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Entre Piedade e Saudade, Revolta

quarta-feira 24 de junho de 2020, por Frederic Breyton,

Piedade, de Claudio Assis, incorpora conflitos socioambientais do capitalismo dependente

A vista que invade as paredes de vidro do edifício alto, o litoral cristalino a envolver o apartamento estéril que aloja a viagem implacável do negociante tem seu lugar na periferia do capital. Como um aquário às avessas, o oceano ali é melhor contemplado de longe. A juventude inaugura a revolta com um mergulho, um banho televisionado cuja proposta é causar reação — Tá louco? Aqui é praia de tubarão.

Não é novidade que o dinheiro chega falando alto, diz vir a bordo da salvação embora distribua, a cada vez que expira as terras passadas em seu pulmão maquinal, miséria alargada e lucro estreito, espichado. O Brasil dos megaprojetos de exportação primária é que está em foco. A promessa da riqueza escondida sob todos — ao só alcance dos braços titânicos e extensos como os valores propagandeados em dígitos abstratos a extrapolar os dedos das mãos — a promessa da riqueza é um anzol que costura a boca de quem embarca na linha do terminal da saudade.

Piedade, assim chama a cidade.

Os tubarões em Boa Viagem, notícia afiada trazida pelo Porto de Suape à capital pernambucana, ganham no filme camadas diversas: o tubarão piedade, espécie mutante que teria surgido da petroleira instalada como um contêiner em desproporção sobre a ferida aberta da terra; o tubarão peixe, onipresente como o mar da paisagem, intocável, blindado pelo medo e surrado pelos sonhos; o tubarão moderno, que engole tudo que em seu caminho parecer arcaico, produzindo a pobreza como o lixo que se atira pra que cheire em outro lugar; o tubarão da denúncia, a relembrar nos muros pixados o resultado da ganância; o tubarão hacker que invade os gadgets do advogado enrustido.

Advogado, aliás, quem tem mais é diabo. Encarregado de apagar os que sobram na praia desertada pela revolta do mar frente às instalações da PetroGreen, Aurélio empunha o “cala boca” bradando tudo como uma oportunidade. Ele é o homem dos negócios, está ali pra indenizar os que não se vão, pra que, enfim, deixem Saudade.

A praia é lar e sustento de uma família empenhada em seguir no Paraíso do Mar, um bar famoso pela moqueca de cação (ou a gente come ele ou ele come a gente) e atrapalhado pela instabilidade do fornecimento de energia elétrica. O peixe agora é comprado de fora, mas sem luz não é pra comprar muito. Né? Cogita-se um gerador, combustível há de se ter, congelado o peixe do mercado não catinga as mãos.

A firmeza da família de Carminha, encabeçada pelo filho Omar, tem duas brechas. Ramsés, neto, bate os treze anos e anda sempre ausente. O menino sonha com duas coisas: entrar no mar e tubarões. Está a todo tempo afogado no virtual, como se pudesse se evadir do dilema que o lugar o impõe. A outra brecha é Humberto, falecido marido, que como o tubarão da canção de Carminha, leva seu coração, é mais um barco que vai. Humberto leva consigo a história de Ramsés, a história de Sandro, desenterrada por Aurélio.

“O petróleo já foi nosso, agora somos deles”, traça o pixo. “A PetroGrana tá apagando o nosso passado, ela tá cagando o nosso presente pra poder fuder com o nosso futuro”, amplifica o megafone. A sanha do capital, afinal, parece atropelar a cada passo um tanto da vida, revirando e explorando as eventuais fraquezas da gente pra abocanhar sempre mais um pedaço. Sobra a revolta, que não resolve o filme, mas quem sabe resolverá o capital.