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5664 mulheres

terça-feira 30 de junho de 2020, por Antonio Herci,

Balas que matam jamais serão balas perdidas, mas balas que acharam seu fim: matar!

“”Balas que matam jamais serão balas perdidas, mas balas que acharam seu fim: matar! Acertaram o alvo e, ainda que seja dito “casual” ou “não intencional”, é um alvo tão recorrente, tão cotidiano, que pode-se mesmo constatar que a morte que uma bala perdida causa só é uma perda para a vida que mata e esperança de futuro aniquilada, mas é um ganho e um achado para a dominação ideológica de uma sociedade que tem entranhados institucionalmente a misoginia e o racismo: as balas primeiro acertam e matam e, depois, através dos aparatos de justificação e do descaso, os alvos que estavam pintados em cada um dos matáveis são apagados na confusão cotidiana da informação tendenciosa, para que suas mortes não sejam puníveis e sejam encobertas por um lamento cínico de quem puxa cotidianamente o mesmo gatilho e, ao matar tão seletivamente, disfarça-se em fatalidade.

5664 MULHERES é uma obra de 2014 da artista Beth Moysés (1960), que transcende essas mortes ao denuncia-las em sua concretude: trata-se de uma Bandeira do Brasil moldada com cápsulas de balas dispostas em uma plataforma superior [1] e montada em uma caixa de acrílico acima de um outro plano onde se vê, logo abaixo e sufocado, um tule bordado com contas de vidro, quase um vestido de festa, quiçá um vestido de noiva [2]. Diante do assustador peso das balas, apenas observadores atentos notarão o véu abafado: uma metáfora invertida da tragédia cotidiana que submete com chumbo e faz escorrer a vida a esperança, a beleza e a expectativa de um futuro, muitas vezes debaixo de nosso próprio nariz.

A obra, que foi doada pela artista, pode ser vista no Museu de Arte Contemporânea da USP e é parte da exposição “MAC USP no Século XXI – A Era dos Artistas”. Mas sua simbologia não é apenas abstrata e metafórica, é um dado estatístico numérico preciso e assustador: representam mulheres mortas por seus parceiros, 5664 casos em 2013.

Note-se que são balas usadas e, quando olhadas de perto [3], mostram sua verdadeira face: balas disparadas que acertaram seus alvos, usadas e distorcidas pelo efeito de seu disparo, jogadas aos montes, como quando ficam à mostra em alguma calçada, depois de alguma chacina, em algum beco das vidas apagadas, onde se pratica e se repete e se repete a mortandade.

No último quadro [4], vemos o contraponto através da face emblemática da perversão, em um outro projeto, “Aliança Pelo Brasil” feita em 2019 que, segundo seu autor, Rodrigo Camacho (1979), homenageia o esforço dos policiais que treinam, “incansavelmente”, para que matem mais precisamente e com mais eficiência, não desperdiçando cartuchos: até mesmo as mortes podem ser barateadas pela eficiência operacional. Elas estão arrumadas, ordenadas e mostram-se tão estéticas quando a ideologia a que se propõe por símbolo e representação: a obra foi um presente efusivamente acolhido como símbolo do novo partido do presidente misógino e genocida que hoje ameaça a vida de todas e todos nós em uma aliança de aniquilação e extermínio.

Uma é acervo do MAC, e será preservada como obra de arte. A outra, provavelmente, está emoldurada por interesses sórdidos em alguma sala escura, embalada por ameaças e sob a trilha sonora dos gritos de revolta e terror de quem morre ou é ameaçado, gritos que denunciam, mas estão, assim como o tule sob as balas, ocultadas por sob uma camada cínica de uma sociedade perversa.

Alguém poderia perguntar: mas porque mostrar uma obra tão vil, ao lado de uma obra de arte? Não seria melhor relegá-la simplesmente ao esquecimento, pela sua irrelevância estética e peso ideológico?

Penso que não. Assim como a imagem do vazamento de Césio 137 que, há mais de trinta anos em Goiânia, mostrou uma outra face dessa mesma perversão social, essa grotesca obra deve ser mostrada e eternamente lembrada como é: lixo tóxico da história, que nem para ser reciclado serve! E mostrada assim, ao lado de uma obra de arte, serve para ressaltar quão diferente é uma arma, olhada pelo assassino que a empunha ou pelo olhar contrito do último instante de uma vida que se apaga.
Serviço:

MAC – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.
Fechado durante a Pandemia, acesso e visita virtual:
http://www.mac.usp.br/mac/
A obra no Facebook do MAC:
https://www.facebook.com/usp.mac/posts/2328738047139820/

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