Manifesto da Marcha das Mulheres Negras 2015 contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver

escrito por Vanessa Cruz

Nós, mulheres negras brasileiras, descendentes das aguerridas quilombolas e que lutam pela vida, vimos neste 25 de Julho – Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha denunciar a ação sistemática do racismo e do sexismo com que somos atingidas diariamente mediante a conivência do poder público e da sociedade, com a manutenção de uma rede de privilégios e de vantagens que nos expropriam oportunidades de condição e plena participação da vida social.

Nesta data vimos visibilizar a incidência do racismo e do sexismo em nossas vidas, assim como as nossas estratégias de sobrevivência, nosso legado ancestral e nossos projetos de futuro e afirmar que a continuidade de nossa comunidade, da nossa cultura e dos nossos saberes se deve única e exclusivamente, a nós, mulheres negras. Transcorrido esse marco histórico e a atualidade de nossas lutas, nos valemos do Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha para anunciar a realização da Marcha das Mulheres Negras 2015 Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, que realizaremos em 13 de maio do próximo ano, em Brasília.

Somos 49 milhões de mulheres negras, isto é, 25% da população brasileira. Vivenciamos a face mais perversa do racismo e do sexismo por sermos negras e mulheres. No decurso diário de nossas vidas, a forjada superioridade do componente racial branco, do patriarcado e do sexismo, que fundamenta e dinamiza um sistema de opressões que impõe, a cada mulher negra, a luta pela própria sobrevivência e de sua comunidade. Enfrentamos todas as injustiças e negações de nossa existência, enquanto reivindicamos inclusão a cada momento em que a nossa exclusão ganha novas formas.

Impõe-se na luta pela terra e pelos territórios quilombolas, de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade.

A despeito da nossa contribuição, somos alvo de discriminações de toda ordem, as quais não nos permitem, por gerações e gerações de mulheres negras, desfrutarmos daquilo que produzimos.

Fomos e continuamos sendo a base para o desenvolvimento econômico e político do Brasil sem que a distribuição dos ativos do nosso trabalho seja revertida para o nosso próprio benefício.

Consideramos que, mesmo diante de um quadro de mobilidade social pela via do consumo, percebido nos últimos anos, as estruturas de desigualdade de raça e de gênero mantêm-se por meio da concentração de poder racial, patriarcal e sexista, alijando a nós, mulheres negras, das possibilidades de desenvolvimento e disputa de espaços como deveria ser a máxima de uma sociedade justa, democrática e solidária.

Não aceitamos ser vistas como objeto de consumo e cobaias das indústrias de cosméticos, moda ou farmacêutica. Queremos o fim da ditadura da estética europeia branca e o respeito à diversidade cultural e estética negra. Nossa luta é por cidadania e a garantia de nossas vidas.

Estamos em Marcha para exigir o fim do racismo em todos os seus modos de incidência, a exemplo da saúde, onde a mortalidade materna entre mulheres negras estão relacionadas à dificuldade do acesso aos serviços de saúde, à baixa qualidade do atendimento recebido aliada à falta de ações e de capacitação de profissionais de saúde voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras estão expostas; da segurança pública cujos operadores e operadoras decidem quem deve viver e quem deve morrer mediante a omissão do Estado e da sociedade para com as nossas vidas negras.

Denunciamos as batalhas solitárias contra a drogadição e a criminalização do nosso povo e contra a eliminação de nossas filhas e filhos pelas forças policiais e pelo tráfico, há muito tempo! Denunciamos o encarceramento desregrado de nossos corpos, vez que representamos mais de 60% das mulheres que ocupam celas de prisões e penitenciárias deste país.

Ao travarmos batalhas solitárias por justiça num quadro de extrema violência racial, denunciamos a cruel violência doméstica que vem levando aos maus tratos e homicídios de mulheres negras, silenciados em dados oficiais. Lutamos pelo fim do racismo estrutural patriarcal que promove a inoperância do poder público e da sociedade sobre a exterminação da nossa população negra .

Estamos em marcha para reivindicamos o livre culto de nossas divindades de matriz africana sem perseguições, nem profanações e depredações de nossos templos sagrados.

Estamos em marcha contra a remoção racista das populações das localidades onde habitam.Lutamos por moradia digna; por cidades que não limitem nosso direito de ir e vir e contra a segregação racial do espaço urbano e rural; por transporte coletivo de qualidade; por condições de trabalho decente nas diferentes profissões que exercemos. Valorizamos nosso patrimônio imaterial em terreiros, escolas de samba, blocos afros, carimbó, literatura e todas as demais manifestações culturais, definidoras da nossa identidade negra.

Estamos em marcha porque somos a imensa maioria das que criam nossos filhos e filhas sozinhas, as chefes de famílias, com parcos recursos e o suor de nosso único e exclusivo trabalho.

Estamos em marcha:

  1. pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;
  2. pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;
  3. pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;
  4. pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;
  5. pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;
  6. pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;
  7. pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade;
  8. pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;
  9. pela nossa participação efetiva na vida pública.

Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Nosso ponto de chegada e início de uma nova caminhada é 13 de maio de 2015 – Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo – em Brasília/DF.

Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.

Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.

“UMA SOBE E PUXA A OUTRA!

Brasil, 25 de Julho de 2014.

COMITE IMPULSOR NACIONAL DA MARCHA DAS MULHERES NEGRAS CONTRA O RACISMO E A VIOLÊNCIA E PELO BEM VIVER,2015

Inscrições abertas para o Congresso de Pesquisadores Negros

escrito por Vanessa Cruz

Inscrições abertas para o VIII Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as (Copene) será realizado na Universidade Federal do Pará (UFPA). O evento contará com a presença da ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir/PR), Luiza Bairros, proferindo a cerimônia de abertura do encontro. Com o tema “Ações Afirmativas: Cidadania e Relações Étnico-raciais”, o congresso será realizado entre os dias 29 de julho e 2 de agosto de 2014.

O Copene tem como objetivo principal apresentar e discutir os processos de produção e difusão de conhecimentos intrinsecamente ligados às lutas históricas empreendidas pelas populações negras. A coordenadora local do evento, professora Wilma Coelho, comenta a importância do congresso a ser realizado na capital paraense: “Nós teremos a oportunidade de ampliar e discutir essa temática a partir de diversas perspectivas e estamos trabalhando, há dois anos, para que este evento esteja à altura de nossas expectativas e das expectativas de todos os nossos convidados. Esperamos que todos venham para este debate para que nós consigamos ampliar essa agenda de discussão para os próximos dez anos e possamos pensar novas perspectivas e ampliar todas as nossas conquistas já havidas até este momento nessa conjuntura político-social e acadêmica”.

Gaúcha e residente na Bahia, a ministra Luiza Barros é pós-graduada em Sociologia, na Michigan State University. Atua, há 35 anos, no Movimento Negro Unificado (MNU). Sua militância teve início no Movimento de Mulheres, mas participou ativamente das principais iniciativas do Movimento Negro na Bahia e no Brasil e justamente, por isso, foi eleita, em 1991, como primeira coordenadora Nacional do MNU. Luiza também é fundadora do Projeto Raça e Democracia nas Américas, em parceria com a organização norte-americana Conferência Nacional de Cientistas Políticos Negros.

Programação

Estima-se que cerca de 1300 pesquisadores e convidados, do Brasil e do mundo, participem do congresso. Entre as atividades do evento, estão os seguintes seminários: III Seminário Internacional de Pesquisadores Negros; II Seminário de Iniciação Científica da ABPN; Simpósio da American Educational Research Association (AERA); VI Seminário Nacional e VIII Seminário Regional sobre Formação de Professores e Relações Étnico-Raciais.

Associação

Promovendo debates que visam à formulação, á implementação, ao monitoramento e à avaliação das políticas públicas para uma sociedade justa, a Associação Brasileira de Pesquisadores (as) Negros(as) – ABPN – constitui um dos órgãos fundamentais da rede de instituições que atuam na sociedade brasileira no combate ao racismo, ao preconceito e à discriminação racial. O órgão é composto por pesquisadores negros, cujo interesse é voltado para pesquisas acadêmicas em temas pertinentes à construção e ampliação do conhecimento, com temas de interesse das populações negras no Brasil, na África e em Diáspora.

Ver online : COPENE 2014

Peru será sede do VIII Fórum Social Panamazonico em 2016

escrito por Vanessa Cruz

Após o encerramento do VII FSPA, a reunião entre o Comitê de Articulação, o Comitê Local e representantes das organizações e movimentos participantes do Fórum, acatou a proposta da delegação peruana e indicou este país como sede do VIII Forum Social Panamazonico a se realizar em 2016.

Nos últimos anos o Peru tem se destacado como um dos mais importantes centros da resistência amazônica. A rebelião indígena de Bagua, em 2009 que impediu a implantação do Tratado de Livre Comércio Estados Unidos- Peru e mais recentemente as fortes mobilizações que até agora paralisaram os planos de construção das hidrelétricas de Paitzpatango e Inambari demonstram a pujança de uma luta que se estende a outras regiões, como Cajamarca, que já se tornou célebre pela determinação de seus habitantes em não permitir a instalação de uma mina a céu aberto. A realização do VIII FSPA no Peru permitirá a confluência dos movimentos amazônicos e andinos, unindo nossa região desde a foz do Amazonas até as nascentes do rio-mar, ampliando os horizontes do nosso movimento.

Em breve, as organizações e movimentos peruanos divulgarão o nome da cidade da Amazônia Peruana que será a sede do VIII Fórum Social Panamazonico.

A caminhada já começou.

Fonte: Fórum Social Panamazônico.

Carta de Macapá | Os povos livres da Panamazônia vencerão!

escrito por Vanessa Cruz

CARTA DE MACAPÁ

Na esquina do Rio Amazonas com a Linha do Equador, no meio do mundo, os povos da Panamazonia se encontraram. Escutem, agora, as nossas vozes.

Somos os guardiães da floresta e dos rios, diversos, diferentes mas com a vontade de caminhar juntos. Queremos transformar a Amazonia na terra sem males sonhada por nossos avós e para isto temos nosso coração cheio de coragem e solidariedade.

A Amazonia é o nosso território. Nossas comunidades indígenas, campesinas, quilombolas, ribeirinhas e tradicionais devem ter suas terras garantidas, respeitadas e protegidas contra os mega projetos predatórios, destruidores da natureza e da vida humana. Para isto é fundamental por parte de nossos países a adesão, respeito e cumprimento aos tratados internacionais que estabelecem o Direito a Consulta Prévia, Livre, Bem Informada e de Boa Fé, como o Convenção169 da Organização Internacional do Trabalho e a Declaração de Direitos dos Povos Indígenas da Organização das Nações Unidas. Pelo mesmo motivo prestamos nosso incondicional apoio a criação em Quito, Equador de um Tribunal Internacional contra os Crimes cometidos contra a Natureza, como forma de proteger a Mãe Terra dos ataques destrutivos daqueles que intentam reduzir a vida no planeta a uma simples mercadoria.

Hoje particularmente nossas atenções se voltam contra a instalação de represas hidrelétricas nos nossos rios, os projetos de mineração a céu aberto, de exploração petrolífera na selva e a expansão de monoculturas que atentam contra a vida de povoações e comunidades por toda Panamazonia. Para esta luta solicitamos o apoio e a solidariedade do mundo inteiro.

Os povos livres da Pan-Amazônia vencerão!

Decidimos também pressionar as Nações Unidas para que declarem esta década como de priorização, fortalecimento da Agricultura Familiar e democratização dos meios de produção pela sua contribuição para a Soberania e Segurança Alimentar, fundamentais para o bem viver dos povos.

A Amazonia vive um tempo de ameaças. A dominação colonial francesa da Guiana é um anacronismo inaceitável que atenta contra a liberdade e a integração de nossos povos e proclamamos nosso apoio incondicional á luta pela descolonização e independência da terra guianense. Da mesma forma nos posicionamos pela desativação imediata das bases militares estadunidenses e europeias na Panamazonia e em todo continente que constituem uma afronta a independência e soberania de nossos países. Reafirmamos nosso apoio solidário ao processo revolucionário bolivariano em Venezuela que mais uma vez se defronta com tentativas de desestabilização e golpe e manifestamos nossa certeza de que na pátria de Bolívar o povo vencerá mais uma vez. Acreditamos e lutamos para que a integração continental tenha como eixo o bem estar de nossas populações e não os interesses das empresas transnacionais e grandes corporações e assim instamos a Unasul, Celac e outros organismos continentais para que revisem os projetos, como o IIRSA, cujo fundamento neoliberal é uma agressão ao direito dos povos. Da mesma forma rechaçamos a manutenção do injusto bloqueio econômico estadunidense contra a nossa irmã, Cuba. Não pode haver integração sem o direito de livre circulação de todos os cidadãos através das fronteiras nacionais. Denunciamos o tráfico de pessoas, a transformação da migração em um negócio e o trabalho escravo daí decorrente. Reafirmamos o direito inalienável de qualquer cidadão à segurança, trabalho e proteção no país onde escolheu morar.

A Amazonia vive também um momento de transformações. Com alegria verificamos o avanço da luta antipatriarcal e antirracista. Consideramos o feminismo e o movimento das mulheres indígenas um caminho poderoso na construção de um mundo novo sem exploração do corpo e da vida das mulheres que devem ter todos os direitos assegurados e vivenciados. Da mesma forma saudamos a rebeldia de nossas juventudes que se lançam nas ruas para combater a ausência de políticas públicas para os jovens, o braço opressor do estado e o extermínio dos jovens negros e pobres. Lutamos para construir um tempo onde o direito à vida reine soberano sobre o planeta.

Em toda a Panamazonia é hora de construir blocos e alianças onde se integrem trabalhadores dos campos e cidades, povos originais, quilombolas comunidades tradicionais , movimentos de mulheres e jovens, comunicadores, pesquisadores e acadêmicos para a defesa de nossos territórios, nossos direitos, nossas culturas, nossos saberes ancestrais e os direitos da Mãe Terra .

É o momento também de avançarmos na reflexão e debate sobre o Bem Viver como paradigma alternativo que emerge desde os povos da Amazonia frente a crise sistêmica – econômica, social, energética, ambiental, ética e moral que atinge toda a humanidade.

Nossa resistência avança e vai se transformando em uma onda irresistível. Neste sentido convocamos a todos e todas para que se engajem na produção e ampla circulação de conteúdos regionais e comunitários que levem para toda Amazonia e o mundo nossas mensagens, nos contrapondo a desinformação promovida pelos oligarcas da mídia, contribuindo para a democratização e afirmação da comunicação como um direito humano.

Todos nós, homens e mulheres da Amazonia devemos nos transformar em criadores , semeadores e tecedores da Educação Popular como vivencia transdisciplinar da emancipação da vida no planeta.

A Amazonia é um céu de muitas estrelas. Aqui, em Macapá, assumimos o compromisso de trabalhar para ampliarmos nossa constelação, incorporando ao Forum Social Panamazonico todos os movimentos e organizações que lutam em defesa de nossos territórios , nossos direitos e os da Natureza.

Este é o nosso caminho, a nossa luta e o nosso destino.

OS POVOS LIVRES DA PANAMAZONIA VENCERÃO !

Macapá, 31 de Maio de 2014

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