VII Encontro da Mulher Negra Quilombola

escrito por Vanessa Cruz

Comunidade São Bernadinho - Mojú - Pará

Nos dias 12, 13 e 14 de setembro será realizado o VII Encontro da Mulher Negra Quilombola na comunidade de São Bernardino, município de Moju, nordeste do Pará. Com o tema “Pelos braços da mulher negra: A força de um Quilombo”, a ideia do evento, organizado por elas mesmas, é mostrar a força da mulher quilombola como liderança nas lutas pela titulação dos territórios quilombolas

Encontro está sendo realizado pela Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Pará (Malungu) e pelo Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa). Além da participação das mulheres quilombolas do estado do Pará, os encontros de mulheres negras quilombolas tem recebido a participação de entidades de defesa da mulher de outros estados como o Maranhão e o Amapá.

Mulheres Quilombolas reúnem-se para discutir caminhos para combater a opressão

escrito por Vanessa Cruz

Ocupar espaços, lutar por direitos e mostrar a diversidade de experiências históricas por que passam as mulheres negras quilombolas é tirar da invisibilidade a opressão e o racismo vividos diariamente por elas. Daí a importância de criar espaços para discutir e mobilizar caminhos que levem à autonomia e exercício pleno da cidadania. Esses foram os objetivos buscados pelos seis encontros de mulheres negras quilombolas organizados até aqui. Nessa trajetória, mudanças sensíveis e significativas já foram percebidas, principalmente a valorização da mulher como liderança, o respeito conquistado nas relações familiares e os espaços institucionais ocupados. Mas ainda há muito por que lutar. O machismo ainda faz vítimas e o racismo ainda segrega.

O VII Encontro da Mulher Negra Quilombola, que vai acontecer dias 12, 13 e 14 de setembro de 2014, na comunidade de São Bernardino, município de Moju, traz a responsabilidade de dar continuidade a essa luta plantada no I Encontro, ainda em 2001, e rememorar todo o caminho trilhado até aqui. Com o tema “Pelos braços da mulher negra: a força de um quilombo”, escolhido cuidadosamente em um encontro de mulheres no território quilombola de Jambuaçu, a ideia é mostrar a força da mulher quilombola como liderança nas lutas pela titulação dos territórios quilombolas. É um evento organizado por elas e para elas.

Durante os três dias de evento serão discutidos temas como a educação quilombola, a segurança pública, a saúde quilombola e os usos das ervas medicinais, e a Marcha das Mulheres Negras de 2015. Também serão ofertadas oficinas de capacitação política para jovens mulheres negras quilombolas com o objetivo de fortalecer as novas lideranças. Ao final, serão redigidos encaminhamentos em um plano de ação e em uma carta compromisso a serem endereçados aos órgãos competentes.

O Encontro está sendo realizado pela Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Pará (Malungu) e pelo Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa), com o apoio financeiro da Fundação Ford, da ICCO, da ASW e da Comissão Estadual Quilombola. Recebe também a colaboração da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA), da Secretaria de Estado de Segurança Pública e defesa Social (SEGUP), e do Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp).

Um pouco de história

O primeiro encontro foi organizado por militantes do Cedenpa na comunidade de Bacabal, em Salvaterra. E foi num momento especial em que as comunidades ali começaram o processo de formalização do movimento em associações quilombolas. Foi o pontapé inicial para mais dois encontros em Salvaterra, um em Baião, um em Inhangapi e o último no município de Acará, em comemoração aos 30 anos do Cedenpa.

Para Luzia Bethânia Alcântara, os encontros são oportunidades de relatar o que acontece nos quilombos, de aprender umas com as outras e se capacitar ainda mais. “Mulher não é só para estar no fogão, ela também tem opinião. Por isso, espaços como esse são importantes para a libertação das mulheres”, ressalta Beth Alcântara.

Além da participação das mulheres quilombolas de todo o estado do Pará, os encontros de mulheres negras quilombolas tem recebido a participação de entidades de defesa da mulher de outros estados como o Maranhão e o Amapá.

Fonte: Malungu

Manifesto da Marcha das Mulheres Negras 2015 contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver

escrito por Vanessa Cruz

Nós, mulheres negras brasileiras, descendentes das aguerridas quilombolas e que lutam pela vida, vimos neste 25 de Julho – Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha denunciar a ação sistemática do racismo e do sexismo com que somos atingidas diariamente mediante a conivência do poder público e da sociedade, com a manutenção de uma rede de privilégios e de vantagens que nos expropriam oportunidades de condição e plena participação da vida social.

Nesta data vimos visibilizar a incidência do racismo e do sexismo em nossas vidas, assim como as nossas estratégias de sobrevivência, nosso legado ancestral e nossos projetos de futuro e afirmar que a continuidade de nossa comunidade, da nossa cultura e dos nossos saberes se deve única e exclusivamente, a nós, mulheres negras. Transcorrido esse marco histórico e a atualidade de nossas lutas, nos valemos do Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha para anunciar a realização da Marcha das Mulheres Negras 2015 Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, que realizaremos em 13 de maio do próximo ano, em Brasília.

Somos 49 milhões de mulheres negras, isto é, 25% da população brasileira. Vivenciamos a face mais perversa do racismo e do sexismo por sermos negras e mulheres. No decurso diário de nossas vidas, a forjada superioridade do componente racial branco, do patriarcado e do sexismo, que fundamenta e dinamiza um sistema de opressões que impõe, a cada mulher negra, a luta pela própria sobrevivência e de sua comunidade. Enfrentamos todas as injustiças e negações de nossa existência, enquanto reivindicamos inclusão a cada momento em que a nossa exclusão ganha novas formas.

Impõe-se na luta pela terra e pelos territórios quilombolas, de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade.

A despeito da nossa contribuição, somos alvo de discriminações de toda ordem, as quais não nos permitem, por gerações e gerações de mulheres negras, desfrutarmos daquilo que produzimos.

Fomos e continuamos sendo a base para o desenvolvimento econômico e político do Brasil sem que a distribuição dos ativos do nosso trabalho seja revertida para o nosso próprio benefício.

Consideramos que, mesmo diante de um quadro de mobilidade social pela via do consumo, percebido nos últimos anos, as estruturas de desigualdade de raça e de gênero mantêm-se por meio da concentração de poder racial, patriarcal e sexista, alijando a nós, mulheres negras, das possibilidades de desenvolvimento e disputa de espaços como deveria ser a máxima de uma sociedade justa, democrática e solidária.

Não aceitamos ser vistas como objeto de consumo e cobaias das indústrias de cosméticos, moda ou farmacêutica. Queremos o fim da ditadura da estética europeia branca e o respeito à diversidade cultural e estética negra. Nossa luta é por cidadania e a garantia de nossas vidas.

Estamos em Marcha para exigir o fim do racismo em todos os seus modos de incidência, a exemplo da saúde, onde a mortalidade materna entre mulheres negras estão relacionadas à dificuldade do acesso aos serviços de saúde, à baixa qualidade do atendimento recebido aliada à falta de ações e de capacitação de profissionais de saúde voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras estão expostas; da segurança pública cujos operadores e operadoras decidem quem deve viver e quem deve morrer mediante a omissão do Estado e da sociedade para com as nossas vidas negras.

Denunciamos as batalhas solitárias contra a drogadição e a criminalização do nosso povo e contra a eliminação de nossas filhas e filhos pelas forças policiais e pelo tráfico, há muito tempo! Denunciamos o encarceramento desregrado de nossos corpos, vez que representamos mais de 60% das mulheres que ocupam celas de prisões e penitenciárias deste país.

Ao travarmos batalhas solitárias por justiça num quadro de extrema violência racial, denunciamos a cruel violência doméstica que vem levando aos maus tratos e homicídios de mulheres negras, silenciados em dados oficiais. Lutamos pelo fim do racismo estrutural patriarcal que promove a inoperância do poder público e da sociedade sobre a exterminação da nossa população negra .

Estamos em marcha para reivindicamos o livre culto de nossas divindades de matriz africana sem perseguições, nem profanações e depredações de nossos templos sagrados.

Estamos em marcha contra a remoção racista das populações das localidades onde habitam.Lutamos por moradia digna; por cidades que não limitem nosso direito de ir e vir e contra a segregação racial do espaço urbano e rural; por transporte coletivo de qualidade; por condições de trabalho decente nas diferentes profissões que exercemos. Valorizamos nosso patrimônio imaterial em terreiros, escolas de samba, blocos afros, carimbó, literatura e todas as demais manifestações culturais, definidoras da nossa identidade negra.

Estamos em marcha porque somos a imensa maioria das que criam nossos filhos e filhas sozinhas, as chefes de famílias, com parcos recursos e o suor de nosso único e exclusivo trabalho.

Estamos em marcha:

  1. pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;
  2. pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;
  3. pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;
  4. pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;
  5. pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;
  6. pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;
  7. pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade;
  8. pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;
  9. pela nossa participação efetiva na vida pública.

Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Nosso ponto de chegada e início de uma nova caminhada é 13 de maio de 2015 – Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo – em Brasília/DF.

Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.

Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.

“UMA SOBE E PUXA A OUTRA!

Brasil, 25 de Julho de 2014.

COMITE IMPULSOR NACIONAL DA MARCHA DAS MULHERES NEGRAS CONTRA O RACISMO E A VIOLÊNCIA E PELO BEM VIVER,2015

Inscrições abertas para o Congresso de Pesquisadores Negros

escrito por Vanessa Cruz

Inscrições abertas para o VIII Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as (Copene) será realizado na Universidade Federal do Pará (UFPA). O evento contará com a presença da ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir/PR), Luiza Bairros, proferindo a cerimônia de abertura do encontro. Com o tema “Ações Afirmativas: Cidadania e Relações Étnico-raciais”, o congresso será realizado entre os dias 29 de julho e 2 de agosto de 2014.

O Copene tem como objetivo principal apresentar e discutir os processos de produção e difusão de conhecimentos intrinsecamente ligados às lutas históricas empreendidas pelas populações negras. A coordenadora local do evento, professora Wilma Coelho, comenta a importância do congresso a ser realizado na capital paraense: “Nós teremos a oportunidade de ampliar e discutir essa temática a partir de diversas perspectivas e estamos trabalhando, há dois anos, para que este evento esteja à altura de nossas expectativas e das expectativas de todos os nossos convidados. Esperamos que todos venham para este debate para que nós consigamos ampliar essa agenda de discussão para os próximos dez anos e possamos pensar novas perspectivas e ampliar todas as nossas conquistas já havidas até este momento nessa conjuntura político-social e acadêmica”.

Gaúcha e residente na Bahia, a ministra Luiza Barros é pós-graduada em Sociologia, na Michigan State University. Atua, há 35 anos, no Movimento Negro Unificado (MNU). Sua militância teve início no Movimento de Mulheres, mas participou ativamente das principais iniciativas do Movimento Negro na Bahia e no Brasil e justamente, por isso, foi eleita, em 1991, como primeira coordenadora Nacional do MNU. Luiza também é fundadora do Projeto Raça e Democracia nas Américas, em parceria com a organização norte-americana Conferência Nacional de Cientistas Políticos Negros.

Programação

Estima-se que cerca de 1300 pesquisadores e convidados, do Brasil e do mundo, participem do congresso. Entre as atividades do evento, estão os seguintes seminários: III Seminário Internacional de Pesquisadores Negros; II Seminário de Iniciação Científica da ABPN; Simpósio da American Educational Research Association (AERA); VI Seminário Nacional e VIII Seminário Regional sobre Formação de Professores e Relações Étnico-Raciais.

Associação

Promovendo debates que visam à formulação, á implementação, ao monitoramento e à avaliação das políticas públicas para uma sociedade justa, a Associação Brasileira de Pesquisadores (as) Negros(as) – ABPN – constitui um dos órgãos fundamentais da rede de instituições que atuam na sociedade brasileira no combate ao racismo, ao preconceito e à discriminação racial. O órgão é composto por pesquisadores negros, cujo interesse é voltado para pesquisas acadêmicas em temas pertinentes à construção e ampliação do conhecimento, com temas de interesse das populações negras no Brasil, na África e em Diáspora.

Ver online : COPENE 2014

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