é que consegui dar alguma fluidez e visibilidade às ideias que já manifestava desde os anos 70.

Há muito que se fazer no entanto no campo da Educação e da difusão de nossa cultura real, pois de modo geral, ainda temos uma ideia bem estereotipada de nós mesmos, e os mecanismos de acesso do negro à fontes de pesquisa - o acesso à Educação formal em suma - ainda estão inteiramente controlados pelos mesmos agentes de sempre. Pessoalmente acho que ainda estamos muito submissos, subordinados a uma ideia de história e cultura negras mistificadas e tuteladas pela academia ’branca’. No livro apelo veementemente por um amplo processo de revisão destas mistificações todas que nos impuseram e que ainda reproduzimos de forma totalmente acrítica.

Ciranda Afro - A união de música e educação gerou o projeto Musikfabrik. Jovens afrodescendentes travaram contato com o processo de criação de instrumentos tradicionais africanos durante a atividade. Com base nos resultados deste projeto, qual é a importância do acesso a conhecimentos resguardados pela matriz africana para despertar nos jovens uma identidade afro-brasileira?

Spirito Santo – O Musikfabrik é uma experiência muito positiva no sentido da utilização à nosso favor de mecanismos pedagógicos muito eficientes, mas em geral totalmente desprezados pela Educação convencional, burguesa. Este mecanismo é a Linguagem Musical, fonte poderosíssima de transmissão de conteúdos gerais, história, antropologia, matemática, física, um mecanismo fundamental à sobrevivência da cultura africana no Brasil por força da grande experiência dos africanos com dispositivos pedagógicos de transmissão de conhecimentos de natureza oral (acústicos, por suposto).

Sempre ressaltamos nestes mais de 15 anos de Musikfabrik a enorme eficiência de mecanismos ligados às ’múltiplas linguagens’ nos processos de escolarização de nossa população, não só negros ou afro descendentes, diga-se porque nossa cultura é fortemente marcada por valores negro africanos sim, mas todos, negros e brancos estamos sujeitos, afeitos a ela, pois é a cultura de todos nós.

Contudo, com exceção de algumas poucas parcerias que estabelecemos, a adesão das instituições convencionais de ensino – inclusive a UERJ, instituição a qual , por enquanto, ainda pertencemos - a estas nossas ideias sempre foi mínimo. No geral, apesar de nossa longevidade e visibilidade sempre nos subestimaram como experiencia educacional, tentando nos reservar apenas espaços subalternos como uma oficina de instrumentos musicais exóticos, folclóricos ou curiosos ’para negros’. A despeito dos preconceitos rasos e clássicos (e típicos de nosso racismo sistêmico), contudo, o sucesso e a pertinência desta nossa experiência são reconhecidos internacionalmente.

Ciranda Afro - A educação brasileira elegeu o livro como principal ferramenta didática, mantendo pouco explorado o potencial didático dos muitos sambas de enredo que ensinam a história do Rio de Janeiro, do Brasil e de figuras significativas nestas histórias. Quais as perdas resultantes desta falha de comunicação entre a escola e um ritmo tão presente no cotidiano de grande parte dos estudantes?

Spirito Santo - É precisamente o tema da pergunta anterior. A educação brasileira, pensada para excluir a maioria das pessoas e manter uma casta minoritária no poder, é uma das mais atrasadas do mundo. Agora mesmo, como um país burro empacado, estamos perdendo avanços importantes por falta de quadros preparados para ocupar postos de trabalho gerados pelo nosso relativo sucesso econômico.

Fica cada vez mais evidente de que este atraso recorrente se dá em todos os níveis, desde o ensino elementar e fundamental e seus processos ’deseducativos’ até a universidade, renitentemente aristocrática, anti democrática, burra mesmo porque trabalha com princípios elitistas de transmissão de apenas alguns conhecimentos para poucos, apenas o suficiente para manter a mesma elite no poder (como em uma terra de cegos).

Os filtros sutis aos quais me referi que dificultam a publicação de certa literatura ou a fruição de certas ideias nos meios de comunicação convencional são a prova desta nossa endêmica ’burrice acadêmica’.

Ciranda Afro - A Conferência Rio +20 tem por proposta renovar o comprometimento político com o desenvolvimento sustentável e incentivar a economia verde como uma saída para a erradicação da pobreza. Que discussões podem ser promovidas nesta Conferência para colaborar com políticas que auxiliem na ampliação de cidadania e sustentabilidade da comunidade negra?

Spirito Santo - À comunidade negra foram relegados os piores espaços de ocupação do espaço urbano. Negados historicamente seus direitos de acesso à terra no interior do país, deixaram que o negro – e agora o nordestino - ocupasse as áreas mais degradadas das grandes cidades ou, por absoluta falta de alternativas, áreas que ele mesmo, favelado foi obrigado a degradar.

De certo modo o negro foi transformado pelo sistema numa espécie de predador do meio ambiente urbano, empurrado para periferias cada vez mais afastadas dos serviços urbanos essenciais garantidos apenas aos poucos de sempre, e barrado também de alternativas ligadas ao acesso a terra para plantar. O nível de favelização de cidades brasileiras como o Rio de Janeiro por exemplo – um problema ecológico mais que evidente - é, por isto mesmo o de uma cidade em coma, estrangulada por sua imensa periferia.

Sou pessimista diante destas iniciativas macro de desenvolvimento sustentável porque elas as vezes ignoram problemas ambientais básicos de nossas sociedades, aqueles ligados às pessoas, como é este caso de nossas favelas, por exemplo. É óbvio que o sistema econômico hegemônico que nos rege é o grande responsável por nosso dramático desequilíbrio ambiental. As soluções propostas, contudo (e o conceito +20 tem um peso de contagem regressiva assustador) não se atrevem a questionar o sistema em nenhum grau e são sempre paliativas, retóricas, quase nunca – notadamente no Brasil – considerando as pessoas como um componente essencial desta equação ecológica, deste ’mundo a ser salvo’.

As políticas atuais aplicadas no Rio de Janeiro, por exemplo claramente estimuladas por interesses financeiros e turísticos imediatistas, ’de ocasião’, no que diz respeito à gestão dos problemas socioambientais e de moradia (saneamento básico, saúde, transporte, etc.) ligados à comunidade favelada (negra e nordestina) são a prova candente deste descalabro oportunista e ecologicamente irresponsável. É provável que a criação, por parte do negro, de um sentimento cultural de pertencimento a esta sociedade a ser transformada (sair do isolamento deste gueto emocional em que se encontra), um sentimento de revolta franca e ampla que estimule a organização de formas de luta coletiva mais eficazes, sejam as únicas formas de quebrar a lógica paliativa do sistema que, ao que parece vai querer sempre ’mais 20’, ’mais 20, com o negro – o excluído de sempre – no papel de predador de si mesmo.

O poder da cultura e seus mecanismos de comunicação social, como força coercitiva destas mudanças me parece, neste aspecto crucial.

Claudia Simone Santos Oliveira: arte afirmativa e luta antiracista de uma atriz afro-brasileira

Protagonismo negro de uma atriz que faz do Teatro do Oprimido uma estratégia de luta afirmativa.

Envolvidos pela alvorada deste mês de Abril, protegido pelo guerreiro Jorge, damos visibilidade à experiência de Claudia Simone, mulher, afrodescendente, atriz e diretora que se mostra também uma guerreira ao lidar com as opressões que a sociedade brasileira exerce sobre pessoas com semelhante perfil.

Antes de fixar residência na França, a atriz Claudia Simone Santos Oliveira faz um apanhado das experiências vividas em duas décadas de uma carreira marcada por ações culturais e identitárias que encorajam a multiplicação de protagonismos femininos negros em diferentes áreas de atuação.

Nesta entrevista à Ciranda Afro, ela compartilha vivências como Curinga do Centro de Teatro do Oprimido/RJ, reflete sobre o racismo e fala da construção do Laboratório Anastácia, iniciativa teatral elaborada para trabalhar as opressões que pesam sobre afro-brasileiros, dentro e fora dos palcos.

1. Como você chegou ao Teatro do Oprimido?

O Teatro do Oprimido apareceu na minha historia de vida, quando buscava incessantemente fazer uma arte que fosse questionadora, que buscasse gerar transformações sociais, que não servisse somente ao entretenimento. Um Teatro onde o espaço que eu fosse ocupar estava para além dos papéis convencionais destinados aos afrodescendentes, um teatro que fortalecesse os movimentos sociais de denuncia das condições dos negros no Brasil em todas as áreas. Um Teatro que me possibilitasse fazer Teatro, já que esta arte em nossa sociedade capitalista é privilegio de alguns, e não direito de todos. 2- O encontro com a estética do oprimido influenciou sua descoberta da negritude e construção de uma identidade afro-brasileira?

Completamente. A estética do Oprimido me impulsionou a criar minha própria música, a falar dos meus próprios problemas, a me ver diante do espelho, a arrancar as máscaras e camadas que eu havia assumido durante a vida vivida em uma sociedade que valoriza o modelo branco europeu. Foi um longo caminho estético que percorri, e ainda percorro, para encarar a carga histórica e cultural que carrego em meu corpo e em meus traços. Minha negritude cobriu meus pincéis, coloriu meus textos, soltou minha voz, ativou minha criatividade, me fez buscar iguais, encontrar forças para seguir na luta contra a discriminação e o Racismo. Hoje continuo na construção de minha identidade afro-brasileira. Faço-me diariamente perguntas como: o que é ser NEGRA NO BRASIL? O que é SER NEGRO na Atualidade? Em que aspectos avançamos quando falamos de igualdade étnica? Quais os nossos principais campos de Luta e resistência?

3- Quais respostas você obtém ao fazer tais perguntas? Qual a sua reflexão sobre ser mulher, afrodescendente e atriz na sociedade brasileira?

Quando penso em mulheres afrodescendentes e atrizes, minhas reflexões recaem sobre a cruel tentativa de visibilizar talentos, estrelas Negras, como nossa querida Ruth de Souza e tantas outras. Penso na quantidade de mulheres afrodescendentes que são extremamente brilhantes no palco com Débora Almeida, de Sete Ventos, que com muita garra ocupa seu espaço no cenário artístico Brasileiro. Fortaleço-me na atuação, dentro de fora do palco, de Iléa Ferraz que em todo o seu trabalho resgata a força de nossa ancestralidade e nutre a nova geração de imagens positivas sobre a mulher negra em holofotes que as visibilizam. Parto para luta com Barbara Santos, Curinga Internacional, que por intermédio do Teatro do Oprimido me vez rever minha identidade afrodescendente, questionar -me todos os dias sobre qual é o meu lugar na sociedade, ativar minha necessidade de atuar diretamente no combate ao racismo e a discriminação.

4- Quais aspectos observados em sua trajetória fizeram pensar na criação do Laboratório Anastácia?

O laboratório Anastácia surgiu como resposta às varias situações de racismo que eu vivenciei, através do olhar do outro, nas relações étnicas que eu travava, pela afirmação ou negação de minha identidade afrodescendente, pela compreensão da existência do racismo e das desigualdades raciais. Meu desejo e necessidade de ser atriz surgiram desde menina, estar nos palcos e vivenciar diferentes personagens, para mim era vital. Por isso muito cedo ouvi a voz cruel da discriminação: “você quer ser atriz? Para que? Representar o papel de escrava, empregada domestica ou mucama da alguém ...(Risos de deboche) em seguida: “de qualquer forma não existe princesa negra.”. Esse comentário somou-se a tantos outros que apontavam na mesma direção: a cor da minha pele e o crespo de meus cabelos eram determinantes para a carreira de atriz que pretendia seguir. Na verdade crucial para mim enquanto ser humano.

De fato, esse foi um primeiro espelho de mim mesma, contudo algumas vivências que destaco agora foram o estopim para a criação do Laboratório Anastácia. Quando tinha meus 19 anos, estava deslumbrada por descobrir a história de luta do provo negro, dos movimentos contra o racismo, de resistência. Resolvi procurar o movimento negro em minha cidade (Volta Redonda), pois queria ser militante, me engajar, estar com parceiros, conhecer iguais.

Bati na porta da associação Palmares, a única da cidade. Uma mulher negra de olhos bem grandes e voz seca me atendeu, olhou-me de cima abaixo, com ares de poucos amigos, e perguntou: “o que você faz aqui?” Respondi, ainda com um sorriso nos lábios: “eu quero saber como faço para fazer parte do Palmares, do movimento negro e me engajar na luta contra o racismo?” Ela olhou-me de forma fulminante e disse do alto de sua sabedoria de militante: “você? Você não é negra, não passa de uma parda sem cor, sem identidade”. Ela seguiu falando e eu já não ouvia mais.

Sentindo-me tão nada, tão pequena, sem chão, esperei que ela falasse todas aquelas coisas que eu nem entendia mais, e saí. Segui por um bom tempo guardando as lágrimas e fragmentando minha identidade negra. Essa experiência deixou marcas profundas, calou-me a boca. Não consegui mais falar sobre qualquer tema ligado a afrodescendência, fugia, me esgueirava; o nó na garganta estava forte e bem atado. Isso durante muitos anos de minha vida. Coloquei-me cega para questões raciais, cheguei a sofrer calada muitas discriminações.

A vida seguiu, até que outro fato aconteceu em 2003, no Centro de Teatro do Oprimido do Rio de janeiro (CTO), instituição de pesquisa e difusão da metodologia criada por Augusto Boal. Eu não estava lá de visita, era Curinga do CTO, especialista do método que trabalhava diretamente com o seu criador. Neste espaço recebemos muitos estrangeiros, de diversos países. Um belo dia adentra a sala um grupo de americanos, uma das mulheres que lá estava e falava português me perguntou: posso falar com um Curinga? (olhando em torno para ver se via mais alguém). Respondi: sim, vamos sentar na sala de reunião. O grupo entrou, eu sentei, ela olhando para mim perguntou novamente: cadê o curinga? Ele ou ela já vem. Eu disse: muito prazer. Sou Cláudia Simone, Curinga do CTO. Ela respondeu espantada: nossa! Desculpe-me, pensei que você fosse a mulher da faxina”! Respondi: é, você se enganou. Naquele momento tudo veio à tona, não falava mais com aquela mulher, mas revia a mulher do movimento negro. O sangue ferveu-me nas veias, as palavras brotaram na boca e o nó em fim se rompeu. Não podia, não devia e não queria mais me calar diante de preconceitos e discriminação racial. Tinha que fazer algo através do Teatro do Oprimido, mas não sabia ainda o que. E as chibatadas não paravam.

Estudante da UNIRIO, universidade do Rio de janeiro, um dia em discussão em sala de aula sobre vagas na cadeiras oferecidas, uma jovem branca, de cabelos lisos, vira para mim e diz em alto e bom som: “ pessoas como você, não deveriam perder seu tempo com universidade, muito menos de Teatro, tirando a vaga dos outros. A gente sabe que vocês tem que trabalhar muito para viver e não conseguem terminar a faculdade. “Por isso, deveriam deixar a vaga para quem é de direito.” (apontava para os outros 30 que estavam na sala, todos brancos de cabelo liso). Nessa situação, esbravejei algumas palavras, umas com sentido, outras coléricas e outras sem sentido, mas nada que respondesse politicamente à ação racista que eu estava vivendo.

5 – Então, criar o Laboratório é uma proposta artística para a devida resposta política ao racismo? Quando surgiu a iniciativa de ativar um espaço tão importante para a ação e reflexão dos afro-brasileiros?

Na época em que pensei em fazer algo concreto na luta antirracismos, o positivo é que já conseguia falar, já não me deixava mais atacar sem resposta. Tinha que fazer alguma coisa rapidamente. Estava me sentindo sozinha, fraca, atacada e inferior, então comecei a colecionar textos falando sobre discriminação racial, histórias sobre os grandes ícones negros, a ver todos os filmes possíveis que pudessem me fortalecer para não ser abatida; este movimento fez aflorar o meu pertencimento étnico.

Desde então, partilhei com Alessandro Conceição, Curinga do CTO, meu amigo e companheiro de trabalho, a ideia de um espaço artístico para reflexão das questões afrodescendentes. Havia aí um início de Anastácia. Seguia fazendo projetos que combatem a opressão com arte, mas não uma proposta direta para afrodescendentes. Em 2010 fui convidada a fazer um laboratório chamado Madalena, por Barbara Santos e Alessandra Vannucci. Essa experiência me levou ao encontro de minhas raízes, de minha ancestralidade, de minhas opressões e meus desejos futuros. Aqui surgiu Anastácia.

6- Já sabemos como surgiu o Laboratório, fale agora a estratégia de ação deste espaço que se mostra engajado com a matriz negro-africana a partir do nome Anastácia.

O laboratório Anastácia pretende ser um espaço para afrodescendentes que através do Teatro Oprimido querem percorrer um caminho de investigação e pesquisa, para refletir sobre o mito da democracia racial brasileira considerando a invisibilidade da população afrodescendente nos espaços socialmente valorizados. A partir de meios estéticos, visibilizar o não reconhecido, dar volume ao não dito, expressar o silenciado, e assim, buscar meios concretos de superar limitações e promover igualdade de oportunidades, refletindo profundamente as questões sócio-políticas ligadas à experiência da população negra dentro e fora do Brasil.

6- Caracterizada pelo racismo cordial, como a sociedade brasileira recebe o trabalho do Laboratório Anastácia e de atores afrodescendentes posicionados politicamente no combate ao racismo?

Mesmo depois da ideia concebida, dos primeiros passos dados, as situações discriminatórias continuam. Fui chamada para dar uma oficina na UNIRIO. A minha felicidade foi tamanha, voltar na universidade não mais como aluna, mas como especialista. Estava ministrando a oficina e pude reparar que havia uma pessoa que sempre retrucava tudo que eu dizia, era áspera nas respostas, questionando sempre meu lugar de autoridade naquele momento. No final da oficina, fiz uma avaliação como de costume. Essa pessoa resolveu me ELOGIAR. Seu elogio foi assim: “é muito bom estamos em um espaço público da universidade que busca socializar o conhecimento sobre nosso querido e amado mestre do Teatro Augusto Boal. É melhor ainda quando duas alunas, futuras mestras procuram parcerias fora da universidade que enriquece o trabalho, melhor sou ter uma MACACA velha, no caso eu, como alguém que pode compartilhar o seu conhecimento com a gente.”

Dessa vez não esbravejei, não disse palavras sem sentido, respirei fundo, esperei a palavra rodar na boca das pessoas, algumas reproduzindo o termo MACACA velha. Com toda paciência revolucionaria, desfiei todos os títulos que tenho, reforcei o meu lugar de especialista, denunciei em alto e bom som o Racismo sonorizado em cada palavra dita e afirmei que no meu caso, nem de brincadeira quero ser chamada de macaca, nem como elogio, que racismo é crime inafiançável e que não vou hesitar em denunciar. Aqui falou Anastácia.

7- O que vale ressaltar da experiência vivida durante as oficinas e apresentações de trabalho realizadas por participantes do Laboratório Anastácia? Como atores e público lidam com essas questões etnicorraciais negadas por tanto tempo na vida social brasileira?

Essas experiências trouxeram muitas inquietações e questionamentos para as atrizes e atores sobre a identidade afro-brasileira, seu lugar na sociedade, anseios por superar e combater a desigualdade racial aumentou a necessidade de um enfrentamento aberto e de forma estética do racismo em suas diferentes manifestações.

O público ainda estranha as expressões estéticas e identitárias dos negros, observa de forma curiosa e reservada a encenação de conflitos raciais, questiona e contra argumenta sobre os dilemas referentes ao processo de construção da identidade negra. Podemos observar um pouco mais o impacto desse diálogo durante a apresentação do nosso primeiro espetáculo de Teatro - Fórum “A Cor do Brasil”, onde abordamos a Ancestralidade e formação da consciência Negra brasileira, investigamos as contradições entre o orgulho da mestiçagem brasileira, que traz na pele a cor e os traços dos povos que formaram a nação, e a ilusão histórica do branqueamento.

Neste espetáculo de Bárbara Santos, dirigido por mim, encenado a partir das técnicas do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, o público é convidado a intervir na ação dramática para encontrar alternativas concretas para as questões levantadas pelas personagens. Mais uma produção artística e inovadora do Centro de Teatro do Oprimido em cooperação com Kuringa-Berlim.

5- Em ano de Rio + 20 e tantas discussões em torno da sustentabilidade dos povos, o que os profissionais do teatro carioca levariam para a pauta da Conferência?

Essa é para mim uma pergunta bem difícil de responder. A Rio + 20 se propõe a denunciar as causas da crise socioambiental, apresentar soluções práticas e fortalecer movimentos sociais do Brasil e do mundo, dentre outras questões. Enquanto classe artística, e pensando na “sustentabilidade” de nossas atividades, creio que seria urgente e necessário rediscutir aspectos que criam os monopólios nos meios de produção artística, especialmente, repensar os modelos de editais para financiamentos de projetos, ocupação de teatros, circulação de espetáculos, oficinas artísticas e de formação de profissional.

Considerando que a Conferência está implicada com denúncias de acontecimentos que afetam a sociedade, seria interessante discutir aspectos que afetam a Cultura, tão importante para a sociedade, como por exemplo, a continuidade, manutenção e ampliação dos Pontos de Cultura dentro e fora do país. Enfim, aponto temas não aprofundados, que servem como sugestão para que a Conferência seja um local de busca de soluções práticas para fortalecer projetos culturais que beneficiam segmentos menos favorecidos da população e manifestações artísticas pouco valorizadas pela indústria cultural.

6- Encerre nosso papo fazendo circular na Ciranda Afro os projetos previstos para 2012, no CTO, no Laboratório Anastácia e em outras frentes teatrais criadas para combater a opressão com arte. São muitas atividades propostas. Todas podem ser acessadas na página do Centro de Teatro do Oprimido/ www.ctorio.org.br

Para fortalecer as trocas com o Laboratório via rede social, criamos a página https://www.facebook.com/#!/Laborat...

Destaco a proposta do Laboratório Anastácia de realizar , em 2012, apresentações do espetáculo Cor do Brasil. Estamos abertos a convites para mostrar esta montagem em que Creuza, Antônio, Sebastião e Benedito protagonizam a realidade de brasileiros que buscam entender sua identidade a partir da condição de afrodescendentes e encontrar alternativas para superação das limitações impostas por esta condição.

Além disso, convido todos e todas para o Laboratório Anastácia que acontecerá em julho de 2012 (CTO e Kuringa Berlim) e atenderá aos que desejam percorrer um caminho de investigação e pesquisa, tornando-se multiplicadores do teatro do oprimido, utilizando suas técnicas para refletir sobre o mito da democracia racial brasileira e para combater a histórica invisibilidade da população afrodescendente nos espaços socialmente valorizados.

E agora, falamos nós!

Episódios de protagonismo de Thereza Santos representam um capítulo significativo na história do negro no Brasil contemporâneo. Agora, falamos nós sobre algumas das muitas coisas ouvidas de Thereza e narradas em seu livro.

Falando da luta internacional da mulher e malunga Thereza Santos

E agora, falamos nós!

Agora falamos coletivamente, numa luta muitas vezes tocadas solitariamente por Thereza Santos.

Em 08 de março, quando a luta feminina é festeja internacionalmente, fazemos festa em torno de Thereza Santos e de sua contribuição com a educação antirracista e cultura brasileiras.

Carioca, radicada em São Paulo, exilada na Guiné - Bissau e Angola, Thereza Santos viveu e promoveu um despertar da consciência de ser negra nos espaços por onde passou ao longo das sete décadas somadas em sua trajetória.

No Rio de Janeiro a menina Jaci inicia a percepção da diferença. Ser negra faz diferença e, em sua história ainda em curso, Thereza optou pelo discurso do reconhecimento da diferença como caminho para construção de práticas reparadoras das desigualdades sempre negadas pelo discurso da democracia racial. Nascida em condições sociais melhores que a maioria dos negros brasileiros, Thereza frequentou a universidade quando poucas negras lá estavam, mas buscou um percurso que a levava de encontro a esta maioria presente na Mangueira e em outros espaços onde realizou trabalhos de formação de jovens.

Filósofa, educadora, atriz e escritora Thereza observou a sociedade brasileira de diferentes ângulos, mantendo sempre o ponto de vista da mulher negra, no qual estão incluídas opressões sempre abordadas e combatidas em um discurso militante desta atenta observadora do território brasileiro e das relações étnico-raciais aqui estabelecidas:

Temos dificuldade de perceber que esta sociedade nos jogou em um buraco, primeiro em nome da "servidão cordial" e depois da "democracia racial" e ainda vive buscando formas de nos oprimir. Além disso, tirou de nós o direito mais elementar, que é a vida, não só pela brutalidade da violência policial, mas também pela falta de emprego, de direito à saúde, de escola e de moradia. Muitos negros têm dificuldade de enxergar esta realidade, porque preferem, para conseguir sobreviver, serem cegos, surdos e mudos.

Talvez seja mais fácil, mas é um ato de profunda covardia, neste país profundamente desigual. É necessário, portanto, coragem, ver este país de frente.

É doloroso, mas devemos preservar a única coisa que temos: a nossa dignidade e respeito (2008, p. 134-134).

Em São Paulo Thereza arte e política se misturaram na vida da atriz desta atriz que participou do Teatro Experimental do Negro e da experiência de ingressar no Partido Comunista Brasileiro, exercendo pioneirismo na presença de mulheres negras na organização político-partidária. Por conta desta passagem pelo partidão, foi presa e, ao ser posta em liberdade teve opção de escolher entre um exílio na União Soviética ou na África. Coerente com sua opção de descobrir-se como negra optou pela imersão na cultura africana e conhecimento das matrizes da cultura brasileira e da história negra iniciada naquele continente e desconhecida no Brasil.

No continente africano, dividiu-se entre aulas de formação para crianças e jovens guineenses. A experiência como educadora na Guiné - Bissau aproximou Thereza da realidade local e da inconcebível condição colonial ainda imposta aos países africanos no século XX. A liberdade buscada pelos países africanos nos anos 1960-70 foi sempre prioridade para Thereza, simpatizante das lutas locais e marcada por uma nova detenção em Angola. Na Guiné- Bissau, Thereza , colaborou com o projeto libertário idealizado por Amílcar Cabral, no qual a educação é um ponto central. No solo guineense Thereza vive também a experiência de participação na guerrilha, registrando também sua presença na luta armada contra a opressão naquele contexto exercida pela empresa colonial.

De volta ao Brasil, Thereza traz na bagagem muitas histórias para contar e muita vontade de fazer outra história a partir da formação de negras e negros brasileiros conhecedores de sua história. No cenário paulista de construção dos movimentos negros Thereza se movimenta em diferentes frentes, abrindo visibilidade para a temática do negro no teatro, junto com Eduardo Oliveira, assina o espetáculo “ E agora falamos nós”. Em sua autobiografia Thereza enumera feitos que comprovam sua colaboração com as relações étnico-raciais, abordando passagens que permitem inferir sua adesão às ações afirmativas em diferentes espaços sociais e profissionais:

Era de minha responsabilidade solicitar às produtoras os modelos para os comerciais, (...) Eu me perguntava: se os negros estavam incluídos no público-alvo, por que também não vender os produtos? Então, eu pedia que fosse incluído no material a apresentar aos clientes com relação à criação modelos negros. Algumas vezes percebi um pouco de mal-estar, mas ninguém me dizia para não os incluir. Eu continuava, assim consegui emplacar crianças negras (...) (2008, p.88).

Por tantos discursos emplacados, Thereza merece nosso olhar respeitoso de mulheres que reconhecem nela uma mais velha cheia de sabedoria a ser compartilhada e aproveitada na árdua tarefa de construir a educação étnico-racial em um país marcado por “profundas covardias” neste terreno.

Lançado em 2008, o livro “Malunga Thereza Santos: a história de vida de uma guerreira” é um testemunho parido pela lucidez desta militante viva. Um belo presente para ser lido hoje e nos proporcionar exemplos de resistência protagonizados por esta mulher que luta contra adversidades na saúde frágil, demonstrando uma força exemplar para nós que, brancos ou negros, acreditamos e lutamos por igualdade, respeito e valorização de seres humanos respeitados em suas especificidades.

0 | 5


Enviar uma mensagem

Deixe um comentário