Gaza 2014: mais um capítulo da limpeza étnica do povo palestino

escrito por Soraya Misleh

Israel condenou toda a população de Gaza a uma punição coletiva. O pretexto desta vez foi a morte de três jovens colonos na Cisjordânia, território palestino ocupado militarmente por Israel também em 1967.

Desde que teve início a nova ofensiva israelense na faixa de Gaza, denominada “Margem protetora”, há sete dias, foram mortos 172 palestinos. Os feridos somam 1.230. A maioria das vítimas é formada por mulheres e crianças. É o maior ataque promovido pelas forças de ocupação desde 2008-2009, quando foram assassinados cerca de 1.400 palestinos em Gaza, na chamada operação “Chumbo fundido”, entre 27 de dezembro e 18 de janeiro. Em novembro de 2012, em apenas oito dias, somaram-se 150 vítimas fatais. Os dados elucidam que a prática israelense em relação à estreita faixa é recorrente. Assim como os pretextos utilizados e os métodos. Nesse sentido, é importante situar histórica e politicamente as razões para essa nova onda de massacres em Gaza.

Localizada em território palestino ocupado militarmente desde 1967, Gaza é a área mais densamente povoada do mundo: em apenas 360km2 vivem 1,5 milhão de palestinos, a maioria deslocada internamente, ante a expulsão de suas terras e casas sobretudo a partir de 15 de maio de 1948, ano da criação do Estado de Israel (para os árabes, a nakba, catástrofe). Pode ser considerada um grande campo de concentração a céu aberto. Um bloqueio assassino é imposto por Israel desde 2006, quando o Hamas venceu democraticamente as eleições para governar a região. Um ano antes, os cerca de 8 mil colonos que viviam em assentamentos ilegais ali foram retirados, sob as ordens do então primeiro-ministro israelense Ariel Sharon - não à toa apelidado de “carniceiro”, com uma vasta folha de serviços prestados ao projeto sionista de limpeza étnica do povo palestino. Nenhuma atitude progressista em sua política. Não compensava financeiramente manter uma força de ocupação na região para garantir a presença de apenas 8 mil colonos. A partir daí, estava aberto o caminho para que Gaza se tornasse um alvo preferencial ao intento sionista de dar continuidade a sua política de limpeza étnica do povo palestino. A eleição do Hamas – e o argumento falso de que se tratava de um grupo de extremistas que queriam jogar os judeus ao mar – foi a pá de cal para sedimentar essa política. Não obstante as críticas que se possa ter a esse partido, vale reiterar que foi eleito democraticamente e o que faz diante de ofensivas é resistência a uma ocupação criminosa. Sem, obviamente, o mesmo poder de fogo.

Breve contexto histórico

Além de sua geopolítica, Gaza assim seria um local estratégico para Israel seguir de forma direta com sua política de limpeza étnica, a qual é elemento fundante da criação do estado como etnicamente homogêneo: ou seja, um estado exclusivamente judeu. Hoje, já há documentação suficiente que comprova que houve planos deliberados de limpeza étnica do povo palestino para que tal projeto resultasse exitoso. O mais agressivo deles e derradeiro é conhecido como Plano Dalet. Ali estavam mapeadas as aldeias palestinas que deveriam desaparecer do mapa para dar lugar ao novo estado. Em apenas seis meses desde que foi posto em prática, em maio de 1948, foram destruídas cerca de 500 dessas aldeias e expulsos 800 mil palestinos de suas terras.

Era necessário simultaneamente promover ondas de imigração de judeus para lá e expulsar os habitantes nativos para garantir uma maioria judaica naquelas terras – até 29 de novembro de 1947, ano em que a Assembleia Geral das Nações Unidas recomendou a partilha da Palestina em um estado judeu e um árabe, sem consulta aos habitantes, o percentual de judeus não passava de 30%. Isso mesmo após ondas de imigração. Iniciadas ainda no final do século XIX, ano em que surge o movimento sionista, cujo pai foi o austríaco chamado Theodor Herzl, buscavam assegurar a colonização da terra e a conquista do trabalho, com a recusa de emprego a palestinos.

Com o apoio decisivo da Grã Bretanha, que passou a deter o mandato sobre a Palestina como espólio da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi possível levar a cabo seu projeto. O uso do terrível Holocausto perpetrado na Europa durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) contribuiu para que uma nova injustiça e crimes contra a humanidade fossem cometidos, desta vez na Palestina. A partir daí, Israel viria a ter um novo aliado preferencial, os Estados Unidos, que se tornaram potência desde então. Os governos árabes, aliados do imperialismo, também são cúmplices da nakba, como apontado pela história. A comunidade internacional, responsável por essa tragédia, precisa ser denunciada pela sua continuidade. Retórica excessiva, mas ação não efetiva ou nenhuma diante das arbitrariedades cometidas cotidianamente por Israel são o pano de fundo para essa nova onda de massacres em Gaza.

O pretexto e os fatos

O pretexto desta vez foi a morte de três jovens colonos na Cisjordânia, território palestino ocupado militarmente por Israel também em 1967. A despeito de o Hamas ter negado ser responsável e a morte dos adolescentes estar cercada de incertezas, Israel condenou toda a população de Gaza a uma punição coletiva. O que a grande mídia não divulga é que – como nas ofensivas anteriores -, os antecedentes couberam a Israel. Em maio último, matou a sangue frio dois jovens palestinos. Seus nomes: Nuwara Nadim e Muhammad Abu Al-Thahir. Eles compõem uma extensa lista de vítimas de crimes cometidos pelo estado sionista nos últimos meses e anos. O que também não se divulga é que os jovens judeus transitavam entre um assentamento ilegal e outro e foram mortos em uma região em que colonos fundamentalistas não raro atacam violentamente os palestinos. Em outras palavras, a responsabilidade por sua morte é de Israel, que os colocou lá para dar cabo ao seu projeto e vem disseminando a cultura do ódio - em uma região onde até 1948, segundo relatos de palestinos que viveram a nakba e eram crianças à época, “judeus, cristãos e muçulmanos” brincavam juntos, sem rótulos. Após a morte dos jovens judeus, teve início uma perseguição a palestinos na Cisjordânia - um deles, Mohammed Abu Khdair, de apenas 16 anos, foi queimado vivo após tortura.

Muitas casas foram invadidas e demolidas e a lista de presos políticos palestinos – que hoje somam cerca de 5 mil, incluindo crianças – tem crescido, sem qualquer comprovação de que tenham participado da ação, como também é praxe em Israel.
Na estratégia de continuidade da limpeza étnica do povo palestino, mais uma fracassada “negociação de paz” e a busca por destruir a unidade entre Fatah e Hamas também explicam os ataques a Gaza. Assim como uma crise interna no governo israelense. Como nas ofensivas anteriores, o ganho político está nos cálculos. Lamentavelmente, a maioria dos israelenses apoia essas ações criminosas, vendidas a eles como em sua defesa contra terroristas. Para garantir esse suporte, Israel tem sido hábil em sua propaganda de desumanização dos palestinos.

O que se vê, contudo, é um crescimento da indignação mundial, com centenas de manifestações ao redor do globo, e uma heroica resistência por parte dos palestinos, nas diversas partes do território. Há perspectivas de que a nova onda de massacres detone uma terceira intifada (levante). Num contexto de revoluções populares iniciadas no mundo árabe em final de 2010 e em curso – inspiradas na longa e heroica luta do povo palestino -, o novo levante pode ser o fermento para reanimar e expandir o movimento contra ditadores aliados do imperialismo em toda a região – os quais garantem a manutenção da ocupação e apartheid na Palestina. Manifestações gigantescas em solidariedade a Gaza no Iêmen, na Síria, no Egito, entre outros países, demonstram isso. A questão palestina é o epicentro.

Por outro lado, cresce também o movimento de boicotes, desinvestimento e sanções a Israel. No Brasil, a solidariedade ao povo palestino deve fortalecer esse chamado. O País se converteu no segundo maior importador de tecnologias militares de Israel nos últimos anos. As mesmas tecnologias utilizadas neste momento nos verdadeiros laboratórios humanos em que se converteram os palestinos de Gaza. É fundamental exigir do governo brasileiro a ruptura imediata desses acordos com Israel, bem como de relações diplomáticas.

É urgente isolar econômica e politicamente o estado sionista e cercar de solidariedade os palestinos. Se hoje o sentido é de uma emergência em relação a isso, assim como a limpeza étnica do povo palestino é um contínuo, é necessário que a solidariedade não se encerre após o fim desse novo massacre. Mas que continue até que a Palestina seja livre e se garanta o retorno dos 5 milhões de palestinos que vivem em campos de refugiados as suas terras e propriedades. Até que se faça justiça, o que somente se dará em um estado único, laico, democrático em toda a Palestina histórica, com direitos iguais a todos que queiram viver em paz com os palestinos.

"Abaixo a feira da morte! Eu boicoto Israel!"

escrito por Soraya Misleh

Como parte da campanha de boicotes ao apartheid israelense - que se inspira no movimento que pôs fim ao regime de segregação de negros na África do Sul -, a Frente em Defesa do Povo Palestino/BDS Brasil promove ação virtual entre os dias 8 e 10 de abril. O chamado é para que pessoas solidárias ao povo palestino publiquem foto segurando cartaz com os seguintes dizeres: “Abaixo a feira da morte! Eu boicoto Israel!” Ou, se preferirem, compartilhem o banner com esses dizeres.

Nesse período, ocorre no Rio de Janeiro a Laad 2014 (Feira Internacional de Segurança Pública e Corporativa). Denominada feira da morte, nesta edição, tem como expositoras nove empresas israelenses – além de duas subsidiárias brasileiras. É o menor número nos últimos anos, o que mostra que a campanha BDS Brasil começa a dar resultado. Em 2013, havia 30 empresas e em 2011, 28. É fundamental aumentar a pressão e denunciar que essas empresas estão vendendo tecnologias militares testadas nos verdadeiros laboratórios humanos em que se converteram os palestinos.

Israel vem à feira com o objetivo de firmar novos acordos militares com o Brasil, que tem sido visto como um novo mercado, diante do cerco que a campanha de boicotes vem impondo sobretudo na Europa. De olho na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016, terão espaço estratégico para apresentar seus produtos e serviços, que no Brasil vêm sendo usados na repressão dos movimentos sociais e populares e no genocídio da população pobre e negra (encontram-se nas mãos de polícias como as do Rio de Janeiro e de São Paulo, por exemplo). É preciso fortalecer a campanha por embargo militar imediato a Israel, num cenário em que governo federal e estaduais têm ampliado os acordos militares com Israel, na contramão do que vem ocorrendo no mundo.

Algumas das expositoras

A Rafael Defence é uma das expositoras. A empresa divulga em seu site o relacionamento “especial” com a chamada IDF (Forças de Defesa de Israel), desenvolvendo produtos personalizados ao exército ocupante. Também entre as expositoras, a israelense FA B Defense, fabricante de equipamentos táticos e acessórios bélicos, que anuncia o desenvolvimento e produção de armas para a potência ocupante. E a Israel Export Institute, uma agência governamental israelense que visa facilitar as oportunidades de negócios, joint ventures e “alianças estratégicas” entre Israel e parceiros globais.

Também estão entre as expositoras a AEL Sistemas e a Ares, duas subsidiárias brasileiras da Elbit – uma das 12 empresas israelense que têm atuado na construção do muro do apartheid e que produz os Vants (veículos aéreos não tripulados) usados nos ataques a Gaza. Em outubro de 2012, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o relator especial Richard Falk chamou ao boicote à Elbit. No Brasil há 15 anos, tal empresa ganhou recentemente dois novos contratos milionários com o Exército brasileiro. E o Governo do Rio Grande do Sul pretende expandir sua presença no Brasil, com um projeto de centro aeroespacial baseado na AEL em Porto Alegre. Com isso, a capital gaúcha pode vir a se tornar o polo de pesquisa militar israelense mais importante no exterior. Tal projeto, financiado com dinheiro público, também concede vantagens aos negócios baseados nos crimes cometidos por Israel.

No Dia da Terra, rolezinho palestino contra o apartheid

escrito por Soraya Misleh

Em 30 de março de 1976, os palestinos realizaram greve geral e protestos contra a ocupação de terras por Israel na Galiléia, duramente reprimidos. Foi a primeira grande mobilização iniciada dentro das áreas onde hoje se encontra o Estado de Israel, desde sua criação em 1948 (a nakba, catástrofe, para os árabes). Por isso, a data é celebrada em todo o mundo como o Dia da Terra palestino. Em São Paulo, não passou em branco. A Frente em Defesa do Povo Palestino – que reúne dezenas de organizações da sociedade civil brasileira, entre as quais a Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada – realizou um “rolezinho palestino” no Shopping Higienópolis, em frente à loja Spicy, que anuncia em seu site a venda a máquina de gaseificação caseira da marca Sodastream, com fábrica instalada em assentamento na Cisjordânia, território palestino ocupado militarmente por Israel. A iniciativa integrou a campanha de Boicotes, Desinvestimento e Sanções (BDS) à potência que ocupa a Palestina. No ensejo, um vendedor da loja afirmou aos ativistas que não vende mais SodaStream, muito embora o site da rede continue a anunciar o produto.

A campanha tornou-se conhecida em janeiro último, quando a atriz estadunidense Scarlett Johansson anunciou que seria garota-propaganda da marca. Desde 2007, ela era embaixadora mundial da ONG de Direitos Humanos Oxfam, contrato que foi rompido, mediante pressão do movimento BDS. Segundo comunicado da organização não governamental, divulgado na mídia, “o papel de Johansson promovendo a empresa SodaStream é incompatível com seu cargo de embaixadora mundial da Oxfam. A Oxfam acredita que negócios como os da SodaStream, que opera em assentamentos, agravam a pobreza e negam os direitos das comunidades palestinas que trabalhamos para apoiar. (...) A Oxfam se opõe a qualquer comércio dos assentamentos israelenses, que são ilegais sob a lei internacional."

Como parte da campanha de BDS, uma série de iniciativas têm sido feitas no mundo em frente a lojas que vendem produtos como SodaStream, com vitórias importantes. O rolezinho palestino se inseriu nesse contexto e se inspirou nos movimentos de jovens da periferia brasileira, de mesmo nome, que questionaram em janeiro último o apartheid social vigente no País e a privatização da cidade, em que frequentar certos locais se torna privilégio de poucos. Um paralelo com o apartheid israelense.

África do Sul

Outra analogia, desta vez entre o sistema de segregação de negros na África do Sul de 1948 a 1994 e dos palestinos há 66 anos, foi feita durante a atividade que inaugurou a Semana contra o apartheid israelense no Brasil, no dia 24 de março último, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Iniciativa da Frente Palestina da Universidade de São Paulo (USP), que contou com o apoio da Frente em Defesa do Povo Palestino, a semana se inseriu no calendário global que englobou atividades do gênero em centenas de cidades ao redor do mundo. Em São Paulo, seguiu até dia 28 com palestras e debates na USP e na PUC.

Além de abordar o apartheid a partir da África do Sul à Palestina, a semana incluiu entre os temas a Copa de 2014 e o Boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel; roda de conversa com mulheres e LGBTs sobre essa campanha; o relato de experiências de estudantes brasileiros que visitaram a Cisjordânia recentemente; e a situação dos palestinos de Yarmouk, campo de refugiados na Síria, cercado pelo regime sírio há oito meses, sem acesso a alimentos, medicamentos e ajuda humanitária.

À primeira mesa, o jornalista Arturo Hartmann, diretor do filme “Sobre futebol e barreiras”, feito na Palestina, apresentou a definição de apartheid como “separação”, “desenvolvimento separado”, bem a contextualização histórica e uma série de situações na Cisjordânia que mostram sua aplicação no caso palestino. Centrando sua fala no que ocorre nessa parte da Palestina, ele falou sobre planos sionistas que levaram à instituição de bantustões naquelas terras. Entre os exemplos citados pelo jornalista estão o apartheid basicamente territorial em Hebron, o uso discriminatório da água no Vale do Jordão e o que se vê hoje em Jerusalém, “na prática totalmente anexada”, com permissão aos palestinos de viverem em apenas 7,8% do total (somando os lados oeste e leste). Citando dados da ONG B’TSelem, ele revelou que de 2004 a 2014, foram demolidas 503 casas palestinas, sendo que a conta sobre essa ação por parte do exército é repassada aos habitantes expulsos de suas propriedades, a menos que derrubem a própria moradia. Consequentemente, do total, 53 palestinos tiveram que arcar com esse ônus. “Existe uma política de segregação em relação às construções palestinas em Jerusalém leste.” Hartmann citou ainda o status diferenciado da população que vive sob ocupação em relação a documentos, com a violação de seu direito de ir e vir dentro de sua própria terra. Mencionou ainda o muro do apartheid, que corta a Cisjordânia, e as consequências aos palestinos. Hartmann apontou que democracia e caráter judeu do Estado são incompatíveis e criam essa situação de apartheid. Em outras palavras, somente em um estado laico seria possível garantir direitos iguais a todos, independentemente de religião ou etnia. Ele concluiu: “A solidariedade internacional é o que resta a esse território. Eu ouvi de palestinos e israelenses que a única coisa boa que tem acontecido é o BDS, porque a situação é dramática. Acho inclusive que apartheid é uma palavra muito amena para as coisas que acontecem ali.”

Nesse contexto, a situação dos 1,5 milhão de palestinos que vivem onde hoje é Israel – submetidos a leis racistas e alguns vivendo em aldeias sequer reconhecidas pelo estado, sendo privados de serviços públicos essenciais – foi lembrada pela plateia. Assim como a discriminação enfrentada pelos palestinos e descendentes para entrarem em Israel e a situação vivida pelos milhares de refugiados, cujo direito de retorno as suas terras e propriedades tem sido negado.

Aos sul-africanos Thando Manzi e Hlokosa Montu coube a analogia com o regime que enfrentaram entre 1948 e 1994 em seu país e o que está instituído na Palestina hoje. Estudante de geografia, o primeiro deles contextualizou historicamente a instituição do apartheid ali e ressaltou: “De 1962 a 1983, 3,5 milhões de negros foram removidos de suas casas (para os bantustões);em 1970, a representação política de não brancos foi abolida, privados de cidadania. O governo segregava o acesso à educação, ao trabalho, ao atendimento médico e a outros serviços públicos.” Ele relatou a luta contra o apartheid, as repressões sofridas pelos ativistas e comentou: “Depois vieram as sanções internacionais sobre a África do Sul e essas tornaram extremamente difícil ao governo manter essa estrutura.”

Dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos da África do Sul, Montu contou sua experiência durante o apartheid, destacando que à época havia 4 milhões de brancos e 40 milhões de negros, os quais precisavam ter sempre consigo um passaporte interno. “Havia uma lei que me obrigava todo dia às cinco horas da tarde a sair da cidade onde eu estava (trabalhando) e retornar à cidadezinha onde eu morava. Se eu estivesse numa cidade restrita à população branca e extrapolasse o tempo, eu tinha que mostrar uma carta do meu empregador para que a polícia não me prendesse. E na zona em que eu morava, havia constantes batidas policiais para checar se nossa documentação era equivalente ao lugar onde estávamos. Se éramos encontrados por exemplo num parque com nossas namoradas éramos presos ou expulsos dali.”

Também recuperando a história, ele contou que em 1913 o governo da África do Sul apresentou a chamada Lei da Terra, reservando apenas 13% do total para os negros, os quais foram “expulsos de todas as zonas férteis e áreas mais bonitas do país. Éramos jogados para cultivar as zonas que eram basicamente desertas, e só podíamos entrar nas cidades controladas pelos brancos para trabalhar”. Ele enfatizou: “É a mesma política aplicada pelo Estado de Israel sobre os palestinos, de documentação, de passaportes, assassinatos, prisões em massa, torturas, despejos de zonas férteis para zonas desertas. Mandela dizia que nossa liberdade jamais será completa enquanto os palestinos não forem livres. E tenho clareza que só as massas podem libertar a Palestina.”

Yarmouk

As massas estão se movendo no mundo árabe, sacudidas por revoluções que tiveram início em 2010 na Tunísia e seguiram para diversos outros países, como Egito, Iêmen, Líbia e Síria. Nesse último país, começaram em 15 de março de 2011. Após três anos de repressão bárbara por parte do ditador Bashar Al Assad, o resultado são cerca de 200 mil mortos, 250 mil desaparecidos, 300 mil presos e mais de 5 milhões de refugiados, incluindo palestinos que lá viviam – dados apresentados por Mohamad Kadri, da Frente em Defesa do Povo Palestino, na atividade sobre a situação dos palestinos na Síria, que encerrou a semana.

Desconstruindo a ideia de que a dinastia Assad é anti-imperialista e pró-palestina, ao apontar inclusive sua participação ao longo da história em massacres dessa população, a ativista síria Sara Al Suri apresentou tal quadro como uma “segunda nakba”. Em todo o país, viviam antes do início da revolução cerca de 500 mil palestinos, sendo 120 mil no campo de refugiados de Yarmouk, instituído em 1957. Tendo se somado nas lutas contra a ditadura, a maioria se viu obrigada a buscar novo refúgio, para escapar da repressão. Restaram 18 mil em Yarmouk, que vivem sob bloqueio total, tendo que se alimentar de “cães, gatos, grama”.

A solidariedade internacional, apontou Sara, é fundamental para que as revoluções triunfem, caminho para a Palestina livre. “Se Bashar cair, a primeira coisa que vai ocorrer é milhares de pessoas marcharem de Damasco (capital da Síria) a Jerusalém. Eu mesma vou voltar para lá e me somar nessa marcha.”

Direito de retorno

Os refugiados que vivem em Yarmouk são parte dos 5 milhões que vivem em campos de refugiados na região, a um raio de 150km da Palestina ocupada – afora mais 2 milhões que vivem dentro dos territórios, mas foram deslocados internamente por Israel. Os dados foram apresentados também no último dia da semana por Manuel Nabais da Furriela, presidente da Comissão de Refugiados, Exilados e Proteção Internacional da Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo (OAB-SP). Segundo lembrou ele, essa população é a que se encontra em situação de refúgio há mais tempo no mundo.

A campanha de BDS traz como uma de suas demandas que se cumpra o direito de retorno dos palestinos às suas terras e propriedades. Para além da solidariedade internacional, a iniciativa – como observou Maren Mantovani, do movimento Stop the Wall, durante o debate sobre Copa e BDS – se soma nas lutas justas contra o capital, as opressões e as privatizações no Brasil e demais países. Exemplo é a pressão para que não haja convênios de cooperação entre os governos e a empresa de abastecimento israelense Mekorot, a qual reproduz a ideologia de que a água é privilégio de poucos, ao manter a situação de escassez aos palestinos e abundância em assentamentos israelenses. Também ilustra esse quadro a ampliação de acordos militares pelos governos federal e estaduais com Israel. Tais tecnologias vêm sendo usadas na repressão aos movimentos sociais e populares brasileiros, bem como no genocídio da população pobre e negra.

Um instrumento para a luta global por outra comunicação

escrito por Soraya Misleh

Duas horas e meia de debates democráticos inauguraram, em Porto Alegre, o processo de construção da Carta Mundial da Mídia Livre, a ser apresentada em 2015, durante o Fórum Mundial de Mídia Livre, na Tunísia.

"Duas horas e meia de exercício democrático", como destacou Erika Campelo, da associação francesa Ritimo, inauguraram o processo de construção da Carta Mundial da Mídia Livre. O debate encerrou o Fórum de Mídia Livre, que aconteceu em Porto Alegre em 24 e 25 de janeiro, durante o Fórum Social Temático, que termina hoje (26).

A construção do documento foi decidida durante o Fórum Mundial de Mídia Livre, em março de 2013, na Tunísia. Uma minuta para a discussão foi apresentada no ensejo. Ao inaugurar a plenária, a senegalesa Diana Senghor, do Instituto Panos da África Ocidental, apontou que uma das propostas da carta é identificar e aproximar os atores de mídias livres para fortalecer esse movimento. Segundo ela, direitos e valores comuns precisam estar contemplados. Entre eles, o direito humano à comunicação, a descriminalização das rádios comunitárias, a proteção ao exercício de midialivristas. Bia Barbosa, do Coletivo Intervozes, citou outros pontos cruciais, como políticas públicas, garantia de liberdade de expressão, neutralidade da rede e proteção à privacidade dos usuários. Aos últimos, no caso brasileiro, seria importante aprovar no Congresso Nacional o marco civil da internet com essa garantia.

Terezinha Vicente, da Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada, enfatizou a importância de a carta ter uma posição clara anticapitalista das mídias livres. O que teve a concordância de outros ativistas, que sugeriram ainda incluir no documento que esse movimento afirme o compromisso com as lutas anticoloniais, antipatriarcais, antirracistas e anti-imperialistas. Também da Ciranda, Deborah Moreira propôs a inserção na carta da luta contra a criminalização das mídias livres enquanto movimento social e de luta política. E Rita Freire ressaltou a garantia de acesso livre ao conhecimento e da defesa do acesso às tecnologias abertas, baseadas em softwares livres. Para ela, o documento é importante aos movimentos sociais e populares pensarem sua política de comunicação voltada a fortalecer a alternativa contra-hegemônica.

A carta será discutida em diversas atividades mundiais, como em seminário durante o Fórum Social dos Povos no Marrocos, em maio próximo. Também está disponível para consulta pública em http://www.fmml.net/spip.php?article96.

Moções

Ao final da plenária, foram aprovadas moções em apoio à aprovação do marco civil da internet com garantia de neutralidade de rede e proteção à privacidade; pela descriminalização das rádios comunitárias e em repúdio a fechamento pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), no dia 22 de janeiro, de várias delas em Campinas, sem qualquer mandato judicial, num atentado à liberdade de expressão. Conforme Jerry Oliveira, do Movimento Nacional de Rádios Comunitárias, há 30 mil processos contra rádios comunitárias. "Queremos a descriminalização e reparação histórica do Estado brasileiro em relação a isso."

Foto da capa: Michelle Torinelli - Fotos internas: Deborah Moreira

Globo, os palestinos não se veem por aí

escrito por Soraya Misleh

Em 19 de dezembro, foi ao ar na chamada “novela das oito” da TV Globo, intitulada “Amor à vida”, uma cena que não deixa dúvidas a quem serve a emissora: aos interesses hegemônicos e ao império. A telenovela líder da audiência em âmbito nacional, seguida pelo Jornal Nacional, apresentou na trama um romance entre um palestino, Pérsio (Mouhamed Harfouch), e uma judia, Rebeca (Paula Braun). No capítulo em questão, o primeiro deles declara que pertenceu a uma “célula terrorista” e se diz arrependido: “Eu queria ser um homem bomba. Achava que era um sacrifício justo pela causa do meu povo. Só não fui porque eu sou filho único, a minha mãe me procurou, insistiu demais pra eu desistir. Mas eu ajudei a organizar um atentado. Um amigo meu, um amigo próximo, foi o homem bomba. Ele entrou num ônibus em Jerusalém e explodiu, matando muita gente. Mulheres, crianças... crianças como o seu irmãozinho, Rebeca. Eu me senti culpado, quando vi o seu irmão, quando falei com a sua família. Eu percebi que a guerra, o terrorismo, atinge pessoas indefesas, crianças. Vendo aquele menino sorrindo, eu percebi que um dia eu quis atacar crianças como ele. Como eu posso dizer que aquele menino é meu inimigo?.” Alguns capítulos depois, no dia 30, em uma nova conversa, Rebeca se recusa a falar com Pérsio, a não ser profissionalmente, pelo que ele quis fazer com “seu povo”. E em cena no dia 7 de janeiro último, a personagem busca conselhos junto a um rabino, já que teria se apaixonado por “um árabe, um palestino”, pertencente a um “grupo terrorista”.

O diálogo que inaugura essa farsa é permeado por desinformação, distorção e manipulação da verdade. Rebeca chega a afirmar que há muitos casais judeus e palestinos em Israel, como conviria a qualquer estado democrático. A verdade é que a própria convivência está comprometida. O apartheid imposto aos palestinos impede até que vivam no mesmo bairro. Alguém poderia afirmar que conhece um caso assim na atualidade. Mas não é essa a regra. Os palestinos que vivem onde hoje é Israel (território palestino até 1948, ano da criação desse estado como exclusivamente judeu) são considerados cidadãos de segunda ou terceira categoria, discriminados cotidianamente – há 30 leis racistas contra essas pessoas, que lhes impedem ter os mesmos direitos. Há dezenas de aldeias em que vivem que sequer são reconhecidas por Israel, o que significa que não lhes são assegurados serviços essenciais, como fornecimento de eletricidade, água, educação e saúde de qualidade.

Quem é o terrorista?

Em 1948, ano que na memória coletiva árabe é conhecido como “nakba”, a catástrofe, foram expulsos de suas terras e propriedades cerca de 800 mil palestinos e aproximadamente 500 aldeias foram destruídas para dar lugar a Israel. Massacres exemplares são hoje comprovados. Os palestinos, desumanizados desde o início desse projeto de limpeza étnica e colonização de suas terras, não foram apagados da história graças a sua resistência – apresentada na telenovela da Globo como terrorismo. Resistência reconhecida pelo direito internacional como legítima diante da ocupação.

Ademais, os chamados atentados com homens bomba, atos desesperados perante o silêncio do mundo e a falta de alternativas, há muito foram abandonados. A contextualização histórica sobre o terror de Estado que fabricou esses “homens bomba”, durante um tempo determinado, ficou fora da telinha. Assim como os contínuos ataques israelenses, que atingem sobretudo crianças e mulheres, com tecnologias de última geração vendidas depois ao mundo. Os laboratórios humanos em que se transformaram os palestinos no shopping center que se converteu Israel à venda de suas parafernálias militares também não encontraram lugar no diálogo que foi ao ar na “novela das oito”.

O autor de “Amor à vida”, Walcyr Carrasco, reforçou, assim, mitos que são denunciados pelo historiador israelense Ilan Pappe em seu artigo “Os dez mitos de Israel”. Entre eles, de que a luta palestina não tem outro objetivo que não o terror e que Israel é “forçado” a responder à violência. Segundo ele, a história distorcida serve à opressão, à colonização e à ocupação. “A ampla aceitação mundial da narrativa sionista é baseada em um conjunto de mitos que, ao final, lançam dúvidas sobre o direito moral palestino, o comportamento ético e as chances de qualquer paz justa no futuro. A razão é que esses mitos são aceitos pela grande mídia no Ocidente e pelas elites políticas como verdade.”

O Brasil não é exceção. Na contramão da campanha global por boicotes ao apartheid israelense, o governo federal se tornou nos últimos anos o segundo maior importador de tecnologias militares da potência que ocupa a Palestina e porta de entrada dessa indústria à América Latina. E sua cumplicidade com a opressão, ocupação e apartheid a que estão submetidos os palestinos é justificada a milhares de espectadores desavisados da novela da Globo, através de um discurso que reproduz a versão falsificada da história e se fortalece perante a representação orientalista – em que os árabes seriam “orientais” bárbaros e atrasados, ante cidadãos pacíficos e civilizados, segundo explicita o intelectual palestino Edward Said em seu livro “Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente”.

Democratização já!

Num cenário de concentração midiática, preconceitos como esse – não são os únicos – são especialmente graves. Assim como é bastante preocupante que o tradicional show natalino do cantor Roberto Carlos, exibido na mesma emissora ao final de 2013, tenha sido patrocinado pela marca Café Três Corações, que tem como acionista majoritária uma empresa israelense cuja colaboração com a opressão em terras palestinas já foi amplamente denunciada.

Apesar do crescimento acentuado de usuários da internet – que chegaram à marca de 94,2 milhões ao final de 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) –, a maioria da população brasileira ainda se informa sobretudo pela TV, presente em 96,9% dos domicílios, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE). Enquanto a propaganda nesse meio é o principal impulsionador ao consumo, programas de entretenimento como as telenovelas igualmente moldam comportamentos, conceitos e ideias. E a produção desses encontra-se nas mãos de apenas seis famílias, detentoras das concessões públicas que lhes garantem espaço para difundir livremente preconceitos e falsificações históricas. Outorgas concedidas muitas vezes ao arrepio das leis vigentes, renovadas pelo governo brasileiro sem qualquer critério para garantir a pluralidade e diversidade na produção cultural.

Para transformar a realidade, é fundamental reforçar a luta pela democratização das comunicações e denunciar essas distorções que grassam na TV brasileira. É importante se somar às vozes que, nas manifestações de junho de 2013, protestaram contra o monopólio da mídia e elegeram para tanto o lema: “Globo, a gente não se vê por aqui”.

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