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Fake News: Sair do labirinto, evitar armadilhas, ganhar a batalha pela verdade e pela democracia

segunda-feira 13 de julho de 2020, por Emiliano José,

A armadilha das fake news nos desafia a todos.

Não se trata de fake news, apenas.

O buraco é mais embaixo.

Trata-se de um admirável mundo novo a ser desvendado, e com o qual já convivemos, cujas mudanças nos obrigam a uma reciclagem profunda, não tão fácil de ser realizada, ao menos para a esquerda.

Não adianta quebrar máquinas. O tempo não para. O mundo novo é fantasmagórico. Está nas nuvens. Desafia a noção de verdade, tão essencial, tão cara a todos nós, da esquerda.

Antes, sob um mundo muito próximo de nós, discutíamos a noção do escândalo político, criação a remontar a um Nixon, a um Collor, a tantos episódios conhecidos, com participação decisiva da mídia empresarial monopolista, antes atriz decisiva nas crises políticas, hoje pálida sombra do passado, embora ainda presente. Ainda me vejo estudando “O escândalo político, poder e visibilidade na era da mídia”, de John B. Thompson, essencial à época.

Tudo mudou, e com uma profundidade a nos desafiar a cada minuto.

Indagações permanentes, persistentes. Muitas perguntas, poucas respostas.

Como o atual presidente, a provocar uma tragédia social, econômica, sanitária, política de dimensão ainda desconhecida no Brasil de tão grave, consegue se manter de pé, com aprovação ainda de 40%?

Como consegue isso com a Rede Globo nos seus calcanhares?

Olhem, no mundo de Trump, de Boris Johnson, de Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal está começando um evento, e já surge outro e outro, numa espiral infinita que prende a atenção de todos, satura a cena midiática, todos embarcam sem nem se aperceber.

Esse raciocínio é de Giuliano Da Empoli, autor de “Os engenheiros do caos”, notável livro, a elucidar a loucura desses novos tempos, e só uso a palavra loucura por um descuido, não me levem a sério.

Sim, porque diante do caos à nossa frente, temos a tentação de falar em loucura, em desvario, num mundo fora do eixo, “tudo no Bolsonaro é loucura”.

Esqueçam.

Loucura coisa nenhuma.

Por trás do carnaval, dessa sucessão de escândalos, da criação infinita de fake news, de uma sucedendo a outra, da confusão criada a cada dia, tudo tornado conversa de botequim, quando o botequim estava aberto, da cozinha, dominando o bate-papo cotidiano, por trás disso tudo há método.

Bolsonaro, Boris Johnson, Donald Trump, Viktor Orbán, Beppe Grilo, Giusepe Conte não são fruto de uma movimentação espontânea.

A extrema-direita ressurge na cena política, vai para o topo, graças à ação, ao trabalho intenso, feroz de dezenas de spin doctors, ideólogos e, cada vez mais, cientistas especializados em Big Data, sem os quais aqueles líderes jamais teriam chegado ao poder, como diz Da Empoli.

Spin Doctors são consultores políticos ocupados, diante de situações de impasse, crise ou estagnação, em identificar a direção capaz de mudar a tendência em favor de um candidato ou campanha.

Big Data é área de conhecimento dedicada a lidar com quantidade de dados de tal maneira extensa, proibitiva de ser analisada pelos sistemas tradicionais. Tem sido amplamente utilizada para potencializar e monetizar dados de usuários de redes sociais. Engenheiros do caos, lembrados por Da Empoli: Gianroberto Casaleggio, Dominic Cumings, Steve Bannon, Milo Yannopoulos e Arthur Finkeltein, alguns deles.

Inflamar as paixões do maior número possível de grupelhos e adicioná-los, mesmo à revelia. O algoritmo dos engenheiros do caos trabalha no sentido de interceptar as aspirações e os medos dos usuários, principalmente o medo. Qualquer um pode acreditar na verdade, natural. Acreditar no absurdo, aí sim, é uma real demonstração de lealdade. Assim, a extrema-direita recente segue seu caminho até agora triunfante.

Não nos parece próximo de nós, da lealdade daquela parcela do nosso povo a insistir no apoio a Bolsonaro, não obstante a nosotros todas as falas dele parecerem absurdas?

Esse carnaval contemporâneo, na visão do nosso autor, nada irracional, se alimenta de dois ingredientes: a cólera de alguns meios populares, fundada em causas sociais e econômicas muito reais, e a máquina de comunicação superpotente, concebida em sua origem para fins comerciais, e transformada em instrumento privilegiado daqueles cujo objetivo é multiplicar o caos, voltado à disputa do poder político.

Como se mover nesse carnaval?

Primeiro, compreendê-lo. Tentei dar algumas pistas nessas primeiras linhas. Se posso sugerir, mergulhem no livro de Giuliano Da Empoli. Indispensável.

Segundo aprender a utilizar-se do admirável mundo novo, admirável e cheio de armadilhas.

O mundo do Big Data não pode mais apenas ser dos adversários, como tem sido. Somos adversários das fake news, e não podemos ser reféns delas. Não morder iscas. O anúncio de um possível novo ministro traz o assunto para a mesa dos bares ou agora de nossas casas e dão direção aos nossos twittes, pretendendo seja um bom combate enquanto estamos na verdade entrando no jogo adversário.

Nossa agenda tem de ganhar velocidade e rumo. Ocupar as redes sociais. Não caminhar ao sabor do jogo adversário. Construir a cada dia a nossa pauta. Com os atuais instrumentos tecnológicos, com as tecnologias da informação, é possível compreender quais as questões a atormentar, a preocupar o nosso povo, o mundo do Big Data possibilita isso. Não é possível ignorar a utilização de tais meios, único modo de ampliar nossas possibilidades de luta político-cultural.

A extrema-direita tem sabido fazer essa luta no Brasil e no mundo. No caso brasileiro, unindo a orientação de um Steve Bannon a uma atuação político-cultural persistente, como se pode constatar pelo avanço das igrejas neopentecostais, cuja presença na sociedade brasileira tende a ser hegemônica em pouquíssimo tempo. Grandes pastores hoje são príncipes da política, e não está em causa aqui os valores morais deles. Essas igrejas são, também, elementos essenciais, de aproximação com os pobres, e são veiculadoras disciplinadas dos fake news disparadas pelo comando bolsonarista.

Podemos dizer, com razão, do financiamento de milhões de fake news a influenciar decisivamente o resultado das eleições de 2018. Mas, a vitória de Bolsonaro dependeu disso, e de muito mais, inclusive de um exército militante nas redes sociais.

Há, nesse momento, uma investida, sobretudo do Judiciário, mas também do Legislativo, para frear as fake news. É um movimento positivo.

Penso, no entanto, devamos ter um olho no padre, outro na missa, um olho no gato, outro no peixe.

Uma legislação nova, sob a orientação correta de combater as fake news, não poderá atentar contra a liberdade de expressão

Somos contra as fake news, e a favor obviamente da liberdade de expressão. Ninguém tem o direito de propagar mentiras em massa como se verdade fossem. E o Estado não pode criar mecanismos a dificultar a liberdade de expressão, a fortalecer o autoritarismo.

Não caiamos, ainda, na armadilha da grande mídia empresarial, nesse momento combatendo as fake news, parte dela ao menos, Rede Globo incluída.

Essa mídia combate as fake news, bate em Bolsonaro, preserva Paulo Guedes, sacraliza Sérgio Moro, como se fosse possível separá-los.

A Rede Globo foi, ao longo de sua história, uma das maiores produtoras de fake news do jornalismo brasileiro, embora à época não fosse este o nome. É lobo em pele de cordeiro.

Escapar do labirinto.
Lutar pela democracia, pela liberdade.
Direitos plenos à liberdade de expressão.
Luta pela verdade.
Pela retomada dos direitos sociais.
Pela distribuição de renda.
Outro mundo é possível, e depende do nosso povo.
De sua consciência e atuação política.
Não há atalhos.