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Adupé Mestres! (II)

sexta-feira 7 de agosto de 2020, por Franklim Peixinho,

‘E apesar de tanto não, tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade’’

A alegria da cidade chamada Bahia. Lembro que os antigos se referiam assim à terra do Salvador, a Boa Terra. Esta alegria compõe o espírito da baianidade nagô, pintada pelo poeta nas suas letras.

Alegria festejada em um dia nublado, que insistia em ser triste, no trajeto daquele caminho inclinado, em que lágrimas muitas vezes se encontram nas partidas de cada um. Ao som de suas canções, o sorriso generoso e largo que ele tem, tomava conta de alguns suspiros sôfregos e tristes, para anunciar a serenidade de uma celebração ubuntu.

E as Histórias de Jaime Sodré? São preceitos sagrados que gravitam nas nossas memórias, quando forem necessárias para informar quem somos e o que fomos nessa odisséia da história da humanidade.

África é o berço de tudo.

José Castiano, filósofo moçambicano, na sua obra ‘‘Filosofia Africana da sagacidade a intersubjectivação’’ fala da passagem como um ‘’[...] momento da reconciliação familiar... É um espaço de celebração dos feitos e sabedorias assim como da bondade do desaparecido’’. Uma reverência que transcende o sincrético culto cristão da eternidade e exalta o caráter, as ações que marcaram o caminhar de um espírito no Aiyê, e a natureza divina que cada singular existência possui como próprio Orixá ou Vodun de si.

Foi, e será sempre, um culto Jeje, Bantu, aos nobres Inkisse ou Vodun, relembrado seus feitos extraordinários, predicados e divindade, como também o selamento solene da continuidade solidária, fraterna da prática ubuntuísta nos outros Orixás, Inkisses e Voduns, que eles inspiram: "eu sou porque tu és e nós somos porque vós sois".
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Citando novamente José Castiano e a celebração africana/moçambicana da morte: ‘‘Pois, no funeral de Viegas, nós estávamos lá para o julgarmos de acordo com a forma como ele tratou aos outros em geral, mas fundamentalmente como ele tratou aos mais fracos: seus alunos durante a sua vida como professor; seus sobrinhos, filhos; seus estudantes; seus subordinados; pessoas desfavorecidas; pessoas com fome de comida e saber’’.

Vão-se bibliotecas vivas, parafraseando João Jorge do Olodum. Entidade viva, um acúmulo de sabedoria e vivências outras, de tempos que se foram e escolheram professor Jaime Sodré para se expressar.

O homem do couro que ecoava no terreiro sagrado da ladeira do Bogum, no bairro rico de negritude, cultura, intelectualidade, axé, o Engenho Velho da Federação. A História da Cultura Negra tomava corpo semântico, um sentido real, nos textos ditos e escritos pelo professor Sodré. É uma historiografia dos subalternizados insurgentes e não dóceis, um local em que nos encontrávamos, nas encruzilhadas de suas palavras exuísticas, que abriam caminhos diante do positivismo epistemicida dos livros didáticos de História.

Meu pai Omolu console seu povo.

Professor Jaime Sodré, o preto Doutor, que inspira sua gente, orgulha as nações do povo de santo, segue para compor o panteão de divindades baianas, que regerão a epistemologia resistente da afrocentricidade aprendida do lado de cá do Atlântico.

Mestre Jorge deixou seu afago em cada um que lhe dirigiu o olhar ou pedido de uma lição qualquer, é uma referência para população preta brasileira. Travou o debate racial palmeado na cultura – é exemplo a faixa ‘‘África do soul, Botha pra fora’’ que ergueu no final do festival em 1985, antes de cantar ‘’Caribe, calibre, amor’’ - e a difusão da educação para ‘‘os mais fracos’’, não privilegiados.

Para ele, Paris é parecida com Santa Amaro, só que menor. De fato, não podemos nos mudar, embora seja o mundo nosso lugar; alterar, sim, as estruturas e estar em todos os cantos, porque podemos/devemos, sem esquecer o local de onde viemos, a ancestralidade, os irmãos e irmãs que carregamos, pois somos neles e com eles.

Adupé mestres!

Imagem: Apub,montagem ciranda.net

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