Thaira Zoabi relata a história e a luta do povo palestino

Em roda de conversa organizada pela Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada e realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Thaira Zoabi falou sobre a Palestina, enfatizando a importância histórica, política e econômica do seu território, uma das atuais nações sem Estado. As palavras da jovem acrescentaram conhecimentos aos que lá estiveram. Resumiremos aqui alguns pontos desta roda de conversa que teve participação do cientista político Marcio André Santos, da professora Mailsa Passos e do cartunista Carlos Latuff, autor de charges que exercem forte apelo crítico e conscientização sobre questões palestinas.

Ativista desvinculada e avessa à política partidária, Thaira relatou acontecimentos que configuram o racismo sofrido por Palestinos de origem Árabe. Os relatos trazidos promoveram uma visão panorâmica do passado e presente dos palestinos, implicados com perda ostensiva de território e direitos retirados pelos ocupantes israelenses. As experiências e dados históricos abordados na roda de conversa ajudaram a compreender as complexas relações estabelecidas em virtude da ocupação colonialista do Estado de Israel, desde o final dos anos 1940.

A mobilização de mulheres foi apontada como importante eixo de resistência, sendo, por isso, alvo de pesada repressão. Por conta da participação em atividades organizadas por grupos femininos de apoio à Palestina Livre, Thaira foi presa. A passagem pela prisão permitiu a ela conhecer as torturas físicas e psicológicas infringidas aos detidos, em especial contra os ativistas.

Uma das questões levantadas por Thaira foi a importância de diferentes formas de colaboração com a causa da Palestina livre, afinal, liberdade é uma luta de todos. Na opinião dela, cada um deve se perguntar: como posso ajudar a Palestina? E, a partir da resposta, desenvolver ação em sua área de atuação.

Um dos pontos destacados foi a importância da solidariedade. Para a jovem, a rede tem grande importância na circulação de informações esclarecedoras sobre as lutas palestinas, sendo poderoso veículo para sensibilizar pessoas fora da Palestina e denunciar absurdos naturalizados naquele território. Por compartilhar desta visão, colaboradoras da Ciranda Afro promoveram o encontro do público carioca com Thaira Zoabi, em cujo depoimento reconhecemos aspectos presentes nas lutas travadas no Brasil contra violências motivadas por questões de gênero, etnia e divergências político-ideológicas.

Como frisou Thaira, fazendo uso de seu aprendizado da língua portuguesa: estamos juntos! Nossa solidariedade não é somente pela causa da Palestina, mas por todos aqueles, em qualquer parte do mundo, que são vitimas do imperialismo e do capitalismo, por todos aqueles cujos processos políticos e a violência destroem a cidadania e a humanidade.

Por uma Palestina livre e sem racismo!

Nascida em Nazaré, Thaira vive em Haifa, nos territórios de 48 (é como chamamos a região onde hoje é Israel). Os palestinos como ela, que vivem nessa área da Palestina histórica, são considerados cidadãos de segunda ou terceira classe, sendo amplamente discriminados, não tendo os mesmos direitos que os cidadãos judeus (já que é um estado judeu). São 1,5 milhão de palestinos nessa situação.

Thaira é ativista independente, ou seja, não é ligada a nenhum movimento ou partido. Participa de vários comitês e veio ao Brasil com a delegação da juventude palestina para participar do Fórum Social Mundial Palestina Livre em Porto Alegre, entre 28 de novembro e 1 de dezembro. Ficará três meses e deseja visitar assentamentos do MST.

Data: Quarta-feira, 16 de janeiro, às 14h.

Local: UERJ/ Educação, sala 12.124/F

A Thaira não fala português e sua palestra será em inglês. Portanto, serão bem vindos voluntários para realizar a tradução.

Memórias e trajetórias diaspóricas

Foto: Juan Castro

Dedicado à mulher africana, o dia 31 de julho, é uma data simbólica para a visibilidade das mulheres negras. A data foi escolhida para comemorar o 25 de julho, dia da mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, com bonita homenagem a brasileiras que assumiram destaque no cenário carioca das lutas afirmativas femininas e Afro-brasileiras.

Reunidas em cerimônia organizada por Lelette Coutto, coordenadora da Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - CEPPIR/RJ, receberam homenagens a escritora Conceição Evaristo, a trabalhadora doméstica e sindicalista Carlí Maria dos Santos, a economista Elma Aleluia, a atriz Léa Garcia, a professora doutora Helena Theodoro e a porta bandeira Dodô da Portela.

A noite foi aberta com uma homenagem para a professora Dulce Vasconcellos, presidente COMDEDINE e protagonista de ações decisivas para o início e continuidade das ações afirmativas realizadas no Rio de Janeiro. A seguir, a rapper Refem - Revolta Feminina (Janaína de Oliveira) assumiu a condução da cerimônia. Representante da nova geração de mulheres negras atuantes na cultura carioca, a apresentadora falou da emoção em estar ao lado de precursoras de antigas lutas que atravessam a trajetória de mulheres negras de diferentes gerações.

Sob aplausos, as homenageadas foram chamadas para compor a mesa e convidadas a falar das experiências marcantes presentes em suas trajetórias. O primeiro depoimento veio da eterna porta bandeira Dodô da Portela, figura histórica do carnaval carioca, que resgatou fatos marcantes em suas nove décadas de vida, oito dedicadas aos desfiles de escola de samba. Com invejável memória, Dodô resgatou detalhes de sua chegada à Portela, seu encontro com o fundador da escola, Paulo da Portela e características dos primeiros desfiles. Cheia de humor, falou de seu aprendizado autodidata, lembrando que bailava com o cabo de vassoura e quebrava as coisas em casa. Ressaltou, ainda, que era preciso rezar um terço para que sua mãe, uma lavadeira muito católica, permitisse sua ida aos ensaios na quadra da escola em Oswaldo Cruz. Na sequência, foi a vez da atriz Léa Garcia, cuja fala foi iniciada por uma reverência à presença da mais antiga Dodô, a quem a atriz viu desfilar várias vezes na Praça XI. Dentre os desfiles assistidos, Léa recordou aquele em que a agremiação de Madureira entrou na avenida silenciosa quando da morte de Paulo da Portela. Para Léa, o riso das homenageadas e da plateia diante dessas histórias é provocado por lembranças vindas à tona com semelhanças nas trajetórias femininas. Revisitando o passado, Léa recorda as expectativas de sua família de classe média, residente em Copacabana, que desejava que ela fosse contadora. Porém, após o encontro com Abdias Nascimento e contato com o Teatro Experimental do Negro, se afastou de seu desejo de ser escritora e da intenção do pai em ter uma filha contadora. Nos anos de 1950 sua carreira artística foi iniciada na dança, com Mercedes Baptista, no espetáculo Rapsódia Negra. Nesse período as convicções ideológicas e artísticas, recebidas de Abdias, foram decisivas para abraçar a carreira de atriz. Em momento emocionado e emocionante, a atriz enaltece a presença de Abdias em sua vida profissional e pessoal, destacando o pai de seus filhos como grande incentivador, seu grande amigo e um grande homem. Refletindo sobre a vida profissional ela pontuou a longevidade da carreira de atriz, na qual existem oportunidades em cada faixa etária, e manifestou seu desejo de continuidade nessa carreira e sua disposição em amadurecer trabalhos que já realiza como roteirista. Léa finalizou associando seu trabalho a um permanente interesse de trazer a figura do negro para o protagonismo na mídia, buscando, assim, uma sociedade mais justa e igualitária.

Atuando em ações do terceiro setor, Elma Aleluia falou do trabalho com crianças de baixa renda, realizado na comunidade carioca do Vidigal. Compartilha com a plateia a experiência de, como tantas brasileiras, ingressar na vida profissional após cumprir a tarefa de criar os filhos. Em sua fala engajada, Elma encoraja as realizações femininas afirmando que “não importa a idade que você tenha, importa o que você quer fazer” e usa como exemplo de êxito seu trabalho social, nascido de sua vontade em atuar na melhoria das condições de vida de crianças do Vidigal, comunidade onde nasceu e cresceu seu marido, hoje doutor pela COPPE. Aprendendo na prática, o casal tocou a instituição que hoje atende 303 crianças, oferecendo balé clássico, curso de inglês e outras atividades que ajudam na formação saudável. Um dos resultados do projeto foi a conquista de bolsas de estudos para ingresso de jovens em universidades, cursos de inglês e espanhol. Agradecendo a homenagem Elma ressaltou que “nós mulheres, somos valorosas, podemos fazer muito mais” e afirmou que sua experiência fortaleceu a convicção de que “só a educação transforma as nossas vidas.”

A quarta fala da noite foi de Conceição Evaristo. A escritora e poetisa enfatizou sua emoção diante de todas as histórias ouvidas, observando que todas as falas tinham a ver com sua história, e ressaltando que as semelhanças se devem ao “fato de sermos mulheres negras e de termos uma resistência muito grande”. Pensando a trajetória das mulheres negras em diferentes frentes de trabalho, a professora aposentada disse que “é muito bom perceber que, apesar da dificuldade que temos, somos muito fiéis. Que apesar da dificuldade, nada nos derruba. É bom dizer que nosso trabalho deu fruto. Quando a gente volta do COPENE (Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as), e vê a quantidade de mulheres negras, meninas, que estão aí... Isso prova que nosso trabalho tem efeito e que nos dá mais coragem para continuar. Minha escrevivência faz parte da minha experiência com mulheres negras.”

Professora pioneira na inserção do carnaval no universo acadêmico, Helena Theodoro falou do orgulho de estar entre mulheres que admira. Também escritora, Helena reverenciou o legado cultural herdado de seus pais que a levavam a espaços de cultura erudita e popular. Desse contato nasceu a admiração por Lea, Abdias, Dodô e outras figuras notáveis da cultura brasileira. Helena relembrou as lições recebidas do pai, um comunista que frisava sempre que era preciso batalhar para que todos tenham oportunidades, transmitindo à jovem a responsabilidade de aproveitar a oportunidade de adquirir uma bagagem cultural e formação raras aos negros. As palavras de Helena sintetizam seu sentimento nesta noite de homenagens: “a única coisa que a gente leva é o que a gente viveu. A minha relação com minha família foi muito importante e fico feliz de estar nessa família de mulheres. Estou colocando o carnaval dentro da perspectiva acadêmica para provar que esses saberes tem espaço de valorização. Os jovens podem encontrar apoio e inspiração nessas mulheres que estão aqui. Agradeço a Deus por poder ler e estar com vocês e ao lado de Conceição Evaristo.”

A fala final refletiu a simplicidade e poder de superação de Carlí Maria dos Santos, a dirigente do sindicato municipal das trabalhadoras domésticas do Rio de Janeiro. Após uma reverência à elegância de Dodô, Carlí lembrou que ao chegar ao Rio, aos doze anos, visitou a Portela e ficou impressionada com damas do samba que nunca saíram de sua memória. Ainda menor, aos 10 anos de idade, Carli começou a trabalhar como domética no interior do Rio de Janeiro. O início precoce do trabalho impediu seus estudos, aos quais deu continuidade depois de adulta e após muitos anos de trabalho na casa de uma mesma família na cidade do Rio. Seu trabalho de militância teve início quando passou a participar de um grupo de domésticas da igreja católica, onde teve acesso a um curso de alfabetização. Ela revela que foi preciso enfrentar a patroa para ter horas livres e garantir seu direito de acesso a educação. Teve início aí um processo de conscientização sobre seus direitos e sua humanidade. Deixou a casa dessa patroa, arrumou trabalho doméstico em melhores condições, entrou no movimento sindical e desenvolveu uma caminhada na Associação das domésticas, chegando à presidência em 2003. Carlí ressalta sua alegria diante do crescimento na militância e participação nas gestões que colaboraram com a evolução da associação para sindicato. Atualmente aposentada, considera necessário permanecer orientando as mulheres que chegam ao sindicato, porque “muitas pessoas ainda não se descobriram como gente, como seres humanos.”

Brindada com experiências de vida tão ricas, a plateia ainda foi surpreendida por intervenções artísticas que presentearam também as homenageadas. Vindas de diferentes pontos da plateia, talentosas artistas afro-brasileiras cantaram e encantaram. Declamando e cantando Lia Vieira fez a primeira intervenção, Iléa Ferraz deu vez ao samba, acompanhada do pandeiro e de sua poderosa voz e Maria Ceiça dividiu a cena com a saxofonista Mônica Ávila. Entoando Humbiumbi, canção de Filipe Mukenga, Maria Ceiça encheu o teatro com sua voz melodiosa, utilizada também em Muxima, canção tradicional angolana. Envolvida, a plateia participou da homenagem com um coro vindo de corações (muxima) que se deixaram levar pelo rio de histórias passadas nas vidas de Dodô, Lea, Elma, Conceição, Helena e Carli.

O som do sax fechou essa noite que abriu espaço na memória dos que presenciaram a ciranda formada por mulheres afro-brasileiras que dão as mãos para resistir na luta.

Movimentos sociais se unem contra a corrupção no Centro do Rio

A Cinelândia foi palco de ato contra a corrupção na cidade do Rio de Janeiro

Ontem na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro, mais de 2.500 pessoas estiveram reunidas para protestar contra a corrupção. Apartidária, a manifestação resultou de uma mobilização organizada pela sociedade civil e convocada pelas redes sociais.

Entre os participantes estavam artistas, estudantes e representantes dos bombeiros, categoria que reivindica melhores condições de trabalho. Para os manifestantes, a palavra de ordem era prisão para os políticos que praticam a corrupção. Faixas e cartazes expressavam a indignação com as diversas modalidades de corrupção naturalizadas no cotidiano, algumas pediam a transformação da prática em crime hediondo.

Nas escadarias da Câmara de Vereadores, manifestantes lembravam acontecimentos que comprovam a longevidade da corrupção em diferentes esferas da política. Comparado ao número somado por desvios e rombos decorrentes da corrupção, o número de participantes era pequeno, porém, o grupo reunido em frente ao Teatro Municipal deu mostras de que a sociedade civil não aplaude as cenas protagonizadas por políticos e dirigentes civis que insistem em manter a corrupção em cena.

Nos últimos meses, quatro ministros saíram do governo Dilma Roussef acusados de corrupção. A configuração deste momento de faxina no poder executivo inspirou alguns manifestantes a levar vassouras para o protesto, transformando o utensílio doméstico em símbolo da limpeza que a sociedade civil deseja.

Por volta das 19h, a manifestação estava em primeiro lugar no Twitter no estado Rio de Janeiro, confirmando a força das redes sociais para dar visibilidade ao resultado desta forma de mobilização organizada virtualmente e cada vez mais associada aos recentes protestos públicos deflagrados no mundo.

Eu tenho fé 2011

Caminhada contra intolerância religiosa reúne milhares pessoas em Copacabana, 18 de setembro de 2011

Mais uma vez reuniram-se em Copacabana diversos seguidores das mais variadas religiões para a quarta edição da Caminhada em favor da liberdade religiosa no Rio de Janeiro. Organizada pela CCIR/RJ, a marcha é uma das ações para combater atos de intolerância religiosa, como o praticado por quatro jovens cariocas que destruíram o templo Cruz de Oxalá, no Catete.

Tendo como lema “Caminhando a gente se entende”, o evento, que já faz parte do calendário carioca, promoveu a confraternização entre umbandistas, candomblecistas, espíritas, judeus, católicos, muçulmanos, malês, bahá’í, evangélicos, hare Krishnas, budistas, ciganos, wiccanos e agnósticos.

Vindos de todas as partes do estado do Rio de Janeiro e também de outras cidades e estados como Minas Gerais, Espírito Santo e Belo Horizonte, religiosos de todas as crenças ouviram palavras de fé e demonstraram ser intenção de todos consolidar a tolerância religiosa e o respeito às diferentes crenças e manifestações de fé.

Além de lideranças religiosas, a caminhada contou com a presença de lideranças políticas e de movimentos sociais, como Eloi Ferreira, Presidente da Fundação Palmares e Ivanir dos Santos, babalaô e membro do CCIR/RJ. Mereceu destaque a presença de membros e simpatizantes da religião Bahá’í, que denunciaram atos de perseguição realizados contra os seguidores desta religião no Irã.

Uma das principais ações do evento foi a divulgação da proposta de criação de um plano nacional de combate à intolerância religiosa. As falas de lideranças convergiram no intuito de conclamar a todos para a necessária mobilização em torno da construção de práticas que consolidem o respeito entre os cidadãos praticantes de diferentes credos.

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Protesto em favor dos Bahais
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