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Museu de tudo e da oração

terça-feira 30 de junho de 2020, por Adroaldo Quintela (Adrô de Xangô) ,

Quem me conhece sabe da minha paixão pela prosa e poesia. Ganhei este livro de presente de aniversário. Tenho, portanto, a primeira edição de Museu de Tudo, publicada em 1975, contendo poesias do período 1966-1974. A dedicatória foi ornamentada com fragmentos de poema combatente de Torquato Neto.

"Agora não se fala mais
Toda a poesia guarda uma cilada
E qualquer gesto pode ser o fim do seu início.
Agora não se fala nada
E tudo é transparente em cada forma
Qualquer palavra é um gesto."

E perseguimos o Museu de Tudo com o amor transparente e inebriante que nos singulariza na universalidade dos sonhos e utopias juvenis. Taninha, 25/11/1976.
João Cabral de Melo Neto nasceu em Pernambuco, em 9/1/1920. Foi diplomata e poeta. Viveu na Andaluzia onde descobriu fios e tessituras da arte e da cultura que se ligavam simbólica e historicamente com Pernambuco e o Sertão Nordestino. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1999.

Com o explícito e acachapante apagão da memória cultural promovido pelo governo da necropolítica, não houve comemoração significativa do centenário de um dos maiores poetas brasileiros, cuja obra transitou do surrealismo ao concretismo. A mais conhecida criação de JCMN é Morte e Vida Severina, eternizada pela TV Globo.

No entanto, Museu de Tudo, dedicado ao poeta pernambucano Ledo Ivo, é o meu catecismo. Está sempre ao alcance, deposto no meu altar particular. Ler uma poesia de João Cabral em voz alta evoca o rito da prece, aproxima-se do que chamo de orar, imbuindo-me da força e da beleza das palavras cadenciadas, sonorizadas, rimadas, as quais me elevam aos píncaros do prazer e da vibração energética. Eis uma poesia muito atual, extraída de Museu de Tudo.

A DOENÇA DO MUNDO FÍSICO

Existe a pedra muscular,
sã, muito embora tumefacta:
exemplo, a pedra carioca,
pedra de couro tenso, grávida.

Há uma magra e sã, mas a pedra
magra, em geral, é cancerosa:
o marne do Ardeche, escamado,
bom para ruinas arqueológicas.

E há uma ambígua, a do elefante:
vista de longe é pedra prenha,
estuante e sã, pedra carnal,
pedra animal, mais do que pedra;

mas que de perto é pedra murcha,
tapera, doente, carunchosa,
e se de animal, de um animal
que fosse ruína arqueológica.

Adrô Quintela de Xangô
26/6/2020.

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