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Largo da Batata Território Livre para a Esquerda

sábado 6 de junho de 2020, por Carolina Brunelli Dagnino ,

O Largo entrou para a história como o ponto de concentração que reuniu milhares de pessoas em junho de 2013

Hoje, dia 6 de junho de 2020, o ato organizado pelos movimentos Somos Democracia, Frente Povo Sem Medo e Ato Urgente SP e Vidas Negras Importam, teve o local de sua realização alterado para o Largo da Batata em Pinheiros. Declarando que não irão aceitar nenhum tipo de intimidação, tomaram essa decisão como uma resposta ao atentado à liberdade de manifestação do povo feito pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que proíbe a realização de atos no domingo dia 07/06 na Av. Paulista.

Neste texto, explico porque penso que o território do largo da Batata deve ser usado por enquanto como o local preferencial para concentração de movimentos e atos da esquerda paulistana, ao invés da Av. Paulista. Para embasar minha proposição começo com uma breve história desses dois locais.

A Av. Paulista, conhecida como espigão e coração da cidade de São Paulo, é uma área elevada da cidade, um planalto. Antigamente, servia de passagem de boiadas a caminho do matadouro; ali havia chácaras e casebres. Sua inauguração em dezembro de 1891 constitui o primeiro passo para urbanização da região. Ela foi idealizada para que servisse para a passagem de bondes e carruagens, e deveria abrigar os palacetes dos futuros barões.

Eles vieram ao longo do começo do século. Eram moradias das elites construídas com o lucro da agricultura e do comércio. Negociantes, novos-ricos, de famílias europeias e, é claro, os fazendeiros do café. Com sua cultura, criaram os estilos variados da Avenida que ficou conhecida como “corredor dos barões do café”. Atualmente, a Avenida é o maior centro financeiro da cidade, também o maior espaço cultural e palco para diversas manifestações de diferentes segmentos da sociedade.

O Largo da Batata e seu entorno eram ocupados por indígenas quando da fundação do que viria a ser o bairro de Pinheiros, no final do século 16. O local, próximo ao rio, abrigou o Mercado Caipira, onde eram comercializados produtos agrícolas que chegavam do interior do Estado. No começo do século 20, foi construído um mercado municipal, fortalecendo a característica comercial da região. Finalmente, na década de 1930 bondes elétricos ligavam o largo ao centro da cidade.

Lembrando que tudo é estratégia, se entende por que, desde “sempre”, os pobres, as minorias marginalizadas, se localizam em zonas mais baixas da cidade e os ricos em zonas mais elevadas. De cima do morro é possível para o rico ver o pobre chegando e ir se preparando para lutar com ele.

O nome Largo da Batata é usado desde a década de 1920, por concentrar vendedores de batatas, próximo a uma cooperativa. Mas só em julho de 2012 o local recebeu este nome oficialmente.

O Largo entrou para a história como o ponto de concentração que reuniu milhares de pessoas em junho de 2013 no 5º Ato contra os aumentos na tarifa dos transportes no estado, organizado pelo Movimento Passe Livre. Atualmente é sede do projeto “A batata precisa de você”, que visa a revitalizar o espaço urbano e tem uma intensa vida noturna. Pessoas de diferentes classes sociais e raças ocupam os bares ao redor, desde os famosos pagodões da av. Faria Lima até os bares hypados e cheios de “tendência” para jovens alternativos da elite paulistana.

Essa história, que colocou a Av. Paulista como um lugar estratégico, fez com que realizar manifestações ali para demonstrar força passasse a ser um objetivo da esquerda. E, isso envolvia eventuais confrontos com grupos de manifestantes da direita. Esse disputar a Avenida que sempre pertenceu à burguesia soava como uma tentativa de lutar por um espaço que nunca lhe pertenceu.

Por várias razões, algumas delas repetidas à exaustão nos últimos dias, me faz pensar numa proposta alternativa. A de construir uma identidade em um território que carrega uma história digna, de luta e vivência da classe trabalhadora. Nesse território podemos enfim, construir uma narrativa própria que tenha como palavra de ordem e ideia-força de construir uma outra sociedade pela mão de um povo forte.

Esse espaço seria o território para criar e consolidar entidades de base ou movimentos massivos que tenham articulação interna e poder necessário para lutar pelo interesse das maiorias e assim, acumular forças para transformar as relações sociais a partir das lutas coletivas. Em outras palavras, organizar o quilombo para derrubar a casa grande.

Já dizia, Sun Tzu na “Arte da guerra” – “O bom estrategista é aquele que escolhe o lugar e momento da batalha”. A esquerda deve decidir se nós vamos para luta quando o inimigo chama para batalha no campo dele? Ou vamos quando nós escolhermos o lugar e o melhor momento? Enquanto não tivermos força suficiente para escolher o lugar e o momento para derrotar o inimigo, devemos acumular força.

Eu acredito que essa demonstração e todas daqui para frente devem ser no Largo da Batata. A partir dali vamos nos expressar, dialogar com a parte da sociedade que nos apoia e acumular forças.

Reforço que a esquerda não deve pensar que isso representa um recuo e ficar envergonhada, e sim entender que isso é uma ação para marcar um território para acumulação de forças.

Os líderes dos movimentos que estão organizando o ato neste domingo devem fazer uma limonada com o limão que a proibição o TJ-SP está oferecendo.

Imagem: Wikipedia