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Bolando uma ideia na live

terça-feira 9 de junho de 2020, por Terezinha Vicente ,

Não foi fácil para um movimento que junta mais de 100 mil numa ação ser obrigado a não fazer. A Marcha da Maconha 2020 foi online.

Imagem: Marcha dos 100 mil em 2018

Quando podíamos imaginar que o maio verde 2020 fosse ser de pandemia global e que impediria várias marchas da maconha por esse Brasil?! Aqui em SP era prá acontecer no último sábado, dia 6 de junho, não deu. A tristeza aumentou geral. Ainda bem que teve o ato antifascista e anti racista no domingo, deu prá desafogar um pouco. Tava cheio de maconheirx lá, mas não tem aquele sabor.

Um movimento que começou correndo da polícia nos primeiros anos deste século, nas principais capitais do país; conquistou em juízo, em 2011, o direito de defender nas ruas a legalização da maconha; foi aumentando o fumacê geral e a presença; e há 2 anos passou das 100 mil pessoas na cidade de São Paulo, na maior ação de desobediência civil coletiva por estas bandas do globo. Não é fácil para esse movimento admitir não poder enfrentar o coronavírus.

O jeito foi desconvocar a ida às ruas. Logo este ano, quando foi homenageada JuPaula, jovem feminista libertária trabalhadora com redução de danos do movimento anti racista, uma das presenças à frente da marcha desde sempre e que nos deixou no ano passado. Mas a homenagem foi feita, às 4 e 20, o vídeo ficou lindo. Ta lá nas redes.

A Marcha da Maconha SP não podia deixar passar um ano sem ação. E deu pra aprender bastante. Claro, não é a mesma coisa fumar um sozinhx em casa, dançar sozinhx em casa, não sentir aquele cheirinho olhando pra PM, não abraçar as amigas, os amigos, não dar tanta risada. Não gritar pelo direito de escolher o que fazemos com o nosso corpo e pela nossa felicidade. Mesmo tendo por mestre de cerimônias Diva Sativa, que eu preferia abraçar.


Imagem: Bolando com as marchas regionais

“Tudo que ingerimos e que não é nutricional, não é alimento, é droga”, começou o professor Henrique Carneiro (USP) na primeira sessão do “Bolando uma ideia”. Historiador e pesquisador das drogas, ele nos conta que elas são uma necessidade humana. Os temperos já foram considerados drogas. A história conta também o quando e porque foram proibindo algumas e pesquisando e liberando outras.

Cris Lima, da Cultive, falou de sua experiência com o uso da maconha medicinal, para sua filha autista, que em pouco tempo foi liberada de todas as outras medicações.

Solidarizou-se com as mães que perdem filhos para a guerra às drogas, dor maior que a dela, disse! A militante considera inegáveis os benefícios da planta, inclusive o thc. Ambos não pouparam críticas à política burra de proibir a produção doméstica, ou cooperativa, do óleo e importá-lo para ser cobrado mais de 2.000 reais por um vidrinho na farmácia. No medicinal o acesso tá ainda mais puxado. O que não faz uma proibição!! “No Canadá estão construindo escolas com a renda vinda da comercialização da maconha”, nos conta o prof. Henrique.

Desenvolver o debate público sobre as drogas é fundamental, comparar com o álcool e o tabaco, ambas com potencial mais prejudicial do que a maconha, defende. Falou ainda da política de encarceramento em massa, aqui e nos EUA, como forma de controle de populações vulneráveis. E juntou as pontas. A proibição da maconha aqui está relacionada a sua associação com as populações africanas no Brasil, “é coisa de negro!”. Não por coincidência, são negrxs xs principais vítimas do encarceramento em massa.

Bolando uma ideia com Laylah Arruda foi a segunda conversa. Laylah mora em Chicago, nos EUA, faz parte do Coletivo Feminista Feminine Hi-Fi, cantora, MC de sound system. E é negra. Então, a conversa foi longe, da demonização dos corpos até como funciona a legalização, existente lá onde mora. A última conversa foi com a galera das marchas regionais, um bando de loucxs que ousam organizar movimento na Brasilândia, no Grajaú, no fundão da Sudoeste. E teve solidariedade virtual, mas real, com as famílias lá dessas pontas periféricas, assim como com as Mães de Maio.

Eu já viii... já dancei, já curti. Ao vivo. Mas talvez ponha pra tocar os DJs pra dançar de novo, já que é o melhor exercício aeróbico pra quarentena. Foram sensacionais as discotecagens que começaram com minha querida Carlu, tocando no vinil só cantoras brasileiras antiproibicionistas, antes das conversas. Depois, até as 22h ouviu-se a diversidade dançante dos manos e das minas, com DJs Pepe Paulo, Mary G, Rutz, Ge e Tosh.

Tá tudo lá, nas redes. Vale a pena curtir a Marcha da Maconha virtual, 2020.

Marcha da Maconha online 2020