Articulação por um mundo mais justo

escrito por Soraya Misleh

Integrante do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial explica mobilização de organizações e movimentos de várias partes do Brasil rumo a Túnis

Inaugurado em 2001, em Porto Alegre (RS), como alternativa à construção de outro mundo possível, o Fórum Social Mundial (FSM) acontece neste ano em Túnis, capital da Tunísia, entre 24 e 28 de março. Nesta edição, aponta para o desafio de aglutinar os movimentos de todo o globo em torno de lutas comuns e incidir politicamente sobre as decisões que afetam os cidadãos em todo o planeta. É o que afirma ao Engenheiro o diretor executivo da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e coordenador da ONG Vida Brasil, Damien Hazard, membro do Conselho Internacional (CI) do FSM. Segundo explicou ele, com o intuito de ampliar a presença brasileira nesse processo, ainda tímida, realizou-se em Salvador (BA), entre 22 e 24 de janeiro, seminário preparatório ao fórum, que contou com 235 participantes de 130 organizações e foi acompanhado online por 400 pessoas.

Como está o processo de preparação do FSM?

Estamos num processo de mobilização nos vários continentes. Já aconteceram diversos eventos preparatórios, por exemplo agora em Salvador. Entre 13 a 15 de fevereiro, vai haver uma reunião em Casablanca, no Marrocos, e um seminário técnico internacional do CI sobre a metodologia do FSM 2015. Uma delegação de pessoas do Conselho Internacional foi para a Grécia, depois da chegada de um governo de esquerda. Até dia 31 de janeiro, estavam abertas as inscrições para atividades e estamos num processo de aglutinação dessas, inclusive culturais, numa perspectiva horizontal, autogestionada.

Quantas atividades estão inscritas até agora e de que países?

Até agora, tem quase mil atividades inscritas, a maioria da Europa, Norte da África e África subsaariana. Apenas 3% são da América Latina, um número muito pequeno. A expectativa é de que o seminário em Salvador tenha desencadea­do uma série de inscrições por parte das organizações brasileiras. Esse foi mais um passo na mobilização e principalmente no processo de convergência das atividades, com a presença de movimentos muito diversos, rurais, urbanos, mais tradicionais na sua forma de representação e também novos que participaram notadamente das manifestações de junho de 2013, como o Passe Livre e o Levante Popular da Juventude. A previsão do FSM é chegar a mais ou menos 1.200 atividades. A ideia é construir atividades conjuntas, por isso, a delegação brasileira está propondo quatro atividades fundamentais sobre os temas: enfrentamento ao racismo, à xenofobia e reparações; democracia participativa; agenda pós-2015 e o objetivo do desenvolvimento sustentável (que é o atual processo de negociação nas Nações Unidas); e democratização das comunicações por meio do Fórum Mundial de Mídia Livre. Além disso, outras serão puxadas por uma parte das organizações, a exemplo dos movimentos das pessoas com deficiência e saúde mental e do direito à cidade.

Qual a importância ainda hoje do FSM e da realização no Norte da África, em especial na Tunísia que passou por um processo revolucionário?

Mesmo que haja dúvidas sobre a capacidade de incidência política do fórum, um tema que está sendo debatido, ele continua se afirmando como o maior encontro da sociedade civil planetária. E vamos ter várias iniciativas de articulações internacionais, por exemplo o Fipam, Fórum Internacional das Plataformas de ONGs, que fará sua assembleia geral um dia antes da abertura do FSM. Vários fóruns paralelos vão também acontecer e assembleias de movimentos. Será no Norte da África porque esse é, nos últimos anos, um dos focos da dinâmica mundial dos movimentos sociais que está trazendo sementes de emancipação e do processo mais revolucionário, questionando a ordem neoliberal e capitalista. A Tunísia foi o país precursor da primavera árabe e hoje é o mais promissor em relação ao fortalecimento da democracia na região. Esse dinamismo da sociedade civil faz com que a chama da utopia continue viva.

Durante o seminário em Salvador, muitas vezes se falou da importância da mídia livre. Entre os fóruns que antecedem o FSM, como você já citou, haverá o Mundial de Mídia Livre (FMML) nos dias 22 e 23 de março. Qual a importância desse espaço?

É fundamental, porque trabalha uma questão central para todos os movimentos e a humanidade, a democratização das comunicações. O FSM hoje passa também por certa crise de visibilidade, pelo fato de a mídia comercial no mundo não repercutir esse processo. Isso de certa forma é compensado pela mídia alternativa, precisamos fortalecer esses espaços, para alcançar outro patamar de comunicação no mundo.

Quais as perspectivas com esse FSM de avanço nas lutas gerais?

O FSM tem como desafios muito grandes uma maior articulação dos movimentos, particularmente entre os mais tradicionais e os novos. Está se pensando na realização de um grande seminário pós-FSM com a presença de lideranças do mundo inteiro desses movimentos para voltar a refletir sobre o impacto e a capacidade de incidência política do fórum. Outra questão é refletir sobre uma nova simbologia do FSM, que se descolou do Fórum Econômico Mundial de Davos. Está em discussão a possibilidade de rea­lização de um evento ao mesmo tempo, em oposição. Temos ainda desafios nas relações com os governos. Nos últimos anos, vários filhos e filhas do FSM conseguiram acessar o poder através das urnas, apoiados pelos movimentos, implementaram políticas públicas propostas dentro desse processo, mas a experiência mostra, principalmente na América Latina, que isso não significou a superação do capitalismo. Representa para os movimentos sociais novos desafios, como ter maior incidência política de modo a derrubar alguns aspectos de governança extremamente conservadora, em especial quanto à política econômica. O FSM deve aprofundar as alternativas de outra economia.

Com sionista no Ministério da Defesa, é imperativo fortalecer BDS no Brasil

escrito por Soraya Misleh

Dias antes de ser anunciado o nome do novo ministro da Defesa, ao apagar das luzes de 2014, já surgiam informações de que o antes governador da Bahia, Jacques Wagner, havia manifestado seu desejo de assumir essa pasta. De fato, seu nome foi confirmado na sequência e em seu discurso de posse, uma das autoridades saudadas nominalmente foi o embaixador de Israel no Brasil, Reda Mansour. Uma sinalização nada insuspeita de que o Brasil pode alçar ainda mais posições no vergonhoso ranking de um dos cinco maiores importadores de tecnologia militar israelense. E que será preciso fortalecer ainda mais a unidade entre os movimentos sociais e populares em torno da campanha BDS Brasil (de boicote, desinvestimento e sanções a Israel).

Para além de manter uma política de aproximação econômica com a potência que ocupa a Palestina, agravante é que o atual ministro é sionista. Ainda jovem, integrou a Organização da Juventude Sionista no Brasil e mantém nos dias atuais ligações estreitas com os líderes israelenses responsáveis pela limpeza étnica do povo palestino. Em uma entrevista à Federação Israelita do Rio Grande do Sul (Firs) publicada em seu site no mês de outubro de 2006, quando Wagner foi eleito governador da Bahia, ele declarou: “A partir do momento em que virei deputado federal (eleito em 1990 com três mandatos seguidos), fui membro do grupo parlamentar Brasil-Israel e, nesta condição, visitei Israel. Quando há algum problema envolvendo o Estado de Israel, o embaixador israelense no Brasil me chama para conversar. Participo sempre que a comunidade me convida para eventos importantes.” Na mesma entrevista, afirmou: “Na área de tecnologia, muitas vezes sou procurado por empresas israelenses para tentar abrir contato no Brasil. Na Bahia, por exemplo, já existem várias parcerias na questão da irrigação entre produtos baianos e empresas que desenvolvem tecnologias e sistemas de israel.”

“Bom relacionamento”

Foi assim em 2010, quando Wagner integrou a comitiva oficial junto ao presidente Lula em viagem a Israel, a qual resultou em acordo de cooperação de segurança entre a potência que ocupa a Palestina e o Brasil, sinalizando a ampliação de acordos militares que viria a seguir – processo em curso desde 2007. Conforme publicado na mídia baiana à época, “o convite para Wagner viajar com Lula se deu por conta do bom relacionamento do governador baiano com o governo israelense.[...] Wagner também promoveu um encontro entre Abbas (presidente da colaboracionista Autoridade Nacional Palestina) e a Sociedade Israelita da Bahia”.

Entre os acordos firmados em sua gestão no estado, está o termo de cooperação entre a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) e a israelense Mekorot, responsável pelo apartheid da água na Palestina, no ano de 2013. E uma de suas últimas ações nesse sentido foi a inauguração em 28 de outubro de 2014, no Centro Industrial do Subaé, em Feira de Santana (BA), da fábrica da Tama Plastic Industry, que produz embalagens plásticas especiais para a colheita de algodão, denominadas Round Module Wrap (RMW). A companhia israelense está situada no Kibbutz Mishmar HaEmek, na região da Galileia. Historicamente, os kibbutzim serviram à colonização da Palestina. Em um site sionista, consta uma “batalha” ocorrida ali em abril de 1948, com a participação da Haganah, uma das forças paramilitares que participaram da limpeza étnica que culminou na criação do Estado de Israel em 15 de maio do mesmo ano. Ademais, empresas israelenses sustentam a política sionista desde sempre e boicotá-las é a demonstração de solidariedade ativa aos palestinos. Infelizmente, não é o que tem feito o governo brasileiro, o que inclusive vai de encontro às convenções e acordos internacionais na área de direitos humanos de que o País é signatário. Não foi ainda o que fez o sionista Wagner na Bahia e não é o que deve fazer à frente do Ministério da Defesa. Diante desse cenário, só uma resposta: fortalecer a mobilização por BDS no Brasil.

Gaza 2014: mais um capítulo da limpeza étnica do povo palestino

escrito por Soraya Misleh

Israel condenou toda a população de Gaza a uma punição coletiva. O pretexto desta vez foi a morte de três jovens colonos na Cisjordânia, território palestino ocupado militarmente por Israel também em 1967.

Desde que teve início a nova ofensiva israelense na faixa de Gaza, denominada “Margem protetora”, há sete dias, foram mortos 172 palestinos. Os feridos somam 1.230. A maioria das vítimas é formada por mulheres e crianças. É o maior ataque promovido pelas forças de ocupação desde 2008-2009, quando foram assassinados cerca de 1.400 palestinos em Gaza, na chamada operação “Chumbo fundido”, entre 27 de dezembro e 18 de janeiro. Em novembro de 2012, em apenas oito dias, somaram-se 150 vítimas fatais. Os dados elucidam que a prática israelense em relação à estreita faixa é recorrente. Assim como os pretextos utilizados e os métodos. Nesse sentido, é importante situar histórica e politicamente as razões para essa nova onda de massacres em Gaza.

Localizada em território palestino ocupado militarmente desde 1967, Gaza é a área mais densamente povoada do mundo: em apenas 360km2 vivem 1,5 milhão de palestinos, a maioria deslocada internamente, ante a expulsão de suas terras e casas sobretudo a partir de 15 de maio de 1948, ano da criação do Estado de Israel (para os árabes, a nakba, catástrofe). Pode ser considerada um grande campo de concentração a céu aberto. Um bloqueio assassino é imposto por Israel desde 2006, quando o Hamas venceu democraticamente as eleições para governar a região. Um ano antes, os cerca de 8 mil colonos que viviam em assentamentos ilegais ali foram retirados, sob as ordens do então primeiro-ministro israelense Ariel Sharon - não à toa apelidado de “carniceiro”, com uma vasta folha de serviços prestados ao projeto sionista de limpeza étnica do povo palestino. Nenhuma atitude progressista em sua política. Não compensava financeiramente manter uma força de ocupação na região para garantir a presença de apenas 8 mil colonos. A partir daí, estava aberto o caminho para que Gaza se tornasse um alvo preferencial ao intento sionista de dar continuidade a sua política de limpeza étnica do povo palestino. A eleição do Hamas – e o argumento falso de que se tratava de um grupo de extremistas que queriam jogar os judeus ao mar – foi a pá de cal para sedimentar essa política. Não obstante as críticas que se possa ter a esse partido, vale reiterar que foi eleito democraticamente e o que faz diante de ofensivas é resistência a uma ocupação criminosa. Sem, obviamente, o mesmo poder de fogo.

Breve contexto histórico

Além de sua geopolítica, Gaza assim seria um local estratégico para Israel seguir de forma direta com sua política de limpeza étnica, a qual é elemento fundante da criação do estado como etnicamente homogêneo: ou seja, um estado exclusivamente judeu. Hoje, já há documentação suficiente que comprova que houve planos deliberados de limpeza étnica do povo palestino para que tal projeto resultasse exitoso. O mais agressivo deles e derradeiro é conhecido como Plano Dalet. Ali estavam mapeadas as aldeias palestinas que deveriam desaparecer do mapa para dar lugar ao novo estado. Em apenas seis meses desde que foi posto em prática, em maio de 1948, foram destruídas cerca de 500 dessas aldeias e expulsos 800 mil palestinos de suas terras.

Era necessário simultaneamente promover ondas de imigração de judeus para lá e expulsar os habitantes nativos para garantir uma maioria judaica naquelas terras – até 29 de novembro de 1947, ano em que a Assembleia Geral das Nações Unidas recomendou a partilha da Palestina em um estado judeu e um árabe, sem consulta aos habitantes, o percentual de judeus não passava de 30%. Isso mesmo após ondas de imigração. Iniciadas ainda no final do século XIX, ano em que surge o movimento sionista, cujo pai foi o austríaco chamado Theodor Herzl, buscavam assegurar a colonização da terra e a conquista do trabalho, com a recusa de emprego a palestinos.

Com o apoio decisivo da Grã Bretanha, que passou a deter o mandato sobre a Palestina como espólio da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi possível levar a cabo seu projeto. O uso do terrível Holocausto perpetrado na Europa durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) contribuiu para que uma nova injustiça e crimes contra a humanidade fossem cometidos, desta vez na Palestina. A partir daí, Israel viria a ter um novo aliado preferencial, os Estados Unidos, que se tornaram potência desde então. Os governos árabes, aliados do imperialismo, também são cúmplices da nakba, como apontado pela história. A comunidade internacional, responsável por essa tragédia, precisa ser denunciada pela sua continuidade. Retórica excessiva, mas ação não efetiva ou nenhuma diante das arbitrariedades cometidas cotidianamente por Israel são o pano de fundo para essa nova onda de massacres em Gaza.

O pretexto e os fatos

O pretexto desta vez foi a morte de três jovens colonos na Cisjordânia, território palestino ocupado militarmente por Israel também em 1967. A despeito de o Hamas ter negado ser responsável e a morte dos adolescentes estar cercada de incertezas, Israel condenou toda a população de Gaza a uma punição coletiva. O que a grande mídia não divulga é que – como nas ofensivas anteriores -, os antecedentes couberam a Israel. Em maio último, matou a sangue frio dois jovens palestinos. Seus nomes: Nuwara Nadim e Muhammad Abu Al-Thahir. Eles compõem uma extensa lista de vítimas de crimes cometidos pelo estado sionista nos últimos meses e anos. O que também não se divulga é que os jovens judeus transitavam entre um assentamento ilegal e outro e foram mortos em uma região em que colonos fundamentalistas não raro atacam violentamente os palestinos. Em outras palavras, a responsabilidade por sua morte é de Israel, que os colocou lá para dar cabo ao seu projeto e vem disseminando a cultura do ódio - em uma região onde até 1948, segundo relatos de palestinos que viveram a nakba e eram crianças à época, “judeus, cristãos e muçulmanos” brincavam juntos, sem rótulos. Após a morte dos jovens judeus, teve início uma perseguição a palestinos na Cisjordânia - um deles, Mohammed Abu Khdair, de apenas 16 anos, foi queimado vivo após tortura.

Muitas casas foram invadidas e demolidas e a lista de presos políticos palestinos – que hoje somam cerca de 5 mil, incluindo crianças – tem crescido, sem qualquer comprovação de que tenham participado da ação, como também é praxe em Israel.
Na estratégia de continuidade da limpeza étnica do povo palestino, mais uma fracassada “negociação de paz” e a busca por destruir a unidade entre Fatah e Hamas também explicam os ataques a Gaza. Assim como uma crise interna no governo israelense. Como nas ofensivas anteriores, o ganho político está nos cálculos. Lamentavelmente, a maioria dos israelenses apoia essas ações criminosas, vendidas a eles como em sua defesa contra terroristas. Para garantir esse suporte, Israel tem sido hábil em sua propaganda de desumanização dos palestinos.

O que se vê, contudo, é um crescimento da indignação mundial, com centenas de manifestações ao redor do globo, e uma heroica resistência por parte dos palestinos, nas diversas partes do território. Há perspectivas de que a nova onda de massacres detone uma terceira intifada (levante). Num contexto de revoluções populares iniciadas no mundo árabe em final de 2010 e em curso – inspiradas na longa e heroica luta do povo palestino -, o novo levante pode ser o fermento para reanimar e expandir o movimento contra ditadores aliados do imperialismo em toda a região – os quais garantem a manutenção da ocupação e apartheid na Palestina. Manifestações gigantescas em solidariedade a Gaza no Iêmen, na Síria, no Egito, entre outros países, demonstram isso. A questão palestina é o epicentro.

Por outro lado, cresce também o movimento de boicotes, desinvestimento e sanções a Israel. No Brasil, a solidariedade ao povo palestino deve fortalecer esse chamado. O País se converteu no segundo maior importador de tecnologias militares de Israel nos últimos anos. As mesmas tecnologias utilizadas neste momento nos verdadeiros laboratórios humanos em que se converteram os palestinos de Gaza. É fundamental exigir do governo brasileiro a ruptura imediata desses acordos com Israel, bem como de relações diplomáticas.

É urgente isolar econômica e politicamente o estado sionista e cercar de solidariedade os palestinos. Se hoje o sentido é de uma emergência em relação a isso, assim como a limpeza étnica do povo palestino é um contínuo, é necessário que a solidariedade não se encerre após o fim desse novo massacre. Mas que continue até que a Palestina seja livre e se garanta o retorno dos 5 milhões de palestinos que vivem em campos de refugiados as suas terras e propriedades. Até que se faça justiça, o que somente se dará em um estado único, laico, democrático em toda a Palestina histórica, com direitos iguais a todos que queiram viver em paz com os palestinos.

"Abaixo a feira da morte! Eu boicoto Israel!"

escrito por Soraya Misleh

Como parte da campanha de boicotes ao apartheid israelense - que se inspira no movimento que pôs fim ao regime de segregação de negros na África do Sul -, a Frente em Defesa do Povo Palestino/BDS Brasil promove ação virtual entre os dias 8 e 10 de abril. O chamado é para que pessoas solidárias ao povo palestino publiquem foto segurando cartaz com os seguintes dizeres: “Abaixo a feira da morte! Eu boicoto Israel!” Ou, se preferirem, compartilhem o banner com esses dizeres.

Nesse período, ocorre no Rio de Janeiro a Laad 2014 (Feira Internacional de Segurança Pública e Corporativa). Denominada feira da morte, nesta edição, tem como expositoras nove empresas israelenses – além de duas subsidiárias brasileiras. É o menor número nos últimos anos, o que mostra que a campanha BDS Brasil começa a dar resultado. Em 2013, havia 30 empresas e em 2011, 28. É fundamental aumentar a pressão e denunciar que essas empresas estão vendendo tecnologias militares testadas nos verdadeiros laboratórios humanos em que se converteram os palestinos.

Israel vem à feira com o objetivo de firmar novos acordos militares com o Brasil, que tem sido visto como um novo mercado, diante do cerco que a campanha de boicotes vem impondo sobretudo na Europa. De olho na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016, terão espaço estratégico para apresentar seus produtos e serviços, que no Brasil vêm sendo usados na repressão dos movimentos sociais e populares e no genocídio da população pobre e negra (encontram-se nas mãos de polícias como as do Rio de Janeiro e de São Paulo, por exemplo). É preciso fortalecer a campanha por embargo militar imediato a Israel, num cenário em que governo federal e estaduais têm ampliado os acordos militares com Israel, na contramão do que vem ocorrendo no mundo.

Algumas das expositoras

A Rafael Defence é uma das expositoras. A empresa divulga em seu site o relacionamento “especial” com a chamada IDF (Forças de Defesa de Israel), desenvolvendo produtos personalizados ao exército ocupante. Também entre as expositoras, a israelense FA B Defense, fabricante de equipamentos táticos e acessórios bélicos, que anuncia o desenvolvimento e produção de armas para a potência ocupante. E a Israel Export Institute, uma agência governamental israelense que visa facilitar as oportunidades de negócios, joint ventures e “alianças estratégicas” entre Israel e parceiros globais.

Também estão entre as expositoras a AEL Sistemas e a Ares, duas subsidiárias brasileiras da Elbit – uma das 12 empresas israelense que têm atuado na construção do muro do apartheid e que produz os Vants (veículos aéreos não tripulados) usados nos ataques a Gaza. Em outubro de 2012, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o relator especial Richard Falk chamou ao boicote à Elbit. No Brasil há 15 anos, tal empresa ganhou recentemente dois novos contratos milionários com o Exército brasileiro. E o Governo do Rio Grande do Sul pretende expandir sua presença no Brasil, com um projeto de centro aeroespacial baseado na AEL em Porto Alegre. Com isso, a capital gaúcha pode vir a se tornar o polo de pesquisa militar israelense mais importante no exterior. Tal projeto, financiado com dinheiro público, também concede vantagens aos negócios baseados nos crimes cometidos por Israel.

No Dia da Terra, rolezinho palestino contra o apartheid

escrito por Soraya Misleh

Em 30 de março de 1976, os palestinos realizaram greve geral e protestos contra a ocupação de terras por Israel na Galiléia, duramente reprimidos. Foi a primeira grande mobilização iniciada dentro das áreas onde hoje se encontra o Estado de Israel, desde sua criação em 1948 (a nakba, catástrofe, para os árabes). Por isso, a data é celebrada em todo o mundo como o Dia da Terra palestino. Em São Paulo, não passou em branco. A Frente em Defesa do Povo Palestino – que reúne dezenas de organizações da sociedade civil brasileira, entre as quais a Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada – realizou um “rolezinho palestino” no Shopping Higienópolis, em frente à loja Spicy, que anuncia em seu site a venda a máquina de gaseificação caseira da marca Sodastream, com fábrica instalada em assentamento na Cisjordânia, território palestino ocupado militarmente por Israel. A iniciativa integrou a campanha de Boicotes, Desinvestimento e Sanções (BDS) à potência que ocupa a Palestina. No ensejo, um vendedor da loja afirmou aos ativistas que não vende mais SodaStream, muito embora o site da rede continue a anunciar o produto.

A campanha tornou-se conhecida em janeiro último, quando a atriz estadunidense Scarlett Johansson anunciou que seria garota-propaganda da marca. Desde 2007, ela era embaixadora mundial da ONG de Direitos Humanos Oxfam, contrato que foi rompido, mediante pressão do movimento BDS. Segundo comunicado da organização não governamental, divulgado na mídia, “o papel de Johansson promovendo a empresa SodaStream é incompatível com seu cargo de embaixadora mundial da Oxfam. A Oxfam acredita que negócios como os da SodaStream, que opera em assentamentos, agravam a pobreza e negam os direitos das comunidades palestinas que trabalhamos para apoiar. (...) A Oxfam se opõe a qualquer comércio dos assentamentos israelenses, que são ilegais sob a lei internacional."

Como parte da campanha de BDS, uma série de iniciativas têm sido feitas no mundo em frente a lojas que vendem produtos como SodaStream, com vitórias importantes. O rolezinho palestino se inseriu nesse contexto e se inspirou nos movimentos de jovens da periferia brasileira, de mesmo nome, que questionaram em janeiro último o apartheid social vigente no País e a privatização da cidade, em que frequentar certos locais se torna privilégio de poucos. Um paralelo com o apartheid israelense.

África do Sul

Outra analogia, desta vez entre o sistema de segregação de negros na África do Sul de 1948 a 1994 e dos palestinos há 66 anos, foi feita durante a atividade que inaugurou a Semana contra o apartheid israelense no Brasil, no dia 24 de março último, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Iniciativa da Frente Palestina da Universidade de São Paulo (USP), que contou com o apoio da Frente em Defesa do Povo Palestino, a semana se inseriu no calendário global que englobou atividades do gênero em centenas de cidades ao redor do mundo. Em São Paulo, seguiu até dia 28 com palestras e debates na USP e na PUC.

Além de abordar o apartheid a partir da África do Sul à Palestina, a semana incluiu entre os temas a Copa de 2014 e o Boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel; roda de conversa com mulheres e LGBTs sobre essa campanha; o relato de experiências de estudantes brasileiros que visitaram a Cisjordânia recentemente; e a situação dos palestinos de Yarmouk, campo de refugiados na Síria, cercado pelo regime sírio há oito meses, sem acesso a alimentos, medicamentos e ajuda humanitária.

À primeira mesa, o jornalista Arturo Hartmann, diretor do filme “Sobre futebol e barreiras”, feito na Palestina, apresentou a definição de apartheid como “separação”, “desenvolvimento separado”, bem a contextualização histórica e uma série de situações na Cisjordânia que mostram sua aplicação no caso palestino. Centrando sua fala no que ocorre nessa parte da Palestina, ele falou sobre planos sionistas que levaram à instituição de bantustões naquelas terras. Entre os exemplos citados pelo jornalista estão o apartheid basicamente territorial em Hebron, o uso discriminatório da água no Vale do Jordão e o que se vê hoje em Jerusalém, “na prática totalmente anexada”, com permissão aos palestinos de viverem em apenas 7,8% do total (somando os lados oeste e leste). Citando dados da ONG B’TSelem, ele revelou que de 2004 a 2014, foram demolidas 503 casas palestinas, sendo que a conta sobre essa ação por parte do exército é repassada aos habitantes expulsos de suas propriedades, a menos que derrubem a própria moradia. Consequentemente, do total, 53 palestinos tiveram que arcar com esse ônus. “Existe uma política de segregação em relação às construções palestinas em Jerusalém leste.” Hartmann citou ainda o status diferenciado da população que vive sob ocupação em relação a documentos, com a violação de seu direito de ir e vir dentro de sua própria terra. Mencionou ainda o muro do apartheid, que corta a Cisjordânia, e as consequências aos palestinos. Hartmann apontou que democracia e caráter judeu do Estado são incompatíveis e criam essa situação de apartheid. Em outras palavras, somente em um estado laico seria possível garantir direitos iguais a todos, independentemente de religião ou etnia. Ele concluiu: “A solidariedade internacional é o que resta a esse território. Eu ouvi de palestinos e israelenses que a única coisa boa que tem acontecido é o BDS, porque a situação é dramática. Acho inclusive que apartheid é uma palavra muito amena para as coisas que acontecem ali.”

Nesse contexto, a situação dos 1,5 milhão de palestinos que vivem onde hoje é Israel – submetidos a leis racistas e alguns vivendo em aldeias sequer reconhecidas pelo estado, sendo privados de serviços públicos essenciais – foi lembrada pela plateia. Assim como a discriminação enfrentada pelos palestinos e descendentes para entrarem em Israel e a situação vivida pelos milhares de refugiados, cujo direito de retorno as suas terras e propriedades tem sido negado.

Aos sul-africanos Thando Manzi e Hlokosa Montu coube a analogia com o regime que enfrentaram entre 1948 e 1994 em seu país e o que está instituído na Palestina hoje. Estudante de geografia, o primeiro deles contextualizou historicamente a instituição do apartheid ali e ressaltou: “De 1962 a 1983, 3,5 milhões de negros foram removidos de suas casas (para os bantustões);em 1970, a representação política de não brancos foi abolida, privados de cidadania. O governo segregava o acesso à educação, ao trabalho, ao atendimento médico e a outros serviços públicos.” Ele relatou a luta contra o apartheid, as repressões sofridas pelos ativistas e comentou: “Depois vieram as sanções internacionais sobre a África do Sul e essas tornaram extremamente difícil ao governo manter essa estrutura.”

Dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos da África do Sul, Montu contou sua experiência durante o apartheid, destacando que à época havia 4 milhões de brancos e 40 milhões de negros, os quais precisavam ter sempre consigo um passaporte interno. “Havia uma lei que me obrigava todo dia às cinco horas da tarde a sair da cidade onde eu estava (trabalhando) e retornar à cidadezinha onde eu morava. Se eu estivesse numa cidade restrita à população branca e extrapolasse o tempo, eu tinha que mostrar uma carta do meu empregador para que a polícia não me prendesse. E na zona em que eu morava, havia constantes batidas policiais para checar se nossa documentação era equivalente ao lugar onde estávamos. Se éramos encontrados por exemplo num parque com nossas namoradas éramos presos ou expulsos dali.”

Também recuperando a história, ele contou que em 1913 o governo da África do Sul apresentou a chamada Lei da Terra, reservando apenas 13% do total para os negros, os quais foram “expulsos de todas as zonas férteis e áreas mais bonitas do país. Éramos jogados para cultivar as zonas que eram basicamente desertas, e só podíamos entrar nas cidades controladas pelos brancos para trabalhar”. Ele enfatizou: “É a mesma política aplicada pelo Estado de Israel sobre os palestinos, de documentação, de passaportes, assassinatos, prisões em massa, torturas, despejos de zonas férteis para zonas desertas. Mandela dizia que nossa liberdade jamais será completa enquanto os palestinos não forem livres. E tenho clareza que só as massas podem libertar a Palestina.”

Yarmouk

As massas estão se movendo no mundo árabe, sacudidas por revoluções que tiveram início em 2010 na Tunísia e seguiram para diversos outros países, como Egito, Iêmen, Líbia e Síria. Nesse último país, começaram em 15 de março de 2011. Após três anos de repressão bárbara por parte do ditador Bashar Al Assad, o resultado são cerca de 200 mil mortos, 250 mil desaparecidos, 300 mil presos e mais de 5 milhões de refugiados, incluindo palestinos que lá viviam – dados apresentados por Mohamad Kadri, da Frente em Defesa do Povo Palestino, na atividade sobre a situação dos palestinos na Síria, que encerrou a semana.

Desconstruindo a ideia de que a dinastia Assad é anti-imperialista e pró-palestina, ao apontar inclusive sua participação ao longo da história em massacres dessa população, a ativista síria Sara Al Suri apresentou tal quadro como uma “segunda nakba”. Em todo o país, viviam antes do início da revolução cerca de 500 mil palestinos, sendo 120 mil no campo de refugiados de Yarmouk, instituído em 1957. Tendo se somado nas lutas contra a ditadura, a maioria se viu obrigada a buscar novo refúgio, para escapar da repressão. Restaram 18 mil em Yarmouk, que vivem sob bloqueio total, tendo que se alimentar de “cães, gatos, grama”.

A solidariedade internacional, apontou Sara, é fundamental para que as revoluções triunfem, caminho para a Palestina livre. “Se Bashar cair, a primeira coisa que vai ocorrer é milhares de pessoas marcharem de Damasco (capital da Síria) a Jerusalém. Eu mesma vou voltar para lá e me somar nessa marcha.”

Direito de retorno

Os refugiados que vivem em Yarmouk são parte dos 5 milhões que vivem em campos de refugiados na região, a um raio de 150km da Palestina ocupada – afora mais 2 milhões que vivem dentro dos territórios, mas foram deslocados internamente por Israel. Os dados foram apresentados também no último dia da semana por Manuel Nabais da Furriela, presidente da Comissão de Refugiados, Exilados e Proteção Internacional da Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo (OAB-SP). Segundo lembrou ele, essa população é a que se encontra em situação de refúgio há mais tempo no mundo.

A campanha de BDS traz como uma de suas demandas que se cumpra o direito de retorno dos palestinos às suas terras e propriedades. Para além da solidariedade internacional, a iniciativa – como observou Maren Mantovani, do movimento Stop the Wall, durante o debate sobre Copa e BDS – se soma nas lutas justas contra o capital, as opressões e as privatizações no Brasil e demais países. Exemplo é a pressão para que não haja convênios de cooperação entre os governos e a empresa de abastecimento israelense Mekorot, a qual reproduz a ideologia de que a água é privilégio de poucos, ao manter a situação de escassez aos palestinos e abundância em assentamentos israelenses. Também ilustra esse quadro a ampliação de acordos militares pelos governos federal e estaduais com Israel. Tais tecnologias vêm sendo usadas na repressão aos movimentos sociais e populares brasileiros, bem como no genocídio da população pobre e negra.

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