Comunicação: do cordel à tecnologia

O acesso à comunicação na contemporaneidade não pode ser definida somente por plataformas tecnológicas, como se fosse a única solução para tudo. Quando restringimos a uma alternativa, caímos na armadilha da verticalização. O princípio é o poder de escolha aos diversos tipos de mídias, desde o cordel, o jornal mural ao blog, a grupos, redes (acesso democrático por banda larga à internet), ao vídeo, a rádios e tvs comunitárias e a grades e pautas democráticas nas demais mídias. Tradição e modernidade são compatíveis e podem se misturar. Dão liga, porque inspiram manifestações e linguagens diversas e com um caráter importante: permitem a espontaneidade da participação.

Aqui não se trata de melhor ou pior, mas meios diferentes, com amplitudes menores ou maiores de público e participantes. Ao engessar as possibilidades, nos tornamos vítimas de nossos próprios discursos libertários. Por isso, achei interessante a apresentação do case “Cordel de Comunicação” apresentado pela jornalista pernambucana Raquel Lasalvia, do Centro de Cultura Luiz Freire, (CCLF), de Olinda, no último dia 4, durante o Seminário Desafios da Liberdade de Expressão. O evento foi promovido pelo Fórum Nacional pela Democracia da Comunicação (FNDC), em São Paulo.

Em conversa com o Blog Cidadãos do Mundo, ela explicou que a iniciativa surgiu em agosto do ano passado, no processo de divulgação das propostas do FNDC para o marco regulatório da comunicação no país. “A questão era popularizar as informações sobre os pontos discutidos. O jornalista Ivan Moraes Filho (também do CCLF) escreveu um texto em formato de cordel, nesse sentido. Daí João Brant (Intervozes) ajudou no mote, além de contribuições de Ricardo Mello”, disse. Assim surgiu a Peleja Comunicacional do Marco Regulatório e ‘Conceição’ Pública na terra sem lei dos coronéis eletrônicos.

No conteúdo, há trechos como esse:

“...Só que devia ter regra não é brincadeira não garantir a todo mundo liberdade de expressão pelo menos é o que fala nossa Constituição...”

“Depois fizemos parceria com o Intervozes e tivemos o apoio da Ford Foundation, para fazer as cartilhas em cordel. A publicação saiu em novembro de 2011 e foi distribuída na plenária do FNDC, no mês seguinte e no Encontro Nacional sobre Direito à Comunicação, em fevereiro, no Recife”.

O projeto deve se expandir para vídeo. “A ideia é que haja a participação de atores na interpretação e que até 15 de julho o trabalho esteja concluído e possa ser divulgado pela internet e TVs públicas”, adiantou.

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Liberdade de expressão: o princípio da horizontalidade

Liberdade de expressão. Um termo que exige aprofundamento e que, cotidianamente, é pasteurizado, em definições genéricas, como slogan de campanhas. Refleti, nesta semana, sobre essa questão, durante e pós o Seminário Desafios da Liberdade de Expressão, promovido pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), em São Paulo, no último dia 4. A única certeza que tirei disso tudo: que somente quando há “horizontalidade” na comunicação é que o processo, de fato, ocorre. Para isso, a primeira coisa é quebrar rótulos e estereótipos e partir para os motivos que levam aos desafios...Colocar o dedo na ferida.

Quem fala por quem em nossa sociedade? Afinal, não é direito de todos e todas? Indivíduos? Tendo o princípio do respeito mútuo? A gente assume realmente nosso protagonismo ou quem faz isso por nós em nosso nome, sem sequer saibamos o que estão assumindo como nossas ânsias, reivindicações e metas?...

De duas ou uma: acomodação, alienação ou falta de acesso aos meios devido a monopólios e sistemas hierárquicos. Em qualquer uma das circunstâncias, cabe a cada um de nós as mudanças...

Por que lutamos por um direito que é constitucional? Já analisaram essa lógica perversa? Mas no dia a dia, nos defrontamos com uma parcela significativa da sociedade da qual fazemos parte, que não tem acesso ao mesmo. E de qual parcela estamos falando? A lista é longa, quando observamos a realidade brasileira, de forma regionalizada. São personagens (cidadãos e cidadãs) que integram grupos, com seus mais variados recortes, que anseiam por ter espaço e acesso a se manifestar.
- Cidadão (ã) comum (ing) que não faz parte de alguma associação, grupo específico etc;
- Agricultores familiares;
- Artistas de rua;
- Analfabetos;
- Desempregados;
- Idosos (maior idade);
- Imigrantes;
- Gays, lésbicas e simpatizantes;
- Jovens;
- Migrantes;
- Moradores em situação de rua;
- Mulheres;
- Negros;
- Pessoas com deficiência;
- Populações tradicionais (quilombolas, caiçaras, ribeirinhos, caboclos) e indígenas;
- Trabalhadores formais e informais;
- Ou seja, a maior parte da população. ... O que falta para que se consiga a liberdade, no contexto comunicacional, que é um elemento que nos diferencia e, ao mesmo tempo, nos aproxima do sentido coletivo? Entre as diferentes possibilidades não-tecnológicas e tecnológicas, podemos citar:
- Acesso à alfabetização; a conhecimentos gerais e regionalizados; à informação contextualizada, à regularização de documentos básicos (certidão de nascimento, RG...); a meios de locomoção e à saúde; entre outros...
- Educação para a cidadania (formal e não-formal);
- Educomunicação;
- Espaços públicos para que as pessoas possam se expressar (pela arte cênica, pela música, pela fala, pelo jornalismo, ...);
- Estímulo às manifestações culturais; a preservação da historicidade;
- Democracia digital;
- Acabar com o monopólio na mídia;
- Acesso gratuito à banda larga;
- Regulamentação das concessões de rádios comunitárias...

Tudo parece tão óbvio, mas porque até hoje não conseguimos superar esses obstáculos? Quais interesses nos movem, que nos impedem de fazer as transformações necessárias? Quando nos expressamos, reconhecemos nossas origens, quem somos, os desafios que permeiam nossa vida cotidiana, o potencial do qual somos capazes e conseguimos ter uma leitura de mundo mais dinâmica, já que temos capacidade de fazer as escolhas dentro das diferentes realidades, que integram nossa vida no planeta, a partir de nossas ruas, nossos bairros, cidades, estados, países, continentes e do mundo.

E quando falamos em marco regulatório, voltando ao Brasil, tudo isso tem de estar na base das discussões, ou seja, horizontalmente, sem processos demagógicos e retóricos ou calcados em partidarismo político ou em meios de detenção de poder (formas veladas). Caso contrário, travestimos velhos modelos verticalizados, como inclusivos.

Agora, o exercício é o seguinte: nos dispor a reconhecer isso e mudar os caminhos, para que os meios realmente se edifiquem para que tenhamos uma sociedade mais justa. Como? Por meio do voto nas eleições; de campanhas educativas e estimuladoras àqueles que não têm acesso aos meios de comunicação; de autocrítica a modelos de gestão do poder público, de organizações do terceiro setor e da iniciativa privada. Está mais do que na hora de colocarmos o espelho e enxergarmos nosso reflexo. Enquanto, não fizermos isso, as reivindicações não passarão desse estágio.

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Rumo à RioMais20: seca, fome, morte e draft zero

O título da notícia, no último dia 2, é o seguinte: "Um milhão de crianças correm risco de morrer de desnutrição no Sahel, alerta UNICEF", no site da Organização das Nações Unidas (ONU).

Nas entrelinhas, está descrita mais essa informação: Existem atualmente 15 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar no Sahel, que se estende do Oceano Atlântico ao Mar Vermelho.

Os discursos se esvaem quando a brutalidade imposta pela realidade nos bate à porta. Nessa hora, o que é "genérico" no draft zero tem sentimento, dor, nome e lugar nesse planeta. Mais que dinheiro, essa situação envolve a necessidade de mudança de diretrizes políticas, econômicas, de educação socioambiental e não só de "ajuda" que se restringe aos dólares e não se importa com a manutenção da melhoria, sem enxergar as pessoas em sua integridade.

Aqui está um fato em que a expressão "justiça socioambiental" toma corpo e grita, mas poucos ouvem e agem em relação a essa situação...E será que nós fazemos parte desse grupo? Sofremos (me coloco nisso) de um vazio de sensibilidade nesse mundo, em que colocamos como prioridade o efêmero e, não, o vital...

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Rumo à Rio+20: Um olhar sobre Perito Moreno

Registrei essa imagem do Glacial Perito Moreno, no Parque Nacional Los Glaciares, na Patagônia Argentina, no último dia 17 de abril. O gigante de gelo dos Andes vem sofrendo transformações gradativas e grandes calotas começaram a se desprender do maciço, a partir de março deste ano, depois de um longo período de tempo.

As ocorrências anteriores foram registradas oficialmente em 1988, 2004, 2006 e 2008.
Esse patrimônio da humanidade, com 60 m de altura e 200km2 de extensão é um exemplo "vivo" do quanto é importante termos um olhar voltado à conservação do planeta. Ele ainda permanece em sua maior parte estável, mas até quando?

Veja também mais artigos sobre a Rio+20 no Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk:
11/04/12 - Site da ONU pretende ser canal de diálogo com a sociedade sobre a Rio+20
22/03/12 - Nota: EIMA8 lança informe rumo à Rio+20
22/03/12 - Campanha A Água e a Segurança Alimentar
22/03/12 - Sustentabilidade: Gro Brundtland no Brasil
13/03/12 - #RioMais20: Reflexão: Como entender o jogo do tabuleiro?
13/03/12 - Nota: expectativas oficiais sobre a Rio+20
11/03/12 - Nota: como participar do processo da Cúpula dos Povos?
10/03/12 - Refugiados climáticos: do alerta ao fato
04/03/12 - Pensata - Rio+20: agora é a vez do como
02/03/12 - A importância da discussão da água na Rio+20
Entre outras, desde 05/12/10.

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A experiência da moeda social

Agora, me restam cinqüenta centavos de elo como lembrança. Vocês podem estar perguntando – “O que ela quer dizer com isso? – Esperem, já explico. É a moeda social que circulou durante o VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, no mês passado, em Salvador, na Bahia.

O público adquiria voluntariamente para fazer compras na Feira Solidária ou na praça da alimentação do evento e não perdi a oportunidade...Mas o mais interessante nesse exercício, entretanto, foi saber a história atrás da iniciativa. Assim conheci um pouco da origem dos bancos comunitários no Estado.

São o Ecoluzia (primeiro, de 2005), de Simões Filho; de Guine, em Saramandaia; de Ilhamar, em Matarandiba, no município de Vera Cruz; de Casa do Sol, em Cairú. O próximo deverá ser em Ouricangas e receberá o nome Banco Fonte de Água Fresca.A Universidade Federal da Bahia (UFBA) mantém hoje a Incubadora Tecnológica de Economia Solidária e Gestão de Desenvolvimento Territorial, que auxilia esses projetos.

“A gente sempre fala de resgate da auto-estima. O objetivo é produzir renda na comunidade para os mais humildes, sem condições de tomar crédito fora. Podemos comprar em nossa área, alimentos, principalmente da pesca. Nossa comunidade é pequena, só não conseguimos ainda encontrar no nosso bairro roupas e materiais de construção, aí temos que usar o real”, contou a moradora Simone Santana, do bairro Santa Luzia.

Ao ouvir o relato, lembrei de minha infância, quando ganhei uma pequena máquina registradora de brinquedo, que tinha dinheiro de papel. A sensação de autonomia era muito boa. Naquela época, obviamente tudo não passava de algo lúdico. Quando voltei à realidade, observei que as cédulas (com design próprio) em cada comunidade tem um significado infinitamente maior para cada um desses cidadãos (ãs), que envolve além de renda e sobrevivência, a importância da geração de confiança nas relações humanas.

É interessante observar o quanto ainda é necessário avançar nesse modelo cooperativo de bancos comunitários no país. O processo começou em 1997, com o Banco Palmas, no Ceará, e em 2006, surgiu a Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento. Entretanto, com o tamanho continental do Brasil, novas incursões e histórias estão por vir. E quem sabe um dia, o que é exceção, se torne um modelo econômico expressivo.

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