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Brasília invernou sem outonar

quinta-feira 2 de julho de 2020, por Adroaldo Quintela (Adrô de Xangô) , Cotidianos da Pandemia,

O futuro é agora, embora seja determinante para exercer o amor pelo outro e o amor incondicional.

Um ano que começou dando merda com cerveja não podia dar certo. Veio a pandemia e embaralhou tudo. Estamos em fase da quarentena sem fim. Temos tempo para olhar os detalhes da paisagem, assim como refletir sobre a passagem das estações.

Acho que as mudanças climáticas mudaram para sempre a configuração meteorológica de Brasília. Este ano não outonou. Choveu até fins de maio. A grama permanece viva e as folhas não começaram a cair. Relva e árvores verdes são a minha paisagem permanente. Cruzei poucas vezes o Eixão no sentido Norte-Sul e Sul-Norte. Desde abril costumava ver as quaresmeiras floridas depois da 110 Norte. Sábado, 13/6/2020, apurei o olhar viciado nas telas do celular e do laptop. Não vi as flores das quaresmeiras públicas!

Comparo as fotos de ontem à tarde com as manhã de hoje. O sol ainda dorme e o céu está da cor de chumbo. Vem um frio de lascar durante a noite e a madrugada. Como resido defronte ao nascente e perto do Ribeirão do Torto, o meu casulo não esquentará em nenhum momento do dia. Quando surgir o crepúsculo da tarde/noite vestirei o agasalho cheirando a naftalina e calçarei pantufas quentinhas.

Certamente, o inverno está chegando e tomará o lugar do outono que atrasou. Vai derrubar as folhas, secar o gramado e empoeirar as nossas casas. Meu nariz é o marcador do inverno. Começa a ressecar. Se não irrigar com soro fisiológico várias vezes ao dia, terei pequenas hemorragias nasais. Penso que é hora de ir para Salvador em busca de calor e umidade.

Todavia, tenho receio de sair de casa e me contaminar com o coronavírus. Cada vez mais postergo as saídas. Já não ando pela vizinhança para tomar sol visando aumentar a quantidade de vitamina D e observar as nuances e marcas do caminho. Saio de casa duas vezes por semana: compras de comida, remédios e carreatas pela democracia.

Meu casulo é o centro da minha existência. Aqui me basto, reencontro-me comigo mesmo e me relaciono amorosamente com a família, os amigos e o mundo. A nossa casa é ao mesmo tempo um espaço particular, universal e infinito, especialmente porque as tecnologias da informação e comunicação nos possibilitam uma conexão global em tempo real.

Sou um privilegiado e devo agradecer diuturnamente aos deuses e orixás. Não preciso quebrar o isolamento para ganhar o alimento de cada dia. Não nasci na época da cólera ou da peste, quando estar isolado era ficar só consigo mesmo, preso em casa ou num abrigo público. A conexão virtual é um bem da humanidade e veio para ficar.

O futuro é agora, embora seja determinante para exercer o amor pelo outro e o amor incondicional. Sem perspectiva de futuro o amor é impossível de ser praticado no presente. Por isso, escolhi o amor ao invés do ódio como filosofia de vida. O amor é fonte eterna de liberdade e esperança.

Imagem: Adroaldo Quintela